Crítica: De Canção Em Canção

Existencialismo Contemporâneo

Quem é você? Quais são os seus sonhos? Seus objetivos? Do que você tem medo? Como e quem você gostaria de ser? O que é o amor? O que é a liberdade? Qual o valor deles? Como você quer ser lembrado? Embora não seja uma sessão de terapia, essas pequenas questões são tão antigas quanto o próprio ser humano. São questionadas em silêncio e as respostas podem assim permanecer. Mas o inquieto diretor Terrence Malick os faz com constância em seus filmes. Outros diretores também o fazem, mas não com tanta frequência. E embora Terry (para os íntimos) não encontre respostas concretas, suas obras nos emerge em questionamentos num vislumbre tão pessoal que ultrapassa a ficção.

Em seu novo longa, “De Canção Em Canção” (Song To Song), não é diferente. A trama foca em quatro diferentes personagens, onde o que os liga é a cidade de Austin, no Texas, e a vontade se descobrir o que é ser verdadeiramente feliz. Faye (Rooney Mara) é uma compositora que se questiona o tempo todo. Ela se envolve com o milionário produtor musical Cook (Michael Fassbender) e mais tarde com o romântico e também compositor BV (Ryan Gosling). Em paralelo, a garçonete Rhonda (Natalie Portman) acaba se envolvendo com Cook e conhecendo um outro mundo. Os quatro, em momentos diferentes da vida, encontram nas ligações afetivas um rumo a se tomar na vida, embora nem sempre seja a escolha ideal e/ou correta.

Escrito e dirigido por Malick, talvez, desde “A Árvore da Vida” (The Tree of Life), não o víamos em tão boa forma. Embora que “Amor Pleno” (To The Wonder) tenha sido interessante. O que temos em comum entre essas três obras é a busca pelo “amar e ser amado”, de maneira genuína e reciproca. O primeiro está relacionado ao amor paterno, familiar. O segundo, ao romance da vida a dois. Já o último, embora tenha as ambas vertentes, ele está ligado ao amor próprio, a identidade, ao reconhecimento e ao compartilhamento do amor. Para isso criou neste filme quatro personalidades distintas, a fim de expor o íntimo de cada um dos indivíduos. Retratando-os da maneira mais verossímil e real possível numa tenuidade entre o ficcional e o documental.

Ele escolhe colocar as falas em voz over para haver um link direto entre o que cada um pensa e fala, mesmo que seja uma mentira e/ou omissão. Tal feito estabelece sobre as personas uma complexidade maior, sobre o que verbalizam, o que escutam e como reagem. Por ser conhecido como um diretor de improvisos, é complicado reconhecer o que foi escrito e o que foi criado pelo momento. De qualquer jeito, a maneira como se estabelece no filme é perfeita para a representação de sua direção. Nela, há uma semi-linearidade, de recortes, de momentos, de anseios, desejos e complexidades humanas. Sejam emocionais ou físicas, a câmera transcorre a narrativa, desdobra em contemplação e estabelece uma linguagem indireta a ser absorvida de maneira contínua.

Porém, para que essa linguagem cinematográfica se estabelecesse, foi necessário a presença de outras quatro pessoas. Emmanuel Lubezki, que também foi diretor de fotografia dos filmes aqui citados, como em “Gravidade” (2013), “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015), mais uma vez mostra seu talento. Com luz natural, ele coloca a frugalidade necessária para a produção, assim como consegue fazer planos com câmera na mão que não desfoquem e que exijam um diálogo direto com a ação. Seja com grandes angulares, lente fixa ou até mesmo olho de peixe, mais uma vez Lubezki é impecável.

Já para obter o resultado final, temos os outros nomes. Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase, que já haviam editado outros trabalhos do diretor. Com seis mãos eles conseguem realizar uma montagem perspicaz e fiel a linguagem da direção a ao que se propõe narrativamente. Embora, que possa soar, às vezes, lento demais para um público não acostumado. Junto a essa organização visual encontra-se a equipe de mixagem de som que consegue fazer belíssimos alinhamentos sonoros, sejam músicas ou ambientação. Já que tocamos nela, toda a trilha do filme daria cerca quatro horas e meia, mas seu posicionamento e edição dentro da produção, faz com que os trechos apresentados sejam exatamente o que a cena/sequência pede.

