Crítica: A Bela e a Fera

Quem não se recorda ou não conhece a história de “A Bela e a Fera”, de 1991, pode ter a chance de assistir agora, em 2017, no live-action que a Disney produziu e estreou na quinta, dia 16.

O clássico conta a história de Bela (Emma Watson), uma camponesa que mora com seu pai, Maurice, numa pequena cidade na França. Maurice é inventor e Bela, diferente das outras moças da cidade, tem um fascínio por livros e não cede a pressão social de se casar com Gaston (Luke Evans), o ”partidão” da época. Um dia, em que sai para vender suas invenções, Maurice se perde e acaba por parar no castelo de uma Fera, onde é feito prisioneiro. Assim, Bela vai ao seu encontro e troca de lugar com seu pai. Com o tempo, ela descobre que a Fera (Dan Stevens) é, na verdade, um príncipe que fora amaldiçoado por ser egoísta e essa maldição só será quebrada caso ele consiga amar alguém.

A produção do filme se divide entre seis pessoas que tornam o live-action fiel a animação e ainda acrescentam mais cenas, canções e personagens. Ao contrário do clássico de 1991, o filme procurou por outros lados da história, explicando questões que antes estavam em aberto, como o passado dos protagonistas. Algo que já tinha sido tocado no espetáculo da Broadway.

Os roteiristas Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulous não fazem grandes alterações no roteiro original. Como citado anteriormente, apenas acrescentam cenas sobre o passado dos protagonistas e trabalham em explicar porque a Bela e a Fera são tão ”opostos”. Novos personagens também foram inseridos, o que acabou dando um novo fôlego para algumas cenas.

O trabalho do diretor Bill Condon divide-se em duas partes. A primeira trata-se de um olhar teatral sobre a camponesa da pequena cidade que deseja uma vida melhor do que aquela a qual foi destinada. Nesse momento, todas as atenções são voltadas para ela, inclusive quando já somos apresentados a Fera. Assim, algumas cenas de protagonismo apenas da moça acabam por serem arrastadas, sem uma grande atuação ou expectativa. Até mesmo a falta de ação (no caso, daquela atitude óbvia que esperamos que um personagem tome em um filme) de alguns personagens não passam despercebidas. Na segunda parte, em que começamos a ficar mais íntimos da Fera e dos objetos do castelo, a produção consegue mostrar a que veio e realizar um trabalho impecável.

Emma Watson, a protagonista da trama, consegue se desprender de Hermione Granger, seu papel nos sete filmes da franquia Harry Potter. Para criar a sua própria Bela, a atriz disse ao Entertainment Weekly que optou por fugir ainda mais do padrão social imposto a mulher de constituir família e ser subordinada. Assim, Emma consegue transmitir para a personagem essa questão de empoderamento e emancipação feminina. A atriz desempenha um bom trabalho, principalmente nos momentos em que precisa se fazer mais destemida do que é, mas erra ao não passar toda a emoção necessária da personagem. Algo que não compromete muito suas cenas, pois é possível notar que o trabalho da atriz ainda nos permite enxergar que a personagem não deixou em momento algum de sonhar com seus objetivos.

A Fera é interpretada pelo ator Dan Stevens, que aparece com um sincero e delicado jogo de cena, talvez justificável por sua impecável atuação na série britânica “Downton Abbey”, da qual o ator tira alguns ”traços” para compor os momentos em que ainda é príncipe. Quando é Fera, na maior parte do filme, Stevens muda as características do personagem e transforma-se em outro. A Fera, que também sofreu com a falta de uma figura materna, é introspectivo, solitário e triste. A maldição afeta diretamente em sua vaidade, justificando a necessidade de fazer com que alguém se apaixone por ele ainda como Fera. Após o convívio com Bela, a interpretação do personagem torna-se outra, na qual seu lado mais sensível é apresentado, e, esse, o ator consegue passar com muita naturalidade.

