Crítica: Demônio de Neon

Demônio de Neon Cartaz

Vivemos em um mundo superficial, frio, cercado de uma ignorância maquiada por belezas que assumem o espaço de muitos. Claro, nem todos adentram esse caminho, mas um bom pedaço aceita fazer parte de histórias como essas. A sede, diante a necessidade de um lugar a sombra, é responsável por matar lentamente parte da sociedade. Todo mundo quer ser alguma coisa, fazer parte de algo, ser visto no “spotlight”, independente da área objetivada, e alguns são capazes de transformar uma vida inteira para viver essas possibilidades. A inveja usou a era digital para abrir uma janela de enormes proporções, praticamente, impossível de ser fechada devido a certas atitudes. É como se a raça humana tivesse se tornado completamente apática, transformado-se em máquinas. A alma, aos poucos, foi se apagando dando lugar a esse vulto sombrio, enquanto o coração, congelado, tornou-se mais duro que concreto, e o corpo, um amontoado de carne estacionado a frente de qualquer pessoa faminta. Hoje, quando olhamos nos olhos de algumas dessas pessoas, percebemos o vazio que tomou conta, o egoísmo que insiste em aceitar a única ideologia de que ninguém mais importa, e, se você não acatar esse pensamento, com certeza, poderá ser atropelado.

“Demônio de Néon”, que estreia hoje nos cinemas de todo Brasil, é uma metáfora a insensatez humana. Uma desconstrução poética sobre o comportamento do homem diante suas falsas razões, que erroneamente são tomadas para suprir ilusórias necessidades. Criando uma alusão de que você é aquilo que você come, o filme retrata a história de uma jovem humilde que trabalha como modelo e almeja encontrar o sucesso em uma das cidades mais procuradas por aqueles que precisam sentir o gosto da fama. Um lugar onde a crueldade se esconde por trás da beleza e de sorrisos extremamente brancos. Ao chegar em Los Angeles, a jovem tenta se adaptar e acaba mentindo em relação a sua idade, oportunizando assim sua caminhada no mundo da moda. Sua inocência, agregada a perfeição de seu rosto, torna-se um verdadeiro chamariz no meio, despertando atenção de figuras importantes e outros olhares que farão de tudo para assumir seu lugar.

Com uma produção sublime, desenhada por mais de 20 nomes, incluindo o próprio diretor, o filme é estética pura, trabalhada com exatidão, para que tudo pareça perfeito aos olhos do espectador. Eles conseguem mostrar uma Los Angeles requintada, sem escancarar suas cicatrizes. Essas são pinceladas aos poucos, como uma pintura de qualidade, entretanto saltam com tudo no momento certo, refletindo a verdade que se esconde por trás de tanta integridade.

Com uma narrativa agitada, o roteiro escrito por Nicolas Winding Refn, Mary Laws e Polly Stenham, consegue brincar com diálogos rápidos que, muitas vezes, são silenciados por pausas longas e angustiantes. Embora a trama contenha algumas “barrigas”, o desenvolvimento do texto foi muito bem estruturado, surpreendendo o público a cada reviravolta. Sem perder a verossimilhança, eles conseguiram manter personagens fortes, com importantes traços psicológicos e um clima de ansiedade que fica cada vez mais tenso.Demônio de NeonA direção de Nicolas Winding Refn, diretor responsável por “Bronson”, “Drive” e “Só Deus Perdoa”, é um verdadeiro primor. Anteriormente, para muitos, Refn havia tropeçado em seu trabalho com “Só Deus Perdoa” (Deixo claro que eu gosto do filme, mas prefiro Drive) mas, com certeza, em “Demônio de Neon”, ele volta ao seu auge mantendo seu estilo aguçado. É possível encontrarmos sua assinatura na fotografia sombria, na misteriosa trilha sonora, como também no belíssimo trabalho imaginado a partir de planos sufocantes e enlouquecidos ângulos e movimentos de câmera que mexem com o psicológico de qualquer ser humano.

A Argentina Natasha Braier, responsável por “A Caçada” e “A teta assustada”, realiza uma fotografia potente, repleta de signos, construída através de cores quentes contrapostas com uma iluminação mais fria que surge em pequenos e importantes momentos de destaque, capazes de revelar que nem só a personagem principal, como todos os demais sofrem de uma espécie de distúrbio.

O elenco, quase todo tomado por mulheres, foi lapidado com perfeição, seguindo toda estética traçada pela produção. O casting soube dosar muito bem as nuances e expressividades de cada um dos atores. Elle Fanning está brilhante no papel da jovem modelo Jesse, deixando de vez o estigma de ser lembrada como a irmã mais nova da bonitinha e talentosa Dakota Fanning. Entretanto, o coadjuvantes também imperam em suas aparições na produção, com atuações verdadeiras e impressionantes. Jena Malone, esmiuça as características emocionais de sua personagem e, de forma natural, exprime isso na telona. Bella Heathcote e Abbey Lee, também estão muito bem, conseguindo expor com veemência a “fome” (Palavra utilizada aqui por mera coincidência) de suas personagens pela fama. Entre os homens, Desmond Harrington e Keanu Reeves, aparecem em poucas cenas, mas conseguem realizar trabalhos notáveis.

O design de produção de Elliott Hostetter e o figurino de Erin Benach, concluem toda a ilustração criada pelo diretor com bastante prudência, fidelizando as paletas de cores que estabelecem grande diferença em todo o projeto.

A trilha sonora de Cliff Martinez e a edição de Matthew Newman, antigos parceiros do diretor, funcionam como uma força quase divina para a obra. O cuidado dos dois profissionais em criar algo inteligente, que dialoga com público fazendo-o refletir sobre o momento, é sensacional.

Embora possua alguns momentos que possam causar uma certa náusea, “Demonio de Néon” é cinema de qualidade, no qual a estética prevalece e faz a diferença. É um filme para ver e rever, uma poderosa arma à idiossincrasia humana e o posicionamento de muitos nos dias atuais.

Crítica: Demônio de Neon
8.5Pontuação geral
Produção7.8
Direção8.8
Roteiro8
Edição8.9
Fotografia8.8
Elenco8.3
Trilha Sonora9
Figurino8.7
Direção de Arte9
Votação do leitor 5 Votos
7.8