Crítica: Diário de uma camareira

Nem sempre ao seu dispor

Algumas obras literárias, embora lidas por poucos, acabam alcançando um público maior ao serem transpostas para o cinema. “Diário de uma camareira”, romance de 1900 de Octave Mirbeau, já havia sido adaptado por diretores do quilate de Jean Renoir e Luis Buñuel. Agora, com direção de Benoît Jacquot e roteiro escrito por ele e Hélène Zimmer, traz como a protagonista Célestine a atriz Léa Seydoux, de “Azul é a cor mais quente”.
No final do século XIX, Célestine, uma criada de quarto com bastante experiência, vai trabalhar no interior da França para o casal Lanlaire e se vê às voltas com um patrão que a assedia constantemente (Herve Pierre) e uma patroa autoritária (Clotilde Mollet) que tem prazer em atormentar a empregada com uma sucessão de ordens e críticas claramente sinalizando o desejo de demonstrar poder.

Ainda que tudo isso seja extremamente injusto, vemos que Célestine não se comporta como um bichinho acuado: ela tem quase sempre um olhar cínico, debochado, e entredentes expressa seu desprezo pelos empregadores. Um desses exemplos, numa cena em flashback, mostra o quanto se diverte ao ver uma patroa passar por constrangimento público na alfândega durante uma viagem de trem.

Os flashbacks, inclusive, são um ponto fraco do roteiro. São inseridos de forma não muito clara, tornando as mudanças de tempo um tanto confusas. Às vezes, parece que Célestine trocou de emprego; mas depois vemos que continua trabalhando na casa dos Lanlaire.

Outra falha grave é a súbita e inexplicável transformação sofrida por Madame Lanlaire, difícil de acreditar. Há personagens secundários que merecem atenção pelo bom trabalho de seus intérpretes: Marianne (Mélodie Valemberg) é a cozinheira que no início recebe Célestine com uma certa desconfiança, mas com o tempo a troca de confidências sobre as agruras que ambas já passaram cria uma cumplicidade entre elas. Patrick d’Assumção é o excêntrico (ou, melhor dizendo, lunático) Capitão, vizinho que acaba revelando uma perversidade assustadora. Vincent Lindon é Joseph, antigo criado da casa, monossilábico, carrancudo e que tudo observa. Por mais sexualizada que seja Célestine desde o início do filme, em seu envolvimento com o empregado parece faltar alguma coisa. Seja baseado em desejo carnal ou amor, não parece tão sincero, ainda que algumas cenas tenham sido feitas especialmente para nos fazer acreditar nele.

Os figurinos são bem elaborados, de acordo com a época, assim como a ambientação – é possível notar as paredes manchadas e descascadas da cozinha e sentir o ambiente nada aconchegante que é o quarto de Célestine. Já a fotografia valoriza bastante o verde e o frescor da natureza no interior da França e também os tons luminosos no cenário de praia – outro local em que a criada trabalhou. Há predominância do uso da câmera focando a personagem em movimento quase o tempo todo, muito de perto, tanto de frente quanto de costas, o que traz o espectador literalmente para dentro do universo da protagonista.

Léa Seydoux está ótima no papel, mas quem é cinéfilo pode conferir as atuações de Jeanne Moreau na obra de Buñuel (1964) e de Paulette Goddard, no filme de Renoir (1946).

Crítica: Diário de uma camareira
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