Crítica: Até o último homem

Melhor Mixagem de Som - Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace por “Até o último homem”Melhor Edição - John Gilbert - “Até o último homem”

Heróis da vida real que servem para inspirar

Como todo bom filme de guerra, “Até o último homem” (Hacksaw Ridge) contém muito sangue, muito drama e até alguns clichês que fariam falta se não estivessem lá. Com seis indicações ao Oscar – incluindo melhor filme, melhor diretor e melhor ator (a Andrew Garfield), o longa conta a história real de Desmond T. Doss, o primeiro Opositor Consciente a ser condecorado com a Medalha de Honra do Congresso Americano por sua atuação heróica como médico na Segunda Guerra Mundial.

O filme mostra um pouco o espírito e personalidade dos principais soldados durante a batalha de Okinawa, no Japão, sua evolução e desafios, além da vida e família de Desmond. Uma curiosidade é que o verdadeiro Desmond nunca quis que sua história viesse a público. Morto em 2006, aos 87 anos, ele não quis vender o relato de sua vida a ninguém, pois afirmava que a glória do que fez era de Deus.

Até o último homem mostra a redenção de Mel Gibson em Hollywood. Afastado de grandes filmes há um tempo, ele atuou no não tão badalado Herança de Sangue, em 2016, mas não dirigia produções desde 2006. Já Andrew Garfield, que já atuou como super-herói de quadrinhos ao interpretar o Homem-Aranha, se mostra extremamente convincente no papel de um herói da vida real. Arriscaria dizer que, se não fosse por Ryan Gosling e toda a atenção em volta de “La La Land”, ele seria um fortíssimo candidato a decorar a sala de casa com a estatueta.

O filme se inicia de uma forma muito comum em obras de Mel Gibson, mesmo quando ele não está envolvido no roteiro (assinado por Robert Schenkkan e Andrew Knight): assim como em Apocalipto e Paixão de Cristo, por exemplo, começa enfatizando momentos felizes antes do sofrimento e contextualizando as escolhas, posicionamentos e crenças do protagonista, recurso positivo, mesmo tipicamente hollywoodiano.

O protagonista pode ser considerado uma espécie de “Jesus na Segunda Guerra” (e, realmente, foi importante mostrar, ao final do filme, uma gravação do Desmond verdadeiro, pois é difícil acreditar em alguém real com tanto idealismo e fé, ainda mais em uma conjuntura de extremo estresse e sofrimento que é o caso de uma guerra).

Um ponto que também merece destaque, é claro, a construção das cenas de conflito. Elas são extremamente bem criadas pela direção, chocam pela fidelidade aos horrores da guerra e envolvem o espectador ao ponto de fazê-lo virar o rosto com tanto realismo. O som é tão real e perturbador que o filme foi indicado ao Oscar de edição de som.

Se em “Apocalipto” e “A Paixão de Cristo”, por exemplo, Mel Gibson já mostrou que sabe fazer um filme sangrento dentro de um contexto, em “Até o último homem” não poderia ser diferente. Quem é fã de filmes de guerra vai reconhecer semelhanças com clássicos como “Full Metal Jacket” ou “O Resgate do Soldado Ryan”. A transformação real de Smitty dentre a visão de outros personagens são pontos que poderiam ser mais explorados, mas, pelo pouco tempo de filme e a grande quantidade de acontecimentos que ele traz, a produção não chega a desenvolver seus personagens tão bem assim.

Desmond escolhe salvar, quando todo mundo se prepara para matar; ele escolhe não delatar, mesmo sabendo que pode ser humilhado e até preso. Seu entendimento de salvação não era através do ataque, como o senso comum prega em um cenário de guerra; ele acreditava que poderia fazer a diferença com seus conhecimentos em medicina, com extrema coragem sem precisar pegar em uma arma. E peita a atitude de forma pacífica, recorrendo à fé em seu Deus, usando argumentos e amor ao próximo.

“Até o último homem” aborda a história de um jovem que, com coragem, mostrou que pessoas comuns são capazes de realizar feitos extraordinários. O filme prova que a frase da música “Anjos” (Pra Quem Tem Fé), do Rappa, faz bastante sentido – especialmente se um pouquinho alterada: pra quem tem fé, a vida (e a esperança) nunca tem fim.


Por Thais Isel

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