“Ora (direis) ouvir estrelas!”

A imensidão do universo e a referência ao Pequeno Príncipe abrem bem este longa sobre o encontro peculiar de dois jovens em Nova York.

Adam Raki (Hugh Dancy) acaba de perder o pai e sua rotina é bem sistemática. Trabalha como engenheiro eletrônico, fazendo brinquedos e tem um único amigo, Harlan (Frankie Faison) que na verdade exerce muito mais um papel de protetor, quase uma figura paterna substituta.
Um dia encontra a nova vizinha, Beth Buchwald (Rose Byrne) na lavanderia do prédio e mostra-se bastante nervoso. Ela tem uma personalidade sociável e afetuosa, aberta para uma amizade com Adam. É a partir do momento em que os jovens se cruzam que percebemos o nervosismo e a inabilidade social de Adam, que parece ir além de mera timidez ou intimidação pela simpatia da moça.

Uma dessas situações é a demonstração de falta de empatia por parte de Adam quando está sentado em frente ao prédio e ela chega com um carrinho abarrotado de compras, nitidamente esperando alguma ajuda. Ele não ignora sua presença, mas ignora sua necessidade, e não é por mal. Mais adiante, depois de uma situação realmente embaraçosa, ele acaba confessando ser portador da Síndrome de Asperger.

“Aspies” tem muita dificuldade de interação social, mas podem ser extremamente inteligentes, como Einstein ou Mozart. Adam mostra-se sempre tenso em eventos com muitas pessoas, e defende-se falando excessivamente de forma empolgada sobre o universo – assunto que domina – mas deixando os outros com uma sensação de estranhamento. Num olhar superficial, ele seria apenas um esquisitão chato.Com roteiro e direção de Max Mayer, o filme mostra bem através de imagens a vida de Adam: estoque de caixas de macarrão com queijo no freezer, cuja diminuição indica a passagem de tempo; o enquadramento do jovem sentado à mesa da sala sempre a partir do mesmo ponto de vista; a fotografia azulada e melancólica indicando a solidão no seu universo. Falando em universo, é através da projeção de imagens da sua imensidão nas paredes da sala que o rapaz, a seu modo, tenta agradar Beth e trazê-la para seu mundo.

“Adam” recebeu o prêmio Alfred P. Sloan no Festival de Sundance em 2009. Trata-se de um prêmio dado a filmes com temática científica ou tecnológica ou cujo personagem principal esteja ligado a essa área. Um dos pontos altamente positivos deste roteiro são as falas do protagonista, pois através delas é possível entender como funciona a mente de um portador da Síndrome de Asperger e como ele se comporta de forma peculiar aos olhos dos neurotípicos. Max Mayer fez um excelente trabalho, pois certamente seu filme ajuda a combater o preconceito a respeito dessa condição.

Hugh Dancy tem uma ótima atuação, sem cair no caricato ou em estereótipos. Embora seu personagem tenha dificuldade em sentir empatia, ele a desperta em nós. Já Rose Byrne, embora transmita doçura e simpatia na pele de Beth, poderia diminuir um pouco a expressividade de sua testa e sobrancelhas.
Beth é escritora de livros infantis e tem um trabalho temporário como professora de crianças pequenas. Além do coração recém partido, precisa lidar com a acusação sofrida por seu pai de estar envolvido em negócios escusos. Peter Gallagher representa bem o canalha classudo e cínico e Amy Irving, sua esposa que assumidamente optou por correr riscos ao lado de um trapaceiro.

A subtrama tira um pouco o foco de Adam e mostra o lado também frágil de Beth. Frank Faison é uma presença carismática e bem-humorada. A cena em que Harlan tenta ensinar a Adam o que é “papo de almoço”, ambos sentados em um banco do parque, tem ótimo timing e conexão entre os atores. O Central Park, aliás, cenário de belos momentos do filme, é também a morada dos guaxinins, sobre os quais Adam faz um comentário que resume bem sua condição como aspie: “Eles não são daqui, sabe, mas aí estão”.

Crítica: Adam
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