É inegável que as plataformas de streaming estão provocando um grande impacto no cinema e no mercado audiovisual, e não foi muita surpresa quando a líder do segmento, a Netflix, começou uma produção em massa de séries e filmes dos mais variados gêneros e estilos para o seu catálogo. E é claro que, entre tantos títulos sendo lançados, aconteceria o inevitável: um remake polêmico, tipo de filme que parece estrear pontualmente a cada punhado de meses hoje em dia.

Uma das apostas mais recentes foiDeath Note” baseado no famoso anime japonês homônimo, com a direção a cargo de Adam Wingard, conhecido para os fãs de terror por seus filmes “V/H/S” (2010) ,“Você É O Próximo” (2011) e “A Bruxa de Blair” (2016).

A história segue Light Turner (Nat Wolff), um estudante que encontra, por acaso, um death note, um caderno que tem o poder de matar qualquer pessoa que tenha o nome escrito em suas páginas. Ajudado pelo demônio Ryuk (Willem Dafoe) e sua namorada Mia (Margaret Qualley), o jovem protagonista vê a oportunidade de fazer justiça e começa a assassinar diversos criminosos – que vão desde simples prisioneiros até ditadores – e assinar as mortes com o nome Kira. Ao mesmo tempo, uma equipe de investigação, liderada por um detetive misterioso conhecido apenas como L (Lakeith Stanfield) e pelo pai de Light, o capitão de polícia James Turner (Shea Whigham), é dada a tarefa de descobrir a identidade desse assassino sobrenatural.

O filme, a princípio, parece um tipo de terror exploitation moderno, com cenas de morte desnecessariamente elaboradas, emulando o estilo que ficou famoso com a franquia “Premonição”. Essa primeira impressão, porém, se mostra equivocada quando, após pouco tempo, a trama muda para uma tentativa de suspense de investigação, assim como é o seu material de origem. Entretanto, onde o anime acerta em fazer uma disputa de inteligência entre Light e L, a produção da Netflix se perde em meio a decisões ruins, clichês ultrapassados e um roteiro cheio de falhas.

O enredo tenta resumir muito em sua duração de 100 minutos, o que acaba resultando em diversas inconsistências. Muitas das decisões de Light ao longo do filme acontecem sem motivo – sendo a mais gritante ele mostrar o poder do caderno para a garota que acabou de conhecer – e o seu romance com Mia não é propriamente estabelecido ou aprofundado, já que quase todos seus diálogos são sobre o death note. O personagem do L também sofre com isso, deduzindo fatos que não seriam possíveis dele saber para avançar mais rápido a história, e tomando ações precipitadas nos últimos atos, que são contraditórias a sua personalidade metódica estabelecida anteriormente. Além disso, um número de reviravoltas óbvias e nada impactantes também infesta o roteiro, tornando frustrante quando ele tenta convencer o telespectador de algo que obviamente mostrará não ser verdade.

A decisão de fazer o principal ser um “jovem bonzinho” também prejudica a produção, que se beneficiaria mais com um vilão protagonista. A atuação de Nat Wolff, que parece estar fazendo uma comédia, também não ajuda na construção do personagem. O elenco de apoio, porém, é decente. Shea Whigham funciona como o chefe de policia, e Lakeith Stanfield é eficiente em interpretar L, apesar de seus maneirismos característicos não transferirem bem da animação para o live-action, passando mais artificialidade do que caracterização.

No final, quem rouba a cena é o demônio Ryuk, um dos únicos pontos positivos do longa, tanto pela ótima atuação de voz de Willem Dafoe, quanto pela animação digital, que funciona bem já que a criatura passa boa parte do tempo nas sombras. Infelizmente, o personagem é sabotado pelo roteiro, pois não tem muito o que fazer na história e poderia ser removido da mesma sem nenhuma alteração no produto final.

Todos esses pontos negativos poderiam ser amenizados se a produção fosse tecnicamente diferenciada, mas Wingard não só ignora seu estilo já conhecido – o found footage com humor negro – como decide apelar para o óbvio. Com uma fotografia “sombria”, o diretor utiliza planos holandeses em excesso, assim como também abusa de slow motion em diversas cenas triviais. Esse uso extravagante de movimento lento, geralmente acompanhado por músicas de pop-rock, transforma cenas que poderiam ser interessantes, e até mesmo tensas, em cenas tediosas.

Ao terminar o filme, a sensação que permanece é apenas a de dúvida sobre o porquê da Netflix não o ter feito no formato de série, que não só é a sua área de expertise, como também é um modelo mais apropriado para refletir o formato original da história. O filme, da maneira como foi feito, definitivamente não é uma boa adaptação e também falha em ser interessante independente de seu material de origem. Em outras palavras, “Death Note” não é só um fracasso como remake, mas como um filme no geral.

Crítica: Death Note
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