Os objetos-pessoas que moram no castelo são feitos por grandes nomes: Ian McKellen como o relógio Horloge, Ewan McGregor como o candelabro Lumiére e Emma Thompson (foi difícil reconhecer!) como Madame Samovar, o bule. Os três, juntos, dão a trama a parte cômica, afinal, Lumiére e Horloge ainda divergem sobre a melhor maneira de servir seu mestre, como na animação. Os objetos dão respostas para todas as perguntas que o desenho não respondeu, como os outros filhos da Madame Samovar (agora só existe o Zip).

O antagonista Gaston, que quer desesperadamente se casar com Bela, é interpretado pelo ator Luke Evans. No filme, o personagem é narcisista e embora se declare para si mesmo inúmeras vezes, tem a necessidade de ser motivado por seu ajudante LeFou. Esse, interpretado pelo ator Josh Gad, foi alvo de polêmicas por ser um personagem homossexual. É necessário deixar claro que homossexuais sempre existiram, dentro e fora do audiovisual (incluindo diversas animações). Foi – e continua sendo – desnecessário tanta polêmica para uma cena tão curta, inclusive, o ator consegue surpreender nesse papel, dando ao personagem um toque mais humano. Enquanto Gaston é insensível, LeFou pondera cada atitude em que a dupla toma, ainda que não perceba o quanto abusiva é a relação que tem com seu comparça.

Todos os atores cantam as canções do filme. O clássico ”A Bela e a Fera” pode ser ouvido na versão sensível de Emma Thompson. Uma das músicas mais bonitas é ”Evermore”, interpretada pelo ator Dan Stevens, como a Fera, no momento em que Bela volta para salvar seu pai. O toque saudoso e apaixonado com que Stevens domina canção emociona o público. A cantora Céline Dion dá voz a ”How Does A Moment Last Forever”, canção inédita para o filme e desprende a interpretação utilizada anteriormente, na animação de 1991, ao entonar a música tema da trama.

O figurino de Jacqueline Durran tenta ser o mais fiel possível e nos surpreende em cada detalhe apresentado, desde a composição dos personagens da vila como os do castelo. Cada personagem está vestido perfeitamente, como as roupas do baile da Bela e a Fera. A reconstrução de época para as vestimentas, e a fidelidade com que foi feito, é simplesmente extraordinária. O clássico vestido amarelo, referência essencial do filme, é apresentado com minuciosidade, desde as camadas até os brilhos.

Com um design de produção estonteante, o filme tem grandes chances de concorrer ao Oscar do próximo ano nessa categoria. Os cenários arquitetados fazem menção aos do original e nos deixa emocionados com tamanha a perfeição. Mesmo trazendo as tradicionais paletas em tons pastéis, as quais sustentam muito bem a atmosfera da época, é no contraste das demais cores (azul, laranja, amarelo nas cenas do vilarejo – e o toque em vermelho com dourado) que temos o encontro de diversas emoções que o filme acarreta.

Por fim, o live-action mostrou a que veio e não fugiu de nada que propôs. É de se emocionar do começo ao fim e, claro, voltar a ser a criança que desperta em cada um de nós quando falamos da Disney. O filme estreou hoje nos cinemas.


Os créditos finais apresentam os atores e os personagens que interpretaram, fazendo um antes e depois com as imagens. São cenas bonitas que merecem ser vistas, além das canções que voltam a ser reproduzidas durante os créditos.

Polêmica com o personagem LeFou

O filme tem classificação etária de 10 anos. Talvez, a única cena em que crianças consigam questionar seus pais, seja no final, no qual o personagem dança com outro, que também é homossexual. Fora isso, não há necessidade de críticas exageradas e nem boicote ao filme.

Crítica: A Bela e a Fera
9Pontuação geral
Votação do leitor 4 Votos
8.8
  • Aimoré Neto

    Muito bom. Assisti ontem e amei!

    • Júlia Cruz

      Obrigada, Aimoré. Também gostei muito.

