Igual casamento: divididos entre o lado bom e ruim

Os relacionamentos amorosos é uma fonte inesgotável de inspiração. Embora, muitas vezes, as “inspirações” sejam muito parecidas umas com a outras. De qualquer forma, essas relações fizeram com que o cinema desenvolvesse um gênero que as pudesse satirizar, sem perder o romantismo. As comédias românticas ganharam o mundo e tiveram seu auge na década de 90 e início dos anos 2000. Mesmo existente muito antes disso e com uma produção contínua até hoje, o Brasil demorou a reconhecer a relevância do gênero ao cinema nacional. Entre as novas e divertidas comédias românticas brasileiras temos “Divórcio”.

A trama começa quando Júlio (Murilo Benício) invade o casamento arranjado de Noeli (Camila Morgado) impedindo o término da cerimônia. Ela decide “fugir” com ele e juntos constroem um lar e uma grande empresa de molho de tomates, a JUNO. Com a receita de Noeli e a administração de Julio a empresa os fazem se tornarem um dos casais mais ricos de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo. Mas a empresa, junto com o tempo, também os tornaram um dos casais mais infelizes das redondezas. Em determinada ocasião, voltando de um evento em São Paulo, o carro acaba a gasolina e eles ficam parados em um “atalho”, no meio do mato, sem sinal de telefone. Júlio resolve ir para casa a pé e diz que pegaria outro carro para buscar Noeli, mas ele acaba ficando não voltando e cai no sono, fazendo com que ela tenha que enfrentar seus medos e voltar pra casa. Tal situação se torna a gota d’água e ela pede o divórcio. A partir daí uma séries de confusões entre eles aumentam e conturbada relação.

Com argumento de L.G. Tubaldini Jr., o roteiro escrito por Paulo Cursino em parceria com Angélica Lopes é agradável. Temos uma criação palpável e, de certa maneira, corriqueira. Mesmo apresentando personagens caricatos, de longe, eles não caem no desgosto e/ou no excesso. Com ponderância, foi desenvolvido uma narrativa dramática com pontos cômicos para um “auto-reconhecimento”. É exatamente nesse quesito que o roteiro se apega, afinal qual casal, com alguns anos juntos, não reconhece o desgaste da própria relação? Que os defeitos ganham mais destaque e a “loucura a dois” sai da vida sexual para a correria do dia a dia?!

Se por esse lado o resultado é ótimo, por outro nem tanto. A história peca em seu ritmo cômico, uma vez que é a comédia o seu marketing. Temos piadas bem estruturadas, divertidas e leves, mas há mais pontos dramáticos que cômicos. Então, esse seria um filme de “dramédia” romântica?! Muito provavelmente poderíamos chamá-lo assim. Tal conceito acaba fazendo com que a produção perca seu ritmo várias vezes. Quando achamos que ele vai nos emplacar uma crise de risos, o roteiro com a direção, alinhada a montagem de Danilo Lemos, abaixa o fogo e deixa a comicidade de lado.

Pedro Amorim, em seu terceiro longa, consegue superar seus trabalhos anteriores. Junto a com a equipe de produção, realiza um longa que não perde em nada à produções gringas. Ele dá uma dinâmica leve e descontraída a toda confusão, além de criar climas de tensão e ação de maneira despretensiosa, mas de alta qualidade narrativa. Claro que a equipe de efeitos especiais e visuais tem sua parcela nessa qualidade, mas o fato de Amorim construir esse dinamismo visual, faz com que seu trabalho cresça e muito. Outro fato relevante é seu trabalho com o elenco, que salta os olhos, fazendo com que todos tenham seu devido mérito em tela. Pelo menos os que realmente são atores.

Nas participações da produção, podemos destacar a de Paulinho Serra, com um bandido/hacker, e Robson Nunes, como Pardalzinho, um dos funcionários da industria Juno. Os advogados Roberto Lobão e Priscila Kadisci, vividos por André Mattos e Angela Dip, são tão gananciosos quanto precisos. Eles exercem uma presença de autossuficiência que nos diverte dentro do contexto em que são apresentados, cada um a sua maneira. Thelmo Fernandes, como Milton, é uma boa caricatura de um solteirão que passou dos 40 e anda meio perdido sobre sua vida amorosa. Já Luciana Paes, como Sofia, é uma figura cômica só com sua expressão seca e suas falas bem colocadas. Mas nós sabemos que o filme é de Murilo Benício e Camila Morgado. Para sermos mais honestos, Benício tem momentos ótimos, mas é Camila que se destaca. Com uma química extraordinária em cena nos sentimos íntimos de Julio e Noeli. Eles mostram que uma caricatura bem feita consegue conquistar, arrancar risos e até emocionar. Interpretar é ser capaz de dar veracidade e isso ambos conseguiram com primor.

Para embalar a trilha da produção, o hino “Evidencias“, de Chitãozinho e Xororó, foi o escolhido. Contudo, o fato da música ter sido regravada é, literalmente, uma heresia. Se o filme não conquistasse, tal fato já o faria perder diretamente metade de sua nota de avaliação. Há canções e canções, e uma das maiores e melhores músicas sertanejas nem sempre pode ser regravada por um(a) cantor(a) do “momento”. O resultado final é desagradável aos ouvidos, embora combine com a proposta do filme. Talvez fosse mais interessante que os próprios artistas fizessem a versão rock n roll. Junto com a banda Fresno, no antigo “Estúdio Coca-Cola Zero” (2008), exibido pela MTV Brasil, Chitãozinho e Xororó fizeram uma excelente rock version de “Evidencias“, que dá de mil a zero no da Paula Fernandes.

Com coisas positivas e negativas, “Divórcio” cativa e entretém. Há bons momentos cômicos, uma narrativa interessante e um elenco afiadíssimo. Vale dizer também o quão interessante é a visão dos personagens dentro do contexto social, levando em conta os direitos e deveres de uma vida a dois e a importância da luta por direitos iguais. A experiência do público pode variar de acordo com a proximidade dele para com a história, mas sem dúvida é um filme brasileiro que merecer ser visto. Uma “dramédia romântica” para se divertir e passar o tempo de forma sadia.

Crítica: Divórcio
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