Qual é o tamanho da sua mentira?

No dia 02 de abril, a minissérie “Big Little Lies” chegou ao fim no canal HBO. A trama, baseada no livro de mesmo nome, escrito pela australiana Liane Moriarty, teve sete pessoas a frente da produção, incluindo as estrelas Reese Witherspoon e Nicole Kidman. Ao total de sete episódios, a série teve uma boa audiência em sua exibição, mas não chegou a ser o sucesso que esperavam. Com algumas divergências entre a obra literária e a televisiva, a minissérie repercutiu assuntos pertinentes à todos, independe de serem homens ou mulheres.

O nono livro de Liane foi lançado em 2014 e devido às boas críticas recebidas, seu texto foi requisitado para se tornar a minissérie que acompanhamos nas últimas semanas. Adaptado por David E. Kelly e totalmente dirigida por Jean-Marc Vallée, também diretor de “Clube de Compras Dallas” (2013), “Wild” (2014) e “Demolição” (2015), a história apresenta distintos ambientes, formas de criações e interações entre as mães, com os maridos e com seus filhos.

Jane Chapman (Shailena Woodley) muda-se com seu filho, Ziggy (Iain Armitage), para o condado de Monterey, na costa pacífica da Califórnia Central. A caminho da escola ela acaba conhecendo Madeline Martha Mackenzie (Reese Witherspoon) e sua filha mais nova, Chloe (Darby Camp). Nesse encontro elas descobrem afinidades e ao deixar seus filhos na escola, Madeline apresenta a Jane sua amiga Celeste Wright (Nicole Kidman). As três acabam passando parte do dia juntas, enquanto esperam a hora para buscar seus filhos. Porém, o principal ponto em comum entre elas é que todas possuem segredos e contam mentiras para mantê-los.

Jane muda-se para Monterey “fugindo” de seu passado em busca de um recomeço para ela e seu filho que não conhece nada sobre o pai. Madeline tenta estar sempre perfeita e no controle de tudo. Com uma relação um pouco conturbada com seu ex-marido Nathan Carlson (James Tupper), hoje casado com Bonnie (Zoë Kravitz) e pai da pequena Skye (Chloe Coleman), com quem teve sua primeira filha, Abigail (Kathryn Newton), Madeline tenta manter sua aparência de ótima mãe e esposa de Ed Mackenzie (Adam Scott) perante a alta sociedade da cidade. Já Celeste é casada com um empresário bem mais novo que ela, Perry Wright (Alexander Skarsgard), com quem tem dois filhos, Josh (Cameron Crovetti) e Max (Nicholas Crovetti), e uma relação abusiva de agressões verbais e físicas que ela esconde de todos.

Ao voltarem à escola para buscar as crianças um “incidente” acontecido com uma das alunas é revelado diante de todos os pais. A pequena Amabella (Ivy George), filha dos empresários Gordon (Jeffrey Nordling) e Renata Klein (Laura Dern), declara que foi agredida por um dos colegas de classe e acusa Ziggy pelo ato. Então, é aberta uma temporada de inimizades e troca de ofensas entre as mães para defender seus filhos. Jane, que não acredita que seu filho tenha feito nada contra a menina e conta com o apoio de Madeline e Celeste, enquanto Renata é apoiada por outras mães. Esse passa a ser um dos gatilhos para as revelações subsequentes sobre os personagens e a maneira como elas lidam e lidarão com as adversidades do dia a dia.

A adaptação de David E. Kelly não consegue nos apresentar por completo seus personagens, mas, sem dúvida alguma, grande parte de suas essências foram transmitidas para o roteiro e consequentemente para a tela. Criar em cima de algo já realizado, por si só, já é uma coisa delicada, mas quando são abordados temas tão fortes e necessários, o cuidado deve ser ainda maior. David, assim como todos os outros homens jamais sentiram medo de serem agredidos por seus (suas) parceiros (as), muito menos de serem sexualmente abusados e terem que arcar sozinhos com as consequências. Então, em seu trabalho há muita delicadeza em retratar assuntos tão pertinentes e socialmente frágeis nas conversas sociais. Há uma dinâmica de fortalecimento feminino, embora algumas estejam em constante confronto. Quando elas se apoiam, elas crescem como profissionais, como mulheres e como mães. Por isso, tanto no livro quanto na minissérie, esse foi um trabalho rico em suas representações narrativas.

