Crítica: Com Amor, Van Gogh

Em julho de 1892, oito anos antes de morrer, Van Gogh escreveu a seu irmão mais novo:

“O que eu sou aos olhos da maioria das pessoas? Uma não-entidade, um excêntrico ou uma pessoa desagradável. Alguém que não tem e nunca terá posição na sociedade, em suma, o mais baixo do baixo. Bem, mesmo que isso seja absolutamente verdade, então um dia gostaria de mostrar, através de meu trabalho, o que este excêntrico, este ninguém, tem em seu coração.”

O infame episódio da orelha e o suicídio vieram pouco tempo depois e o pintor holandês deixou o mundo sem saber que, no final das contas, iria realizar seu desejo. Prova disso são cartas abertas de adoração ao seu legado como “Com Amor, Van Gogh”, que, ambicioso em sua premissa “de primeira animação feita a partir de pinturas a óleo”, pretende oferecer uma experiência cinematográfica única, a altura de seu homenageado.

De fato, a produção do longa, escrito e dirigido por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, é singular: 125 artistas plásticos foram selecionados para recriar o estilo do pós-impressionista e com a produção de mais de 65 mil planos feitos à mão – porém, apenas 898 foram utilizados – deram movimento às figuras e paisagens imortalizados em suas pinturas. Não é pouca a surpresa, então, ao vermos imagens célebres da obra de Van Gogh, como a “Menina em Branco” (1890) ou “A Noite Estrelada” (1889), ganharem vida.

Na realidade, elas não só ganham vida, mas se tornam também personagens para contar a trajetória de seu criador. Saído da série de retratos da “Família Roulin” (1888-1889), o responsável por contar a história é Armand Roulin (Douglas Booth), que recebe do pai, o carteiro Joseph Roulin (Chris O’Dowd), a missão de levar a última carta escrita pelo artista Vincent Van Gogh (Robert Gulaczky) a seu irmão, Theo Van Gogh (Cezary Lukaszewicz).

Há um ano o pintor morreu, e o homem dos correios, seu amigo próximo, acha estranho o fato de ele ter cometido suicídio quando seis semanas antes do ocorrido ele ter lhe escrito que estava “tranquilo e normal”. Assim, viajando pela França, o jovem, em ares de investigação, tentará descobrir com quem deixar a correspondência ao mesmo tempo em que procurará entender melhor quem foi Vincent e as circunstâncias de sua morte.

Audacioso. Essa é a palavra que descreve o projeto, uma cinebiografia incomum, que não decepciona quanto à experiência estética que promete. Não é o trabalho legítimo de Van Gogh, claro, mas suas cores, seu método e imaginário são celebrados nos 94 minutos de projeção e vê-los em movimento é encantador.

Realizado através de rotoscopia, técnica em que o movimento é captado primeiro por uma encenação com atores, base em que posteriormente será feito a pintura, o filme às vezes parece um truque de mágica. Como pode figuras feitas de tinta terem tanta expressão? Em diálogos montados através de planos fechados, é impossível não ficar boquiaberto com os rostos e suas nuances. São os diretores se aproveitando do assombro que sabem que a produção provoca.

A natureza de animação também abre novas possibilidades para a linguagem cinematográfica. Através de transições vistosas, como em um momento em que uma sombra paira sobre uma taça de vinho, vamos do presente colorido ao passado em preto e branco e basta um simples movimento ascendente até as estrelas para que seja demarcado a  passagem do tempo.

Se esteticamente o longa é desafiador, no roteiro ele cambaleia entre uma abordagem sensível e ideias pedestres. Caindo na armadilha de trabalhar com um material biográfico, a produção às vezes derrapa ao apresentar informações da vida do autor, fazendo com que seus personagens, ricos no visual, adotem na sua fala um tom quase que enciclopédico. Em outros momentos, em contraste com sua complexidade plástica, ele pende para o óbvio ao telegrafar o final com a sugestão do título do filme, assim como escolher “Starry Starry Night” de Don McLean para tocar nos créditos finais.

Entretanto, esses pequenos deslizes não tiram a delicadeza com que a trama constrói a imagem de Van Gogh. Perspicaz ao compor o artista através da perspectiva das figuras que ele mesmo pintou, vemos faces diversas de um mesmo indivíduo. Mesmo a tinta à óleo, ele se torna mais humano, o que talvez não acontecesse se fosse feito de outra maneira.

Provando os caminhos que levam a estima, “Com Amor, Van Gogh” é de encher os olhos e coração. Apesar dos pesares, é a carta de resposta que Vincent precisava para saber que sim, no final das contas, ele tocou as pessoas com sua arte.

Crítica: Com Amor, Van Gogh
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