Crítica: Artista do Desastre

O mito hollywoodiano é carregado de astros e estrelas talentosos e belos, de cineastas visionários e de filmes que são obras primas eternas.  Mas, e a outra Hollywood? Aquela das produções B e dos artistas sem talento. Essa fica escondida nas sombras dos grandes estúdios. O misterioso Tommy Wiseau surgiu dessa segunda Hollywood, já que a primeira nem sabia que ele existia. Sempre com o desejo de poder atuar e após conhecer seu futuro amigo e cúmplice Greg Sestero em um grupo de teatro, ele parte para Los Angeles para ganhar a fama. Desprezado em diversos testes por causa da sua notável falta de dicção e por não saber atuar, Wiseau decide ele mesmo escrever, produzir e dirigir um filme, além, é claro, de ser o galã principal. Daí surgiu “The Room”, que gastou seis milhões de dólares de produção e faturou mil e oitocentos em sua passagem de duas semanas em um único cinema. Eleito pela crítica como o pior filme já feito, virou cult ao ser exibido em inúmeros festivais de cinema pelo mundo.

Evidentemente o sucesso chamou a atenção e logo a história da produção do filme virou roteiro com a direção e atuação de James Franco. “Artista do Desastre” é uma obra que faz paródia e ao mesmo tempo homenageia o cinema. A câmera passeia no caótico set mostrando a paixão de Wiseau pela sétima arte, mesmo que claramente ele não saiba o que está fazendo. Franco faz um ótimo trabalho em recriar identicamente cenas de “The Room”, usando exatamente os mesmos enquadramentos e a mesma paleta de cores (se é que se pode dizer que aquele filme possuía tais elementos) além de mostrar as situações ridículas, o roteiro medonho e as atuações infantis.

Se Franco é ótimo na direção, ele ultrapassa os limites na encarnação de Wiseau. Com certeza será um papel que o levará, no mínimo, a uma indicação ao Oscar (Quando escrevemos esse texto, Franco já havia ganhado o Globo de Ouro). Todos os trejeitos do artista do desastre são emulados por Franco. A fala quase incompreensível, o modo robótico de andar e até um dos olhos que é mais fechado que o outro estão lá. O trabalho do ator é apoiado pelo fiel figurino e pela maquiagem. Dave Franco não precisou se esforçar muito para dar vida ao amigo inexpressivo Greg Sestero. Há um grande número de participações de personalidades, ao começar pela abertura que imita um documentário e colhe depoimentos de gente como J.J. Abrams, Kevin Smith e Lizzy Caplan. No elenco principal há Seth Rogen, Zac Efron, Bob Odenkirk e Josh Hutcherson.

“Artista do Desastre” não pode ser chamado de cinebiografia, já que conta a história de um desconhecido que ninguém sabe de onde vem, qual a sua idade ou de onde tira todo o seu dinheiro, mas consegue emocionar e fazer rir sem desrespeitar o homem que é mostrado em tela, mesmo que esse pareça não se levar a sério. Toda a estrutura narrativa é apoiada nas cenas durante as filmagens do “pior filme já feito” o que não impede que conheçamos a faceta solitária de Wiseau, que é tratado com Frankenstein quando sempre quis ser o herói do mundo que construiu em sua cabeça. Por isso, quando chega ao set no primeiro dia de filmagem, ele convida todos para entrar em seu planeta, construído para que possa fugir daquele em que nasceu.  A arte surge de diversas formas e em diversos lugares e, com certeza, ela é diferente nesse outro planeta, onde o filme ruim se torna a obra prima a passar nas telas da cidade dos sonhos.

 

Crítica: Artista do Desastre
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