Novas perspectivas sobre histórias já contadas são sempre bem-vindas

Começando por uma passagem do filme, onde em um diálogo envolvendo uma das irmãs Blontë que dizia: “Que autor não gostaria de tirar vantagem de ser invisível? Um que não consiga manter a mente em silêncio”. De maneira simples estas linhas podem simbolizar um pensamento generalizado vindo de uma pessoa/personagem específica, falando sobre ser escritora, certo? Mas está explícito nas entrelinhas a essência do que cada uma delas, unicamente para si mesmas quanto irmãs e escritoras também, vivem em uma época restrita aos privilégios masculinos na Inglaterra do século XIX.

“As Irmãs Brontë” é uma produção do canal britânico BBC, que por si só já apresenta toda sua qualidade cinematográfica indiscutível em cada produção, especialmente quando são ambientados em períodos mais antigos da história. Esta cinebiografia sobre as irmãs Brontë, que viveram em uma aldeia da região de West Riding of Yorkshire na Inglaterra, é  construída em cima de uma visão mais “pessoal” da roteirista Sally Wainwright. Através do processo de pesquisa, interpretação de todas as obras e cartas pessoais deixadas por cada uma, foi possível construir uma imagem mais completa da já existente, como pode ser visto no primeiro filme francês baseado na vida das irmãs, “Les Soeurs Brontë” (1979).

Charlotte, Anne e Emily Blontë cresceram juntas na companhia do irmão Branwell (Adam Nagaitis), um homem cansado de tentar ganhar a vida através de sua arte, que ao contrário das irmãs,  não possui capacidade intelectual e emocional para alcançar os objetivos pessoais. Neste versão da história escrita e dirigida por Wainwright, o drama familiar é o ponto principal a ser explorado, e não necessariamente todo o processo criativo na construção dos poemas e romances que futuramente seriam publicados.

Melhor do que apenas simplificar uma história desta relevância para a literatura britânica, o filme de deixa este recorte do processo criativo como pano de fundo durante boa parte do filme. Focando principalmente no relacionamento de cada uma delas frente aos problemas pessoais do irmão causados pelo excesso de álcool. Porém, uma enorme referência poética na forma como visualmente a história é contada, que brilhantemente completa aquela ocasião, como quando Charlotte (Finn Atkins) lê pela primeira vez alguns dos poemas de Emily (Chloe Perrie). Além da voz-off de Charlotte, seu rosto parece estar literalmente iluminado pelo brilho que aquelas palavras tem sobre sua consciência.

Para 120 minutos de filme, ao final a duração pode parecer pouca, ou por consequência um sentimento de que poderia ter sido melhor aproveitada. É verdade que a escolha pela abordagem da relação entre os irmãos fica clara desde o primeiro minuto, mas a falta por uma condução mais dramática em relação ao fato de por serem mulheres, decidirem enviar suas obras para as editoras usando pseudônimos masculinos. Pouco deste conflito íntimo é aproveitado, e poderia sem dúvida ter acrescentado no conjunto final.

Wainwright decidiu por aproveitar da utilidade emocional das excelentes atrizes para também, assim como na citação lá no primeiro parágrafo deste texto, algo muito maior para o espectador. Se por um lado não temos uma maior problemática em cima das posições femininas na Inglaterra do século XIX, abordada de forma mais objetiva para o público, ela é “compensada” na atuação de cada umas das irmãs Brontë.

Anne (Charlie Murphy) é a mais contida das três, naturalmente isso reflete em uma atuação mais “natural”, sem tanto destaque. É a única delas que não tem uma cena sozinha, está sempre na companhia das irmãs ou do pai Patrick (Jonathan Pryce). Emily por sua vez tem um papel maior, mas não necessariamente mais importante na trama, muito provavelmente por ser mais apegada ao irmão. É ela que tem a função narrativa de não aceitar muito bem o fato de ter que levar ao público seus belos poemas, causando boa parte dos conflitos que acontecem restritamente entre as três. Já Charlotte é a mentalidade visionária para suas obras, e justamente por isso acabando obtendo maior destaque com suas obras.

No objetivo de, a partir de uma imagem criada pela diretora e roteirista, “As Irmãs Blontë” consegue alcançar um nível diferente da maioria das cinebiografias que costumam aparecer. Semelhante ao que foi feito em “Jackie”, onde Natalie Portman interpreta a esposa do até então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. Dando outro olhar sobre um acontecimento que marcou a história, neste caso usando outra personagem como ponto de vista, mas na história britânica, escolhendo personagens secundários como suporte para a construção de uma obra mais complexa e relevante.

Crítica: As Irmãs Brontë
8Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto
9.0