Por um momento de conexão

Basicamente temos um filme do Will Smith como protagonista por ano, que serve como uma espécie de ‘esperança’ para o público e para a crítica, que gostam do seu trabalho, vê-lo ser indicado ao Oscar e, obviamente, ganhar o tão aguardado prêmio de Melhor Ator. Ocorrendo o mesmo com “Beleza Oculta” (Collateral Beauty), lançado nos Estados Unidos no dia 16 de dezembro, acabou rolando uma frustração por parte dos esperançosos, tendo a pior bilheteria de estreia do astro e muitas críticas negativas vieram a tona. Mas aqui entre nós, esse descaso com o filme foi um pouco absurdo.

A história passada no final do ano, bem próximo ao Natal para sermos mais específicos, expõe uma parte da vida de um bem sucedido executivo de publicidade de Nova York, Howard (Will Smith), que após sofrer uma grande tragédia pessoal, passa a viver num estado de negação e solidão. Enquanto seus amigos Whit (Edward Norton), Clarie (Kate Winslet) e Simon (Michael Peña), tentam desesperadamente se reconectar com ele, Howard ‘procura respostas’ do universo escrevendo cartas para o Amor, o Tempo e a Morte. Então, eis que esse suas cartas são respondidas através da personificação de Amy (Keira Knightley), Raffi (Jacob Latimore) e Brigitte (Helen Mirren), respectivamente. Através desses inesperados encontros, ele começa a entender como essas “abstrações” se entrelaçam em uma vida plenamente vivida, e como, mesmo a perda mais profunda, pode se revelar momentos e significados de extrema beleza.

O roteiro escrito por Allan Loeb traz uma espécie melhorada dos ‘enlatados’ de fim de ano que já estamos acostumados, constantemente apresentados como comédias e comédias românticas. Normalmente eles seguem uma linha sobre a magia do natal, a união das famílias, um romance no frio de Nova York e assim vai. “Beleza Oculta” tem, em sua base, características desse formato, mas explora camadas mais profundas da nossa humanidade, como lidamos com a morte, com o passar do tempo e a falta de amor próprio e ao próximo.  Loeb que já tem experiência em escrever comédias, usou um bom tom de humor, principalmente na primeira parte do filme, para que ele não caísse em um melodrama existencial de pouca profundidade, uma vez que o que nos é exposto é o momento, não a vivência/experiência vivida pelos personagens ao longo da vida. O veterano diretor David Frankel, já acostumado a trabalhar com dramas e comédias românticas, como “Marley & Eu” e “O Diabo Veste Prada”, para citar alguns famosos, usa de seus conhecimentos para deixar um clima mais ameno, uma vez que a ideia é falar sobre como lidamos com a perda e com nossas frustrações. Sua direção segue uma linha menos contemplativa e mais expositiva, fazendo com que dê preferência a planos mais fechados nas cenas de maior emoção e mais abertos quando temos uma movimentação. Em determinados pontos, suas escolhas não foram as melhores para compor algumas sequências, principalmente se tratando das peças coloridas que são exploradas narrativamente.

A direção de fotografia da francesa Maryse Alberti, tem um estilo bem casual e consegue intensificar a narrativa pela sua iluminação. Enquanto nas cenas externas vemos seu jogo visual com as luzes de natal, uma maneira de dizer que “o caminho está iluminado”, nas cenas internas temos formações de silhuetas e jogo de contrastes de acordo com a palheta de cores. Falando em cores, temo nele a predominância de tons laranjas e azuis que se contrastam sem suas aplicações. O laranja para exercer uma necessidade de sociabilidade, calor (no sentido humano da coisa) e a própria juventude que interiormente se perde, paralelo ao azul da calmaria, do distanciamento do protagonista e da frieza de algumas relações.

Se tratando em traduzir narrativamente as ocasiões apresentadas no decorrer do filme a trilha sonora é uma importante questão. As canções originais, compostas por Theodore Shapiro, seguem uma linha clássica e pouco dramática, há mais alusões à uma aventura ou ao misticismos do que ao drama propriamente dito. Em algumas de suas melodias, sentimos uma influência grande oriunda do pop rock indie, que se expõem através de bases levemente remixadas agregando a orquestra. Tal influência também é refletida diretamente à duas músicas que são tocadas durante o filme, Way Down We Go, da banda Kaleo, e Let’s Hurt Tonight, da OneRepublic.Entrando em méritos representativos, o elenco, em sua maioria, se mantém regular de uma maneira até bem uniforme. Não podemos negar, pois seria hipocrisia de nossa parte, que os atores conseguiriam ter dado um pouco mais de si para as atuações, uma vez que o elenco é repleto de estrelas, nominadas ou vencedoras de inúmeros prêmios importantes do mercado cinematográfico, no qual já vimos trabalhos tão esplêndidos e muitas vezes ‘simples’, que nos deixou o gostinho de quero mais.

A impressão deixada, não só nessa produção, mas em algumas outras, é que Will Smith gastou todos os métodos de interpretação em “A Procura da Felicidade”. Mesmo bem em seu personagem, não podemos dizer que saímos cem por cento convencidos da dor de Howard. Kate Winslet traz um tom mais confuso, uma mulher meio perdida entre a razão e a emoção, se tratando de sua Clarie, assim como entre o drama e o humor em seu tom interpretativo. Michael Peña, que há anos tenta ganhar um espaço maior no cinema, conseguiu ter algumas boas cenas, mas em sua maioria ele contava com o ‘apoio’ de outra(s) pessoa(s) do elenco. Por sua vez, Edward Norton tem um pequeno destaque por fazer um dos papeis mais despretenciosos de sua carreira, onde consegue oscilar adequadamente entre o humor meio irônico e o leve drama de Whit.

Keira Knightley e o sotaque que ela nunca consegue tirar para nenhum filme, tem cenas pequenas nos quais, nos mais dramáticos, deixa a desejar e muitas vezes sua interpretação de amor nos remete a Gretta, do filme “Mesmo Se Nada Der Certo”. Jacob Latimore e Naomie Harris possuem participações pequenas e bem opostas narrativamente falando, ambos desenvolvem um trabalho regular, embora Naomie consiga trazer uma exuberância maior para sua personagem, Madeleine. Por último, mas não menos importante, pelo contrário, temos Helen Mirren, mais uma vez brilhante em cena. De certa maneira seu personagem tem uma sagacidade vinda da experiencia, que se expõe de maneira tão natural que palpável, que seja por uma brincadeira, muitas vezes egocêntrica, ou um dialogo mais sério, o que ela transpõe em sua personagem, de maneira bem sucinta, transcende a tela.

A grande questão do filme é encontrar a beleza oculta. A verdade é que, embora tenhamos um final esperado, e uma explicação para o título, a interpretação solidificada do que ela de fato representa é destinada ao publico: Qual é, na sua visão, essa beleza? Onde ela se esconde e porque? Collateral Beauty é um drama leve, com pitadas de humor, que segue um ritmo bom e tem um resultado agradável, mesmo que se perca em alguns pontos. Ele não é um grande filme, mas é um conto de natal contemporâneo que possui qualidades narrativas capaz de tocar até os corações mais duros.

Crítica: Beleza Oculta
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