David, para segurar os espectadores, começa a série por parte de seu final, onde durante um grande evento beneficente alguém é assassinado. Sem revelar quem, nem o porque, ele resolveu apresentar as personagens principais e suas origens dentro da trama como representações feitas pelos olhos de pessoas da comunidade local dando depoimentos à policia. Existe aí retratos específicos de cada mulher e como elas são enxergadas e julgadas por outras pessoas, principalmente por outras mulheres. Há comentários grosseiros e machistas de algumas das mulheres sobre a idade, comportamento e até sobre a vida sexual das envolvidas no crime. E deles, junto com a representação do dia a dia de cada uma, e pela forma como são apresentadas seus segredos e suas mentiras, David deu a liberdade ao espectador enxergar as protagonistas além dos olhos julgadores da comunidade em que vivem.

Para dar características únicas ao universo e a representação de cada mulher, o departamento de arte, formado por John Paino (Design de Produção), James F. Truesdale (Direção de Arte), Amy Wells (Decoração de Set), Alix Friedberg (Figurino) e a equipe de caracterização, não se manteve focado em uma única paleta de cores. Para cada uma delas é possível observar cores, texturas e estampas diferentes. Porém, para todos os casos a predominância visual vem dos tons terrais, estabelecido num sub contexto sobre a força e tenacidade de suas existências, e dos tons de azul, já muito utilizados para para a representação subjetiva das friezas das relações e da complacência que aqui é oriunda do mar, exposto várias vezes durante a trama, como suas ressacas e calmarias.

Para quem está habituado a assistir as diferentes tramas contemporâneas produzidas pelo canal HBO, já está mais do que ciente que dificilmente temos um plano estático e/ou estabilizado em suas movimentações. Na direção de fotografia de Yves Bélanger não foi diferente e ainda rendeu uma fundamental dinâmica às interpretações a boa montagem de Jim Verga, David Berman, Sylvain Lebel e Maxime Lahaie-Denis. Com contraste intensificado e saturação mais baixa, Yves deu a minissérie um tratamento mais contemplativo exercendo, junto a direção, a urgência de expor ao espectador a beleza e a dor das personagens. Sequências de contraluz e de incidência de luz na lente também deram a produção um estilo mais naturalista.

Dentro dos inúmeros méritos que “Big Little Lies” possui, está o elenco formado pelo produtor de casting David Rubin e a pontuada direção de Jean-Marc Vallée. Ele conseguiu extrair de grande parte do elenco a densidade necessária para a trama, assim como sabia exatamente o que queria mostrar e como queria fazê-lo. É possível perceber que, cordialmente, Jean deu a liberdade para a equipe e ao elenco de criarem em cima do material bruto (livro e roteiros), mas tomou as rédeas para si, buscando usar o melhor do que lhe foi apresentado e agregando a sua proposta sem perder o seu foco narrativo. Nas sequências mais delicadas, sejam as agressões vividas pela Celeste ou pelas conturbadas relações entre os demais personagens, há sempre a preocupação de não exacerbar dramaticamente a fragilidade e fortalecer as mulheres.

Em seu trabalho, também encontramos perfeitamente a proposta vinda do marketing: “A perfect life is a perfect lie” (A vida perfeita é uma perfeita mentira – em livre tradução). Em muitas das interações feitas pelas personagens em suas casa, por exemplo, ele articula essa construção mostrando a exuberância da ambientação e dando a elas personificações para o contexto através de planos abertos e gerais. Esses planos são usados inicialmente para habituar o espectador e depois passam a ser intercalados com os planos mais fechados dos diálogos, para que marque a nossa mente, em contexto, a necessidade de observarmos além das aparências. As ambientações são revestidas de segredos e fragmentos mentirosos que a alta sociedade de Monterey acredita pelo que se vê ou escuta por outra pessoa, não necessariamente visualizam como nós (espectadores) as circunstâncias de modo geral.

