Crítica: Blue Jay

Presente para nostálgicos

Intrigante e angustiante para todo o ser humano é o tempo. Ele transforma indivíduos por dentro e por fora – de maneira extremamente visível por fora, e por dentro há quem consiga esconder algumas mudanças. Sempre há questionamentos sobre o que teria acontecido na vida se determinadas situações tivessem tido um desfecho diferente. O tempo é combustível para questionamentos filosóficos e para a nostalgia. Os aficionados por esta última certamente apreciarão “Blue Jay”.

Extremamente melancólico – algo bastante reforçado pela trilha sonora de Julian Wass – e totalmente filmado em preto e branco, o longa mostra o reencontro de Jim (Mark Duplass) e Amanda (Sarah Paulson), que foram namorados na adolescência, mais de vinte anos depois do término do relacionamento. Nenhum dos dois mora mais na cidade em que cresceram, mas estão ali – Jim, cuidando da casa da falecida mãe, e Amanda, visitando a irmã grávida – e se cruzam no supermercado. A dúvida sobre falar ou não com o outro, o embaraço inicial, as afirmações forçadas que cada um faz sobre estar bem, tudo isso gera de imediato a identificação do espectador. Quem nunca passou por momento semelhante?

O que seria um encontro acidental acaba derivando para um café (“Blue Jay” é o nome do local frequentado nos velhos tempos e que agora lhes parece decadente), depois para cervejas na beira do lago e por fim uma viagem no tempo noite adentro na antiga casa de Jim, que Amanda pede para visitar.
O filme segue um certo padrão: várias imagens da cidade, sempre bucólicas, como árvores, patos no lago, pássaros, sublinhadas pela música melancólica, aparecem com frequência intercalando as cenas com os atores. Os personagens, após informarem um ao outro sobre o momento atual de suas vidas, mergulham no passado de forma intensa e palpável. A casa onde Jim cresceu, ao mesmo tempo que exala a estagnação das casas que não se encontram habitadas, mas estão entulhadas de objetos, os transporta para os anos noventa e para tudo o que viveram juntos. São fitas cassete, roupas, fotos, cartas, aos poucos descobertos por Amanda, que acabam levando o ex-casal a uma espécie de jogo que não se sabe como poderá terminar. Atitudes como ouvir gravações antigas (em que improvisavam uma conversa que teriam após quarenta anos juntos) e dançar ao som de Annie Lennox são situações que impregnam o longa de uma atmosfera de tristeza, reforçada pela escolha inteligente da filmagem ter sido em preto e branco.

O roteiro, escrito pelo ator Mark Duplass, é bastante verborrágico e lembra um pouco, no estilo, a trilogia estrelada por Ethan Hawke e Julie Delpy (“Antes do amanhecer”, “Antes do Pôr do Sol” e “Antes da Meia-noite”). Mas, felizmente, a direção de Alex Lehmann soube colocar momentos em silêncio em que muito se diz de forma não verbal e também as aqui já citadas cenas somente com imagens da cidade e música de fundo, o que contribui para a atmosfera melancólica e funciona como pausas bem encaixadas. Há bastante uso de câmera na mão acompanhando os personagens, e também o foco prolongado na reação do interlocutor enquanto o outro está com a palavra. E não se pode deixar de notar o desvio da câmera para a aliança no dedo de Amanda enquanto os dois dançam (ela é casada e não esconde o fato, mas o clima está ficando tentador e nos perguntamos como tudo isso irá terminar).

Um dos grandes acertos do longa foi a escolha dos atores, que estão em perfeita conexão e realmente convencem o espectador de que formaram um casal que se amou intensamente na adolescência. O grande equívoco está no fato de o roteiro inserir um conflito no momento errado do filme, algo totalmente desnecessário que além de quebrar a mágica do reencontro, traz um tom exagerado e melodramático que não combina muito com o restante da produção.

Crítica: Blue Jay
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