Após 21 anos de sua publicação, a ficção histórica contada pela escritora Margaret Atwood, nomeada “Alias Grace”, ganha vida no mundo da tv pelo canal canadense CBC e pela plataforma Netflix. Em formato de minissérie, com apenas seis episódios, a história da irlandesa Grace Marks é desenvolvida de forma original, envolvente, mas com um final tão confuso e agoniante como a vida da protagonista.

Desenvolvida em um sentido não linear, a narrativa começa no ano de 1859, com Marks já presa, injustamente ou não, por ser cúmplice do assassinato do patrão Thomas Kinnear (Paul Gross) e da governanta da casa, Nancy Montgomery (Anna Paquin). Para contar como tudo ocorreu, a escolha foi de voltar para o passado por meio das conversas tidas entre Grace Marks (Sarah Gadon) e o doutor, estudioso em doenças mentais, Simon Jordan (Edward Holcroft). No intuito de que a imigrante fosse liberada, após mais de dez anos na penitenciária, chamaram o médico a fim de realizar uma avaliação para descobrirem se a detenta estava apta para sair da prisão.

Sendo assim, a trama vai sendo contada no sentido do presente para o passado, em que as cenas consistem em ver o que Grace passa dentro da penitenciária de Kingston, no Canadá, e o que é dito nas sessões tidas na casa do governador. Por mais que a ideia pareça monótona e, de fato, até seja, a forma que foi construída, pela roteirista Sarah Polley e pela diretora Mary Harson, mostra que é possível criar grandes obras em cenas simples.

Conforme a obra vai sendo narrada por Grace, assim como Dr. Jordan, é impossível não sentir um misto de agonia e ansiedade. De fato, parecem duas personagens completamente diferentes ainda existentes em uma mesma pessoa. Uma seria a doce e ingênua jovem de 15 anos que, na década de 1840, chegou com sua família na América do Norte, sofrendo desde o momento que entrou no barco para atravessar o oceano Atlântico. A outra seria a fria e manipuladora que, depois de anos presa por dois assassinatos, parece uma pessoa vazia e com frases feitas.Independentemente do final, nem um pouco esperado – ou até sequer finalizado –, a obra foi cuidada nos mínimos detalhes. Da mesma forma que a personagem principal gostava de costurar colchas de inúmeras formas e estampas, os envolvidos pela adaptação fizeram o mesmo: juntaram as histórias de Grace, aos poucos, como se fossem retalhos, para, no final, virar uma colcha bordada. Infelizmente, o resultado não foi compatível com o brilhantismo do resto dos cinco capítulos, fazendo com que todo o trabalho com os diálogos inteligentes e até as reflexões originais da personagem tivessem sido uma perda de tempo.

No entanto, para não ficar restrito apenas ao infortuno da finalização ruim ou, no caso do artesanato, com linhas frouxas e frágeis, há outros pontos necessários e cruciais de serem abordados. As ambientações compartilhadas por Grace durante as entrevistas cedidas eram ricas, com personagens envolventes e que prendiam a atenção. Inclusive, tamanha era o encanto que se cria uma vontade de ajudar o especialista a desvendar a jovem, prestando atenção em cada detalhe dividido.

Mary Whitney (Rebecca Liddiard), por exemplo, foi importante para a primeira estadia e o crescimento de Grace Marks, recém-chegada no país. Apesar de muito inocente, gradativamente, a adolescente foi conseguindo se tornar uma boa trabalhadora, além de confidente da mais experiente. Além dessa amizade, ao longo dos anos anteriores à tragédia, Grace conheceu Jeremiah (Zachary Levi), um charlatão que cada hora mudava de profissão, mas que, na época, foi essencial para traçar o caminho da menina.

A obra, por mais que se passe em outro século, tem temáticas que são relevantes nos dias atuais. Por mais que o modo de lidar fosse um pouco diferente, em algumas circunstâncias, no geral, a violência e preconceito contra a mulher são vistos com frequência na vida de Grace. Molestada pelo próprio pai, a jovem passou por muitos traumas que, do mesmo modo que muitas ainda sofrem hoje, são mantidos em segredo. Ademais, assuntos como aborto e gravidez indesejada também são retratados na minissérie.  Na íntegra, o que, realmente, pecou foi o desfecho da obra. Os últimos 45 minutos foram de total desconexão com o resto das partes, que foram bordadas conforme Grace costurava nos encontros com Jordan. A única aparente decisão tomada foi a de que se a criada merecia ou não ter liberdade, depois de tanto sofrimento. Contudo, questões como o porquê do assassino James McDermott (Kerr Logan) ter sido o único a ser enforcado – mesmo que Grace tenha ganhado a mesma sentença –, se ela é culpada ou não e o que aconteceu na sessão de hipnose feita no capítulo final foram deixados no porão, assim como Montgomery e Kinnear.

O resumo da ópera seria de que, por mais que a história seja interessante, talvez, por ser baseada em fatos reais, fazendo com que um novo contexto e uma nova reflexão sejam feitas, o telespectador, no mínimo, se sente como a agulha presa ao barril de linha. Afinal, por mais que o trabalho óbvio do objeto seja remendar e tornar pedaços de pano soltos em um só, para os que não são hábeis com a costura, vão só saber enrolar mais linha ao instrumento, sem que esse consiga sair, eficientemente, do lugar.

Confira o trailer abaixo:

Crítica: Alias Grace
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