“Dorotéia” de Nelson Rodrigues ainda é pertinente hoje

“Dorotéia” foi escrita em 1949 e é considerada  uma “Obra Mítica”de Nelson Rodrigues. Tal conjunto das mesmas, foram chamadas assim pelo crítico Sábato Magaldi e fazem parte de um momento de reflexão de Nelson Rodrigues, são obras poéticas, viscerais, sobretudo simbólicas e repletas de signos. A peça “Dorotéia” trata do culto da beleza e do que ela representa.

Letícia Spiller é nitidamente apaixonada por teatro e se entrega ao personagem de corpo e alma. É a primeira a desnudar-se – o que ainda causa certa apreensão na platéia. Interpreta uma Dorotéia emocionada. Na cena em que canta, mantém todas as notas apesar do choro. Em um momento em que alguns atores enxergam o teatro como um “job”, é maravilhoso ver uma entrega cênica tão intensa.

Rosamaria Murtinho – que está completando sessenta anos de carreira com esta montagem – interpreta uma triste Dona Flávia e prova que a maturidade faz grandes atores. Tem nuances quase indecifráveis, ou seja, é um Nelson Rodrigues bem estudado. Frases como “A Senhora piorou muito de cara desde a última vez que a vi” são pronunciadas como se fossem um grande elogio. Sua construção de corpo é minuciosa. Aliás todos os atores mantém um trabalho de corpo diferenciado. A preparação corporal é do próprio diretor, Jorge Farjalla.

Todo o elenco tem um trabalho coeso, com destaque para Alexia Dechamps que está irreconhecível e para atriz carioca Dida Carneiro que entra em cena e levanta o espetáculo, emprestando um ritmo de comédia seguro: “Seu hálito é bom demais para uma mulher honesta”.

O enorme cenário de José Dias é uma obra de arte e toma conta de todo o palco. Quatro árvores gigantes e seus galhos no alto se misturam à muitas folhas secas pelo chão. Atores portando instrumentos musicais (Homens Jarro) entram dentro das árvores, como se fossem quatro coxias. Há também um palco sobre o palco, onde se passa toda a ação e em determinado momento se abrem duas covas. Há uma rampa ao fundo por onde entram e saem os atores. Quatro arquibancadas são colocadas no palco para que o público assista a peça por um angulo inusitado e cria-se um palco de arena.

O figurino de Lulu Areal não retrata uma época exata, ele condiz com o clima da montagem com tecidos florais escuros, com tons marrom, laranja escuro e cinza. Os Homens de Jarro que andam pelo palco e pela frente da platéia usam uma renda na frente dos rostos, de modo que se tornam figuras sombrias.

A iluminação foi criada sem “gelatinas” (folhas de papel transparente colocadas a frente dos refletores para colorir a cena). Ou seja, apenas focos brancos que já são uma moda no teatro contemporâneo. A luz protege a nudez da atriz na cena em que Dona Flávia tira a roupa de Dorotéia. E leds da cor vermelha são usados apenas para simbolizar a morte – que acontece duas vezes, através do terço que Dona Flávia (Rosamaria Murtinho ) joga no chão e pinos de leds vermelhas se acendem. Um pouco óbvio usar a simbologia do vermelho nas mortes.

A trilha sonora original é assinada por Leila Pinheiro, João Paulo Mendonça, Fernando Gajo e Rafael Kalil. Os Homens de Jarro usam diversos instrumentos: violão, acordeom, violino entre outros. O desenho de som merece destaque. Microfones visíveis no centro do palco captam a voz do elenco e a transformam com efeitos pouco utilizados no teatro como por exemplo, o eco.

A direção poderia imprimir mais ritmo e acentuar a crítica social que Nelson faz. A marcação cênica não traz grandes novidades, embora se permita aos atores ficar de costas para a platéia principal. É nítido o paralelo que ele cita com “A Casa de Bernarda Alba” de Frederico Garcia Lorca. Se a nudez de Letícia Spiller ainda reverbera um estranhamento na platéia, o anunciado noivo que entra um com o pênis ereto – causa uma surpresa ainda maior. Na verdade, apenas olhar um falo ereto não deixaria as personagens femininas com tesão, elas têm uma reação completamente masculina. Quando as mulheres se masturbam, fazem gestos como os dos homens. A direção não tentou entender as personagens, e imprimiu um olhar desatento às verdadeiras questões do texto de Nelson.

A peça fala sobre a repressão da mulher. “Dorotéia” é pertinente hoje – as mulheres ainda são impedidas de viver plenamente e descobrir sua sexualidade. O texto fala da libertação da sexualidade da mulher – além do tema envelhecimento feminino. Ainda hoje as mulheres são impedidas de viver plenamente a descoberta da sua sexualidade. Em “Dorotéia”o que choca é a repressão da mulher pela própria mulher. É como se a mulher fosse machista e concordasse em deixar-se feia para não ser desejada e continuar sem sexualidade. Devemos pensar na contradição colocada por Nelson Rodrigues nos dias de hoje.

Por Pitty Webo

Crítica: Dorotéia
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