Procurando Lorenzo

Amor e beleza parecem andar juntos no topo da lista de desejos em nossa cultura. O amor é belo, tanto que se diz: quem ama o feio, bonito lhe parece. Mas em “Cartas para Julieta”, um filme romântico perfeito para quem acredita que é possível encontrar o amor da sua vida mesmo nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, a beleza está por toda parte, tanto no elenco principal quanto na impressionante Toscana, famosa região italiana já cenário de outros filmes, onde se desenrolam momentos importantes da trama.

Sophie (Amanda Seyfried) é uma pesquisadora que trabalha para a cultuada revista The New Yorker, mas que deseja escrever e ter uma história publicada. Noiva de Victor (Gael García Bernal), chef workaholic que está prestes a abrir um restaurante, faz com ele uma espécie de viagem pré-lua-de-mel para Verona, a cidade em que Romeu e Julieta viveram seu grande e trágico amor na conhecida obra de William Shakespeare.

Para constante desapontamento de Sophie, Victor está mais interessado em interagir com seus fornecedores do que com ela, indo de um lugar a outro degustando vinhos e queijos. Embora a leve sempre consigo, a viagem não tem a menor atmosfera romântica e Victor pouco presta atenção à noiva. Isso faz com que ela acabe dedicando seu tempo a outra atividade: primeiro, junta-se ao grupo de mulheres que respondem às cartas deixadas para Julieta em um muro de Verona; e num segundo momento, decide ajudar uma bela senhora inglesa, Claire (Vanessa Redgrave) a encontrar seu amor de 50 anos atrás.
Sophie é a responsável pela presença de Claire na cidade. Ao recolher as cartas coladas no muro, uma pedra se desprende da parede, revelando a carta ali deixada pela inglesa muitas décadas antes. Claire era então uma adolescente apaixonada por Lorenzo, morador de Siena, e lamentava abandonar seu amor por não ter coragem de enfrentar a oposição da família. Sophie responde à carta (como fazem diariamente todas as “secretárias de Julieta”, que funcionam como conselheiras sentimentais) e Claire deixa a Inglaterra acompanhada pelo neto Charlie (Christopher Egan), nada satisfeito com a situação. No primeiro momento em que Sophie e Charlie trocam algumas palavras, o comportamento do rapaz é um tanto hostil, e a isto a jovem responde à altura. Isso deixa óbvio para nós que, já que se trata de um filme romântico, essas farpas são o prenúncio de uma inevitável paixão. E assim acontece. Não é surpreendente, pois essa é a fórmula de muitas histórias românticas.

Os roteiristas Jose Rivera e Tim Sullivan resolveram manter o clichê, mas apesar da previsibilidade da história nesse sentido, o carisma do elenco e a deslumbrante paisagem, além de uma boa seleção de músicas pop italianas seduzem o espectador. Esteticamente, o filme é bem elaborado ao manter uma linha coerente em elementos como fotografia, figurino e locações. Tons amarelos e dourados predominam, criando uma atmosfera solar, e até mesmo o trio Sophie-Claire-Charlie compartilha semelhanças físicas. Victor, em seu frenético mundo à parte, é uma ótima composição de Gael García Bernal, que faz um tipo que todos nós já encontramos em algum lugar: exageradamente empolgado, focado em si mesmo e abusando de adjetivos em seu discurso. Os diversos Lorenzos que Claire encontra durante sua busca são uma galeria curiosa e divertida, em alguns momentos reproduzindo o estereótipo do italiano sedutor.

A abertura do longa mostra diversas situações românticas retratadas artisticamente em pinturas e fotografias, com música de fundo. Mas há no filme uma cena que realmente parece uma verdadeira pintura: Claire penteia os cabelos de Sophie diante do espelho. O enquadramento, as cores e a postura das atrizes fazem o momento parecer uma obra de arte que poderia estar exposta em um museu. Embora não tenha criado um filme que se destaque pela originalidade, o diretor Gary Winick foi bem-sucedido ao harmonizar diversos elementos de grande beleza do começo ao fim.

Crítica: Cartas para Julieta
8Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos
0.0