Crítica: Em Pedaços

Nada no mundo contemporâneo tem deixado tantas feridas e causado tanta dor como o terrorismo. Ele está em todos os lugares, carrega várias bandeiras e atinge inocentes aos milhares. Por anos a Europa vem sofrendo com a barbárie; o que faz seus cidadãos vítimas em potencial. Além dos já conhecidos grupos do oriente médio, há uma nova onda de criminosos que se escondem por trás de ideologias politicas de extrema direita, e a Alemanha, infelizmente, é uma das nações que mais produz esse tipo de individuo. A causa, evidentemente, é o seu passado à sombra de Adolf Hitler.

“Em Pedaços” do cineasta alemão, de ascendência turca Fatih Akin vem tratar desse problema assustador que é o Neo Nazismo. A história é contata através de Katja Sekerci (Diane Kruger) que perde seu marido e filho em um atentado terrorista realizado por um casal de supremacistas brancos (essas informações não são spoilers, já que estão no trailer do longa). Nuri (Numan Acar), o marido, é um ex-presidiário turco, dono da pequena loja que é explodida. Depois do ocorrido e dos suspeitos presos, Katja irá ao tribunal para acompanhar e servir de testemunha no processo judicial, enquanto tenta lidar sozinha com uma vida insuportável sem seus entes queridos.

O espectador é transportado para a nova realidade de Katja. Se antes a vida era feliz em uma casa coberta pelos raios de sol da manhã, agora ela é funesta; cortada por corredores escuros, onde a pouca luz só serve para que a mulher não tropece no acumulo de objetos jogados no chão. No passado os sorrisos e brincadeiras de fins de semana na praia são abundantes, agora, em substituição, há a neve e a chuva torrencial de um presente melancólico. Essa construção expressionista pode parecer genérica, mas é bem trabalhada por Akin em sequências discretas, quase fazendo com que a câmera seja esquecida em um relato documental. Realidade é o que procura o roteiro, sem cair no manjado esquema de filme de vingança Hollywoodiano, mesmo tendo uma estrela como Diane Kruger no elenco.Kruger é, sem dúvidas, um dos grandes atrativos do filme. A força de sua atuação mostra o motivo dela ter ganhado um prêmio no festival de Cannes em 2017. Ela também ganhou o Globo de Ouro e foi injustamente ignorada pelo Oscar. Quem ainda acha que a atriz alemã é apenas mais um rosto bonito ficará impressionado com o tom visceral da construção de sua personagem. A dor da mãe e esposa é explanada em cenas magistrais de descontrole e em diálogos com seus familiares. Mistura-se a essa dor a raiva, o que dá ainda mais profundidade e significado aos seus sentimentos. Não há momentos de baixas em seu desempenho, tudo é uma grande crescente até os últimos momentos de projeção. Os outros personagens são usados como escadas para que essa excelente atriz dê seu show e ela entrega o melhor de sua carreira até agora.

A narrativa é construída como um thriller, mas não acelera o tempo a procura de respostas fáceis. Cadenciadamente a trama se desenrola e todas as peças são expostas. Nunca pesando a mão na direção, Akin consegue discutir as falhas processuais do sistema jurídico alemão e as raízes às vezes não tão evidentes das formas de preconceito racial em um país rachado de forma invisível (a família mora em um bairro exclusivo de imigrantes, em especial turcos). O cineasta não faz parte da raça ariana, como diria os fanáticos. Então, provavelmente, já deve ter passado por situações que o tarimbam para a discussão. Com um final poderoso, “Em Pedaços” deixa um vazio na alma e faz a pergunta que não quer calar: Será que o sofrimento um dia acabará?

 

Crítica: Em Pedaços
8Pontuação geral
Votação do leitor 0 Votos
0.0
CLOSE
CLOSE