Outono invernoPor vezes as circunstâncias ditam caminhos e descaminhos. O andar ao longo das décadas pode se dar de forma muito natural e refém das decisões tomadas dia após dia. E assim, a vida passa e quando nos damos conta nem saberíamos explicar exatamente como chegamos até ali, mas o fato inegável é que o lugar onde estamos é definido por nossas vivências e escolhas (em grande parte dos casos). Pensar na vida como uma sequência infinita de passos – ora largos, ora tímidos – traz a noção de que somos fruto de nossas lembranças. Nelas nos amparamos e orientamos… E tocamos a rotina, semana por vez, rumo a algo que ninguém sabe exatamente o que é.

O que acontece quando, de repente, toda essa base que solidifica ações e decisões se perde? O que sobra, enquanto indivíduo, quando não se tem lembranças do que se viveu? Qual é o limite que pode haver entre o ser social e o indivíduo nesses moldes? Como se enquadrar em um contexto tão perfeitamente desenhado? Em uma vida que não reconhece? Como perceber o mundo (de novo) enfim?

Com muita delicadeza e poesia o espetáculo teatral “Branca” narra a história de uma mulher que após um coma de 6 meses perde totalmente sua memória. E passa a experimentar o mundo com olhar de novidade, ao passo que não se reconhece como o mesmo ser social de antes. A protagonista da trama, ao acordar, passa a ser impelida a reassumir sua rotina como trabalhadora/mãe/esposa. Uma vida que – ao que se pode perceber já de começo – era regida por cobranças de como uma mulher (que assume tais papéis) deve se comportar e pensar. A sobrecarga da rotina e a falta de perspectiva, de repente, dão lugar a um vazio que poderia ser aterrorizante. No entanto, o que se percebe por trás de uma visão poética dessa condição, é que ao se esvaziar de si esta mulher pôde se encontrar com uma realidade essencial: A de que o endurecimento trazido pelas décadas nos tira o prazer das coisas… Sentir o vento, os cheiros, o novo. A peça desperta nos expectadores a inquietação de perceber o quanto se perde, e o quanto se deve resgatar.

No outro extremo está a família. Perdida e desgastada diante do processo de reabilitação e resistência da protagonista. Ao mesmo tempo que o contexto leva o público a se compadecer do drama familiar exposto, mostra os motivos que levam a angústia de embarcar em uma vida que não é atrativa. Pois mesmo com laços amorosos entre os membros, a relação demostrada traz à tona a repressão que se vive pelo fato de ser mulher em nossa sociedade. E neste ponto o texto é muito feliz ao mostrar que não é loucura a busca por se libertar dessas amarras – ainda que as consequências possam ser cruéis.

O texto de Walter Daguerre tem uma narrativa pouco usual e extremamente envolvente: Verbaliza não somente as falas, mas tudo o que o autor quer que seja visto, sem ser mostrado. Verbaliza cenários, sentimentos, ações; e por isso poderia ser um texto encaixado em diferentes composições de elenco (cabendo, inclusive, em um monólogo). Somado a um trabalho de preparação corporal bem executado por Simone Nobre, o resultado é um contexto bem estruturado mesmo dentro de um cenário minimalista.

A direção de Ivan Sugahara consegue se apropriar de toda sensibilidade e densidade trazidas pelo texto de Daguerre, deixando as relações expostas. Também consegue desenvolver algum nível de comicidade dentro de um tema tão profundo, o que torna o espetáculo mais leve e gostoso de assistir.

O cenário e a iluminação aludem a um imenso vazio, mas em uma perspectiva clara e tranquila. O trabalho realizado por Carolina Sugahara (cenografia) e Paulo Cesar Medeiros (iluminação) se encaixam com exatidão entre si e com o texto. Os figurinos de Tarsila Takahashi também desempenham um papel relevante ao reforçar o contraponto entre personagens, pois de um lado temos o branco da mulher, do outro uma paleta de tons escuros (preto e cinza) nos demais.

Dentro de cena os atores apresentam trabalhos bem estruturados, a qual se deve o destaque as atrizes Julia Stockler e Karen Coelho que emocionam e divertem com muita competência e domínio cênico.

Todos os aspectos do espetáculo conversam na tentativa de justificar a veracidade dos desejos de cada personagem. Legítimos e antagônicos. Desperta no público um sentimento de renovação de forma sutil e eficaz. É uma excelente opção no cenário teatral carioca.

Crítica: Branca
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