A arte é uma ferramenta capaz de propiciar muito mais do que entretenimento. Seu papel educacional por vezes agrega significativo valor ao conteúdo programático escolar. Entramos nesta crítica com esta observação pois somos escolarizados sem conhecer nossa história de maneira mais profunda, limitados a certas questões políticas nacionais. Desconhecemos nossas próprias barbáries. Olhamos fora e nos chocados com genocídios como o promovido pelo nazismo na Alemanha, e desconsiderando completamente nosso histórico higienista. Assim como trazido às telas pelo documentário “ O holocausto Brasileiro” (Daniela Arbex), – que conta a historia do hospital colônia, manicômio inaugurado em 1903 em Barbacena, em MG – a premiada peça “Curral Grande” traz à luz a trágica historia do cerceamento indiscriminado da liberdade de uma população pobre no Nordeste do Brasil.

Década de 30, Estado de Pernambuco. Uma seca sem precedentes assola o Nordeste brasileiro, e como forma de evitar o inchaço populacional da capital são criados os “currais do governo”, onde passam a ser presos (sem nenhuma justificativa plausível) cearenses em busca de alguma condição mínima de sobrevivência. Trens lotados de adultos, idosos e crianças chegavam dia após dia, encarcerado cidadãos em um estado de barbárie.  A triste história dos flagelados é pouquíssimo conhecida entre nossos pares e traz, além de um nó no estômago, uma difícil reflexão: o quão longe dessa realidade de fato estamos tantos anos depois? Será que de fato evoluímos enquanto sociedade, rumo a condições mais humanas de sobrevivência, ou seguimos com uma visão higienista e excludente?

O texto de Marcos Barbosa traz ao palco diferentes visões sobre a mesma realidade. Sua estrutura em cenas curtas é didática na hora de explicar privilégios sociais. Mostra temas densos de forma clara à compreensão, mas com um alívio cômico inteligente que torna a experiência do público mais agradável (ou suportável,  dentro do contexto narrado). Ao contar múltiplos pontos de vista, também nos força a perceber que lugar nessa sociedade injusta ocupamos, e como lidamos com as oportunidades que temos. Em cena, via-se por um lado uma família miserável,  do outro a alta sociedade pernambucana; o funcionalismo público e os médicos e soldados em campo… E em meio a tudo isso, a população flagelada sendo tratada como animal,  bem aqui, no solo nacional.

Dentro dessa estrutura o pequeno elenco sabe aproveitar cada oportunidade! Os quatro atores em cena alternam seus personagens a cada nova realidade contada, e vestem cada novo papel com muita propriedade e excelência. Não há o que questionar sobre o talento do quarteto em cena. Sob a direção claramente cuidadosa de Eduardo Machado, as cenas contavam histórias com os instrumentos cênicos necessários, e atuações de qualidade.

O trabalho desenvolvido por Marcos e Eduardo também possibilita aos atores passearem por diversas linguagens diferentes. Não somente pelos personagens que trazem em si bagagens e propostas bem distintas,  mas pelas opções cênicas que não se limitavam a atuação como estamos acostumados a ver. Os atores apresentam um trabalho musical diferente do usual, trabalham a ideia de cinema mudo, dentre outras abordagens que enriquecem o produto final.

O cenário composto por uma estrutura que atende a muitas finalidades, de forma geral funciona como uma delimitação dos espaços,  reforçando a temática geral da proposta. Cada realidade contada de dentro de sua própria bolha, ou seu próprio cubo. Essa sacada simples não só torna o espetáculo  estético como cria uma sensação de limites de comunicação.  A iluminação é também simples e utilizada de forma interessante: o contraponto da iluminação vermelha para os mais vulneráveis à seca e os tons frios para os mais abastados. Ou seja, de forma geral uma série de ideias simples que alinhadas trazem um resultado muito interessante.

“Curral Grande” é um trabalho de qualidade, mas mais do que isso é um trabalho necessário. Não por menos vem sendo tão reconhecido por público,  crítica e prêmios. Por isso é uma indicação forte para que não percam a oportunidade de conferir este espetáculo.

Crítica: Curral Grande
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