  • Cheguei ao fim do seu texto sem fôlego! Como você escreve bem! Confesso que tive medo de ler sua crítica, por ainda não ter visto o filme rsrs, mas gostei de saber que o filme traz cenas sobre parte que ficam em aberto na animação. Também gostei da parte em que você menciona a atuação da Emma. Gostei muito da sua crítica, vou assistir ao filme com outro olhar 😀

    • Júlia Cruz

      Nossa, Ariadne, que bom receber um retorno caloroso assim igual ao seu. Eu evito ao máximo dar spoilers dos filmes, isso é essencial quando fazemos críticas, principalmente de um filme que está em alta e teve uma grande recepção pelo público.

  • Não estava sabendo sobre essa polêmica e concordo que esta é extremamente desnecessária. É triste saber que o preconceito ainda reina em nosso meio a ponto de quererem boicotar uma obra que parece, de fato, estar linda. Estou muito ansiosa para poder assistir ao filme e sua crítica me deixou com ainda mais vontade.

    • Júlia Cruz

      Júlia, enquanto nós, como pessoas formadoras de opinião, nos negarmos a falar sobre questões sociais como orientação sexual, o preconceito ainda reinará. É muito triste, de fato, ainda mais num estado laico onde religião não deveria se misturar com nada – a religião foi um dos grandes argumentos utilizados pelas pessoas que tentaram boicotar e não conseguiram. O filme é um sucesso, ainda bem.

  • Estou louca para assistir o filme, desde ao ano passado.. mas terei que esperar sair dos cinemas :c

    Adorei sua crítica, visto que, ela foi bem descritiva e argumentativa. Li muitas notícias e críticas sensacionalista, preconceituosas sobre o casal homossexual estragar a história, e toda vez que lia algo a respeito disso recusava terminar a leitura. Como dito por você, casais homossexuais sempre existiram dentro ou fora das telas! Acreditei sim que eles seguiriam a história em si, mas também algo mais aconteceria… já que não é apenas um remake da história em si, eles sempre precisam apresentar conteúdos deveras diferentes e que faça valer a pena.

    Estou feliz pela atuação da Emma e por conseguir se livrar aos poucos da Hermione, ela merece ser reconhecida como atriz e não como personagem, apesar de que, o trabalho feito por ela foi sensacional e Hermione sempre estará em nossos corações!

    Como dito, adorei sua crítica! E ao lê-la só me dei conta de que estou mais triste do que imaginava por não poder ir assistir o filme que tanto estava aguardando! Fazer o que, não é?!

    • Júlia Cruz

      Jéssica, você resumiu tudo o que eu tentei falar com a crítica e mais um pouco. Fico muito feliz pelo feedback positivo. Quanto ao casal homossexual, sua colocação foi perfeita a partir do momento que estamos tratando de representatividade também, independente de ser um remake ou não.

  • Confesso que não li toda a sua crítica pois estou louca para ver o filme e estou fugindo ao máximo de spoilers. Pelo que eu li e vi do trailer, está bem fiel ao clássico e sinto que vou chorar hahaha.

    • Júlia Cruz

      Juliana, eu evito ao máximo os spoilers, acho que toda crítica tem que ser assim. Você poderia ter lido tranquilamente, mas tudo bem. A adaptação está bem fiel sim.

  • Eu estou louca para assistir, vou semana que vem e não vejo a hora!
    Sua crítica só aumentou ainda mais a minha vontade!

    • Júlia Cruz

      Obrigada pelo comentário, Tatiana. Espero que goste do filme.

  • Vitória Luiza

    Estou doida para assistir esse filme, com certeza vou me emocionar, adoro filmes da Disney pois lembra a minha infância e como não se emocionar lembrando a infância.

    A sua crítica foi mara e me deixou com mais curiosidade do filme.

    • Júlia Cruz

      Obrigada pelo comentário, Vitória. Eu me senti como uma criança vendo o filme rs!

  • Eu fiquei bem decepcionada com esse filme 🙁 Parecia que eu estava assistindo o desenho novamente, mas o cenário é encantador!

    • Jura, Nathália?! Eu adorei a adaptação. Achei perfeito e me emocionei muito.