Um retrato glamouroso de uma Europa em guerra

“Aliados”, de Robert Zemeckis, traz a tona uma antiga e glamourosa Hollywood. Mas, o que em princípio parece ser um ponto forte, vira-se contra a história que vemos acontecer diante dos nossos olhos. Justamente por utilizar uma fórmula requintada e “limpinha” demais para mostrar uma Europa em guerra e personagens imersos num clima de terror e incerteza.

A cidade de Casablanca, no Marrocos, é o cenário onde os protagonistas, personagens de Brad Pitt e Marion Cotillard, se encontram pela primeira vez e se apaixonam. O canadense Max Vatan, personagem de Brad, é um comandante da Força Aérea Real. Ele é um agente inteligente, bem treinado e eficiente. Marion é a francesa Marianne Beausejour, uma agente da resistência com ainda melhores qualidades que Max. Eles são parceiros numa perigosa missão para eliminar um embaixador nazista em Casablanca e para completa-la precisam fingir que são casados. Após cumprirem essa missão eles decidem se casar e seguem para Londres. Aí então começam os problemas entre os dois. São dois personagens complexos num ambiente de intriga onde se misturam questões morais, éticas e amorosas. Porém, em certo momento, esses dois agentes extremamente treinados acabam se mostrando atrapalhados e sentimentais demais (especialmente o apaixonado Max).

A beleza e a elegância que Zemeckis utiliza em suas cenas falham ao retratar a tensão de um ambiente imerso em bombardeios de guerra e espionagem. É simplesmente glamouroso demais. Essa receita talvez funcionasse nos filmes da década de 40, mas não em “Aliados”. O diretor tem nas mãos, além de Marion e Brad, um elenco que conta com atores do porte de Jared Harris e Simon McBurney. Sendo assim, Zemeckis reune todos os ingredientes para cozinhar o bolo perfeito mas se esquece do fermento. Ele parece não saber se trata o seu filme como uma história dolorosa de guerra e de traição familiar com final trágico ou como apenas um desfile glamouroso de belas cenas e roupas elegantes.

Marion Cotillard em Aliados

A direção de arte, aliás, é formidável ao retratar a moda, costumes, locações e visagismo da década de 40 e 50 mas se perde nesse glamour e também se esquece das moléstias de um povo em guerra. O filme é uma visão nostálgica dos clássicos filmes de Hollywood. É possível imaginar a personagem de Marion e de Brad vividos por Marlene Dietrich e Clark Gable num clima noir e isso até mantém um ar de vida à história, mas a aventura se revela sufocada e sem vida após certo tempo. É um bom roteiro que poderia resultar em um grande trabalho de arte mas fica preso numa estética de filmes de heróis da Marvel, o que acaba por nos afastar do drama vivido pelos personagens. Apesar disso, é possível destacar belos momentos da produção, como a primeira cena onde Max Vatan faz seu turbulento pouso de avião ou a primeira cena de amor do casal dentro do carro, em meio a uma forte tempestade no deserto do Marrocos.

Pitt está bem porém Cotillard é realmente o único ponto reluzente do filme, emprestando seu glamour e eloquência com precisão ou, quando necessário, verdade e dor a personagem. Sua presença é tão paupável e brilhante que ela até consegue usar o seu guarda-roupa incrível a seu favor, impedindo que este ofusque suas intenções. Ela luta terrivelmente para trazer sua personagem para a realidade trágica que o roteiro brilhante de Steven Knight propõe mas que a direção atrapalhada de Robert Zemeckis foge.

 

Crítica: Aliados
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