Crítica: Cazuza – O tempo não para

Poucos foram os artistas que exemplificaram tão bem o espírito de sua geração quanto Cazuza. Junto com Renato Russo, e sendo ambos filhos diretos do rock brasileiro da década de 1980, provavelmente são os maiores do estilo desde então. Vindo do Barão Vermelho, não se contentou apenas com o simples, defeito que via no rock, e passou a explorar terrenos bem densos dentro da MPB. Agenor de Miranda Araújo Neto, como era seu nome de batismo, se firmava também como artista de bossa-nova, samba, mas acima de tudo, poeta. Figura de alto carisma, cheia de polêmicas e boemia em si próprio, mas de indubitável qualidade.

“Cazuza – O Tempo não Para” ilustra sua trajetória. Uma das primeiras cine-biografias, gênero bastante explorado ultimamente no cinema brasileiro, a fazer grande sucesso em tempos recentes. Como é de se esperar, acompanhamos a vida de Cazuza desde os anos antes de sua entrada no Barão Vermelho até sua morte em 1990, causada pela AIDS. Não é dos roteiros mais meticulosos e complexos, optando pela simplicidade e forma direta, por vezes até rápida demais, de mostrar o que pretende. Quem conhece com mais profundidade a história de Cazuza ou os bastidores da música brasileira da década de 80 não se surpreenderá com a narrativa, que simplifica acontecimentos mais complicados e quer adotar dinamismo para si, mas esse não é o ponto alto do roteiro. Ele obtém forte sucesso ao fazer o estudo de seu protagonista, sua evolução ao longo dos anos, quem ele era e como ele pensava. Se pensarmos na figura complexa de que tratamos aqui, é bastante louvável que se faça isso de forma relativamente simples.

O que contribui para isso, e não em pouca quantidade, é a atuação de Daniel Oliveira. É impressionante a entrega que ele dá como Cazuza, através de maneirismos, falas e expressões que são muito familiares para quem já conhece o cantor. A semelhança física também está enorme, assim como a mudança que acompanha sua saúde pelo tempo, que tem mérito de Oliveira por sua preparação para as filmagens. Há momentos em que se percebe também que ele canta, ainda que esteja dublando a si mesmo, mas é perceptível como sua voz vai se assemelhando com a de Cazuza. Muito da eficácia do filme é resultado da performance de Daniel Oliveira em geral.

O que também funciona, e traz certa originalidade ao filme, é a fotografia e seu esquema de cores. Tudo está saturado, dando a impressão de que vemos um retrato de uma época. Assim, a cinematografia procura aproximar a projeção de uma fotografia da década de 1970/1980, não só pelas cores, mas também por elas se encontrarem mais granuladas, como em um filme antigo. Nada disso serviria, porém, sem o figurino. É visível que algumas vestimentas pretendem simular algumas correspondentes às que foram utilizadas nos momentos retratados. Assim é com a camiseta e a bandana de Cazuza no show do Rock in Rio de 1985, por exemplo. Ademais, o estilo jovem desse período é bem colocado, o espectador se sente, de fato, vendo indivíduos dessa geração.

As músicas usadas não poderiam ser de menor qualidade, dadas suas origens. São colocadas com muito bom gosto, remetendo certa nostalgia bem dosada e trazendo veracidade para várias sequências. Não é a toa que ouvimos “O Tempo não para”, de forma quase catártica, na representação nos shows acontecidos no Canecão, mais para o fim da vida de Cazuza.

Mesmo com essas qualidades, existem defeitos significativos. Talvez seja um longa que não cative quem não seja, a priori, fã dos artistas apresentados e dos contextos em que aparecem. Como toda biografia, certo romanceamento de seu protagonista acaba sendo inevitável, e também ocorre de personagens secundários serem pouco aproveitados. A parceria de Frejat com Cazuza é pouco mencionada, tendo sido fundamental para o desenvolvimento artístico de ambos. O relacionamento dele com seu pai fica igualmente por alto, e vários de seus amigos parecem ser apenas figurantes.

De toda forma, é uma obra interessante para quem é entusiasta em música ou curioso. Funciona como retrato de uma geração e, até certo ponto, estudo de personagem. Está longe de ser perfeito, mas temos um bom filme em mãos, com trilha-sonora ainda.

Crítica: Cazuza - O tempo não para
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