Misturando punk, rock, indie, jazz e muita música clássica, temos uma excepcional composição sonora feita pela supervisora musical Lauren Mikus. Se música é a base do filme que se passa em uma cidade artística, cheia de festivais, presenças ilustres não faltam. Temos a banda Red Hot Chili Peppers, Black Lips, Iggy Pop, Florence Welch e Patti Smith e Lykke Li com destaque maior. Patti, sendo quem ela é não a faz somente, mas entrega delicados momentos que se tornam essenciais para a compreensão de Faye. Li por sua vez, vem com uma dos amores de BV, dando uma profundidade maior a visão do personagem sobre amor e entrega. Ambas entregam momentos íntimos e de ótima qualidade.

Mas nem só as estrelas protagonistas tem sua vez. Val Kilmer tem uma breve participação no longa como o vocalista do Black Lips, Duane, e entrega visceralidade. Ele representa um artista que viveu tudo o que podia, que chegou ao seu limite e estabelece uma ligação de amor e ódio à música e a sua industria. Cate Blanchett, como Amanda, também tem uma passagem rápida como um affair de BV, mas consegue ser, como sempre, encantadora e totalmente entregue aquilo que se propõe. Holly Hunter que faz a Miranda, mãe de Rhonda, vem como não quer nada, mas possui uma sequência de cenas, de arrepiar com o tamanho da aflição de sua personagem. E por fim Bérénice Marlohe, como Zoey, que atenua a sensualidade romântica, com uma atuação leve, ainda que com sotaque carregado.

Desde seu Oscar por “Cisne Negro” (2010) a impressão deixada é que Natalie Portman passou a ser subestimada, como se não conseguisse ir além disso. Contudo, sua presença em “Song To Song” nos remete a Alice de “Closer” (2004), sobre um outro viés. Sua atuação é tão simplória quanto real, interiorana e inocente, como Rhonda deve ser. Michael Fassbender, com um currículo eclético em Hollywood, entrega o que lhe é pedido e necessário. Ele usa sua beleza física a favor de construir a sedução de seu personagem, afinal para o diretor, Cook consiste numa espécie de demônio que seduz as pessoas para agirem do seu jeito. Nesse ponto ele é excepcional, porém o destaque em seu trabalho vem no trabalho corporal nas cenas improvisadas.

Ryan Gosling, por ter acabado de sair de “La La Land” (2016), seu Sebastian está tão visível, quanto seu BV. Há um duelo entre as personas e isso faz com que sua presença possa incomodar um pouco. São dois músicos, com suas frustrações, sonhos e amores, mas que precisam (con)viver separados. No fim das contas o filme é de Rooney Mara e sua Faye. Ela que não é elencada como a principal, mas rouba a cena o tempo todo. É como se a câmera a adorasse e a deseja ver mais e mais camadas expostas. Numa mistura de tristeza e intensidade, ela ganha uma projeção natural, revelando um íntimo fragilizado e ainda dona de si. Cheia de questionamentos e anseios, mesmo sabendo que só ela pode ter as próprias respostas. Mara é mais que um deleite, ela é a canção subliminar de todo o filme.

Chegando aos cinemas com 2h09, e não 2h29 como anunciado, “De Canção Em Canção” é um primor que abstrai a tecnologia e foca na essência do ser. Ele segue um fluxo filosófico, explorando o recôndito das personagens, com uma fluidez suave. Infelizmente a obra não é para qualquer público, mas isso não provem de intelecto, mas de absorção pessoal. Esse é mais um filme que Terrence Malick explora seus próprios intuitos a fim de se conectar indiretamente a seu público. Tocante, sincero e visual, já podemos afirmar que esse é um dos melhores filmes do ano.

Crítica: De Canção Em Canção
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