Crítica: Cuba e o Cameraman

A construção de uma sociedade sob os olhares de um futuro incerto

O jornalista e documentarista norte-americano Jon Alpert, decidiu presenciar ao vivo um dos momentos mais relevantes da história de Cuba, o período pós revolução e as consequências de um povo tão idealista quanto o seu maior líder.

Montado a partir dos materiais filmados por Alpert ao longo de 45 anos de trajetória entre idas e vindas, Cuba e o Cameraman” torna-se muito maior que um retrato social e econômico da ilha caribenha. Sendo a partir do relacionamento humano daqueles que vivem diariamente as dificuldades que consolidaram-se após anos de conflitos internos. O intuito das filmagens já na década de 1970 quando da sua primeira ida para Havana, era e sempre foi – visto a coerência do filme após 4 décadas dos seus primeiros registros – a relação direta daquele povo com os efeitos da revolução em um país marcado pelo sentimento ideológico e a participação da população para o levante de uma nova sociedade.

A política, logicamente faz parte do background histórico de qualquer nação, independente de qual seja sua cultura e costume atual, já a forma como sua população enfrenta as dificuldades impostas, raramente é observada pela comunidade internacional. Com o conceito do “homem com uma câmera”, Alpert percorre o território cubano em busca de pontos de vista especiais, desde uma família que vive afastada fisicamente dos principais acontecimentos, até um encontro com Fidel Castro.

Inicialmente, Alpert acompanharia Fidel em diversos compromissos, muito semelhante ao documentário “Primárias” de Robert Drew, que segue John F. Kennedy durante o processo das primárias de 1960 nos Estados Unidos, relatando cada passo, palavra e ação do seu personagem. Assim, como foi assistido mais recentemente em “Entreatos” de João Moreira Salles, que acompanha o então candidato Luís Inácio Lula da Silva no ano de 2002, poucos dias antes de ser eleito presidente do Brasil. A importância que Alpert dá para Fidel Castro vai além da sua relação como líder, embora as próprias conversas entre os dois sejam sobre os seus pensamentos quanto porta-voz de uma nação, mas o retrato do homem e também da amizade que os dois acabaram formando.

“Cuba e o Cameraman” é mais um Original da Netflix, e está disponível no canal de streaming desde o dia 21 de novembro.

Partindo de um dispositivo arriscado, Alpert viajou para Cuba com a intenção de sempre que possível retornar após um determinado período, e catalogar os progressos do país dentro da maior quantidade possível de esferas públicas. Para que esse método se tornasse interessante, mas sempre com o plano de encontrar Fidel, foram escolhidas três famílias distintas para também serem acompanhadas ao passar das décadas. Para não depender unicamente do método escolhido para a montagem final do filme, a principal forma abordada é a da própria passagem do tempo e as diferenças básicas que prevaleceram, as que se extinguiram e o que ainda fazia parte do enredo desde a primeira visita na década de 1970.

Jon Alpert aos poucos leva para a tela, a visão de um norte-americano que se identifica com um povo, não tendo uma visão generalista daquilo que é captado., algo muito diferente da relação de insegurança que sempre existiu entre os dois países. A mistura cinematográfica documental entre o biográfico do próprio diretor, assim como as das famílias entrevistadas, cria um único ponto de vista, não sendo mais relevante qual o objetivo de cada um, mas suas histórias de vida e o que é preciso para que essa narrativa pessoal necessita para ser única aos olhos do espectador.

Com a ideologia comunista impregnada na cultura de um povo naturalmente revolucionário, muito da fé foi mantida, porém, estruturalmente, quase tudo mudou. Hoje, Cuba é um território que depende quase que exclusivamente do turismo, e essa forma de renda transformou de forma positiva uma nação que sempre dependeu estritamente dos próprios recursos para que a distribuição de mantimentos fosse razoável. Este ponto específico é um resumo legítimo daquilo que Alpert filma e nos entrega posteriormente, o positivismo nunca é deixado de lado, ele é visto na evolução da qualidade de vida, no sorriso de cada um e na certeza que o futuro sempre pode ser melhor.


Por Guilherme Santos

Crítica: Cuba e o Cameraman
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