Morrendo na praia

Faz parte de nosso crescimento como ser humano, passar e repassar memórias em nossa mente. Às vezes não lembramos de tudo, ou só lembramos o que queremos. De qualquer maneira, revisitar o passado e se descobrir como pessoa, como o “eu” antigo virou o “eu” de agora, é sempre válido. É mais ou menos dentro dessa premissa, já foquem na expressão “mais ou menos”, que o longa de coprodução entre o Uruguai e a Argentina, “As Ondas” (Las Olas), trabalha.

A trama se inicia com um senhor atravessando a rua e logo depois descobrimos que ele não é nosso protagonista. Alfonso (Alfonso Tord) passa pelo mesmo sinal que esse senhor e é aí que começamos a acompanhar seu dia. Numa abertura de quase 10 minutos, não temos nenhuma palavra, nem sabemos o nome do protagonista, até que ele segue para a praia de sua cidade. Lá ele se despe e dá um mergulho. Ao cair na água, sua imagem aparece animada e temos os créditos iniciais, que são a melhor coisa de toda a produção. Ao final dos créditos, com o desenho saindo da água, voltamos a ver nosso protagonista, o Alfonso real, chegando com outra roupa em outra praia. Seus pais estão lá, chamando seu nome na beira do mar e ele olha para si, reconhecendo seu corpo adulto. A partir daí a cada mergulho ele estará em uma praia diferente, relembrando seu passado quando criança, adolescente e jovem adulto, por meio das férias de sua vida. Aos 40 anos, Alfonso usa seus mergulhos no mar como uma maneira nostálgica de se ver.

Escrito e dirigido por Adrian Biniez, o seu terceiro longa até tenta vingar algum conteúdo de debate, mas tudo soa muito – olha nossa expressão de novo – mais ou menos. Ele não emplaca o protagonista nem como solitário nem como uma pessoa querida, se mantém no meio. Não consegue discorrer sobre nenhum assunto diretamente sem nos dar o básico e fechar os diálogos com retóricas e/ou uma conclusão. No segundo caso, citando como exemplo, temos uma cena muito interessante em que o protagonista vai à casa de sua ex mulher, onde vê sua filha e o atual marido, e questiona o motivo dela tê-lo deixado. Talvez esse seja o melhor diálogo de todo o filme, mas ele começa do nada e termina da mesma maneira, deixando o público literalmente à deriva.

Ao retratar o personagem em épocas diferentes, mas tendo a mesma idade e só mudando seus shorts, Adrian consegue fazer da simplicidade um triunfo para poder narrar a história de Afonso, mas na prática ele escolhe não fazer. Na primeira metade do filme, temos praticamente 80% de sons ambientes e poucas falas. Na segunda metade, temos diálogos que poderiam engrenar em ótimas narrativas, mas também não o faz. Completando esse marasmo, ainda temos a lenta montagem de Pablo Riera e Fernando Epstein. Se a proposta era nadar, nadar e morrer na praia, aí temos que dar parabéns, pois o objetivo foi de fato alcançado.

Seu som é um convite delicioso a tirar alguns minutos de sono. Ouvir barulho do mar, com as ondas indo e vindo, a natureza, os animais, galhos quebrando, etc., por quase 40 mim praticamente ininterruptos, é pedir para o público mergulhar nas ondas de um sono profundo. Por sorte da produção e/ou seu próprio azar, Alfonso Tord é uma ótima aquisição ao filme, sua esguia figura exerce exatamente o que o personagem precisa e convence de sua confusa solidão, mas em nenhum momento consegue emplacar em cena já que o roteiro e a direção também não ajudam. Nessa ideia de ser fantasioso sem perder o ar naturalista e minimalista, “As Ondas” acaba sendo uma perda de tempo.

*Filme visto no Festival do Rio 2017. Ele não possui cartaz, trailer disponível, nem data de estreia em circuito nacional.

Crítica: As Ondas
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