Dentro dessas ocasiões dramáticas, temos a reprodução das emoções e sensações feitas pelo elenco que variava entre ótimas e regulares interpretações, mas que de modo geral conseguiu manter balanceada toda a conduta da produção. Começando pelos Klein, Ivy George tem uma postura tão frágil como Amabella que o fato dela ser agredida por um colega de classe transpassa a revolta de seus pais para nós. No decorrer em que as agressões continuam, nos sentimos extremamente revoltados ao ver, em seus olhos, seu constrangimento e tristeza. Jeffrey Nordling como o seu pai, Gordon, em aparições regulares, mas não frequentes, exala características do que podemos chamar de um rico emergente. Meio canastra, Nordling traz mais uma sexualidade masculina do que de fato um pai preocupado e consciente. O que acontece diferente para Laura Dern e sua Renata. De mãos atadas, sem saber o que fazer para tirar a filha da situação, Laura apresenta a densidade de uma mãe e uma empresária voraz para defender o que acredita, de forma palpável até nos momentos mais histéricos. Ela traz a tona algumas preocupações recorrentes às mulheres que enfrentam a jornada dupla: O fato de não estar o tempo todo com meus filhos, me fazem uma boa mãe? Eu consigo dar a eles toda a atenção necessária. O que posso fazer para melhorar nossa convivência?

Por sua vez, num estilo mais “naturalista”, os Carlson levam uma vida comoda e aparentemente leve. Chloe Coleman, como Skye, tem pouquíssima representatividade na trama, o que poderia ter sido melhor aproveitado visualmente e não só nas falas de outros personagens. James Tupper nos mostra uma espécie de quarentão bon vivant como Nathan, e estabelece uma dualidade entre o ex-marido e pai que não foi tão presente e amoroso em seu primeiro casamento e agora supre essa ausência anterior, o máximo possível, com a sua nova família. É dentro desse núcleo que temos outro desperdício, a Bonnie de Zoë Kravitz. Ao contrário do livro, não vemos o aflorar de sua personagem e nem conseguimos reconhecer sua trajetória como mulher e como mãe, o que vem a ser um pesar, pois Zoë provavelmente nos entregaria uma boa e profunda interpretação de Bonnie e não apenas a atual mulher do ex de Madeline, bem mais nova que ela, com um estilo de vida diferente.

Os Wright são os que mais nos chama atenção dentro da trama não só pelo modo como são descritos pelos outros personagens, mas também da maneira que vivenciamos a violenta e sexual relação entre eles. Cameron e Nicholas Crovetti, Josh e Max respectivamente, aparentam ser crianças fisicamente e psicologicamente, afinal não presenciam a violência sofrida por sua mãe, são pró-ativas e estão sempre brincando. Mas até que ponto é possível esconder e mentir para uma criança sobre o que se passa dentro de casa? É essa pergunta que nos rodeia até o final da série com suas presenças. Não podemos negar que Alexander Skarsgard tem uma enorme presença, principalmente vinda de sua beleza física, mas se comparada ao seu trabalho como ator, há inevitavelmente um desnível. Embora, ele esteja bem como o Perry, oscilando entre ser um bom pai e um péssimo marido, que se justifica como um doente que precisa de tratamento, mas que nunca o busca, Skarsgard aparenta ser um ator de para personagens mais caricatos e menos realistas. Por sua vez, Nicole Kidman que já teve atuações brilhantes e vinha enfraquecendo seu trabalho, consegue nos dar bons lapsos de quão talentosa ela é. Oscilante entre um excelente trabalho e um ‘trivial’, sua Celeste se destaca nas cenas mais sofridas e ousadas, mas principalmente nas cenas silenciadas.

A Jane de Shailena Woodley é o que já poderíamos esperar. Seu passado sombrio e seus motivos pessoais são apresentados aos poucos, mas Woodley, infelizmente, não consegue manter-se bem o tempo todo. Talvez, faltou um pouco mais de tato ao retratar a densidade de sua personagem que não só cogita o suicido, como também matar o pai de seu filho quando o reencontrar. O Ziggy, de Iain Armitage, é um retrato bem próximo de um menino que se sente diferente, por não conhecer o pai, por não saber quase nada sobre a sua família e por também esconder um segredo de sua mãe.

E ao fim, os Mackenzie, que circunda toda a trama por conta da matriarca da família. A Abigail, de Kathryn Newton, vem para quebrar e desestruturar a perfeição que sua mãe tenta demonstrar. Kathryn tem seus momentos, mas também faltou um pouco mais de aprofundamento, não só da parte dela, mas do roteiro, para se estruturar algo além de uma menina rebelde que quer chamar atenção de sua mãe. A personagem é rica e sua interprete conseguiria desenvolve-lo melhor, se tivesse a oportunidade. Adam Scott não consegue só passar a imagem de bom pai e bom marido como nos faz torcer por ele como o Ed. Embora achemos que existiu uma tendencia pessoal, do ator, em transformar o personagem em algo um pouco bobo, por vezes sonso, e cheio de indecisões exercidos em seus olhares, temos uma boa interpretação de Scott. Reese Witherspoon, entre as protagonistas, é a que mais se destaca em toda a trama. Ela soube exatamente como expor as fragilidades imperfeições de uma mulher que tenta ser o tempo todo perfeita. Usando de sua natural comicidade, ela deixa o drama pessoal de Madeline palpável, realista e interessante. Embora não sofra como Celeste, são dores e problemas diferentes, ela consegue, de forma igualitária, mostrar a força de representação como atriz e como mulher. Mas quem rouba todas as cenas e chama constante atenção quando está presente é a Darby Camp, como Chloe. As melhores deixas e seu carisma fazem da pequena uma atriz para ficarmos de olho em seu talento em futuros trabalhos.

Para os espectadores mais atentos, algumas coisas tornam-se previsíveis em seu final, mas ainda assim há várias outras que ficam em aberto. Ao contrário do livro, a produção não mostra o pós-crime, nem revela muitas nuances entre os personagens, deixando um gatilho para uma possível nova produção. O diretor Jean-Marc Vallée já declarou que para ele, o que precisava ser contado foi feito e que não estaria numa continuação, caso houvesse. Porém, há boatos, nada definido oficialmente, que há uma nova parte à ser mostrada sobre a vida dessas mulheres. Para nós, só nos resta torcer para que, se vier acontecer, mantenha-se o bom nível profissional e narrativo e que as deixas sejam esclarecidas e aprofundadas, sem cair no melodrama existencial.

Em terra de fotos incríveis que rendem likes, quem é honesto consigo mesmo, não é rei. E todos nós sabemos disso. É exatamente por isso que a minissérie “Big Little Lies” nos atinge das mais diversas maneiras, independente de sermos homens ou mulheres. É preciso sim expor e dialogar sobre violência domestica, sobre a forma como criamos nossos filhos, sobre o porque das mulheres serem e se jogarem umas contra as outras, numa espécie de competição sem fim, sobre como nos relacionamos dentro e fora de casa e como e porque tentamos tanto parecer que temos uma vida alegre, pró-ativa e perfeita. O dialogo e a exposição de casos, como os da minissérie, é um dos passos para que possamos nos ajudar a sermos mais amáveis, respeitosos e atentos como todos ao nosso redor. Principalmente dentro de casa. Se calar, esconder ou mentir sobre tais assuntos não é e nunca será a melhor opção.

E para quem deseja mais esclarecimentos após o final dá série, bom, só o livro “Pequenas Grandes Mentiras“, da Liane Moriarty, publicado no Brasil pela editora Intrínseca, poderá ajudar.

Crítica: Big Little Lies
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