Uma produção que sabe aonde quer chegar, e principalmente como contar a sua história

Sem fugir muito do que é a pura essência do cinema latino-americano contemporâneo, “Esteros” segue uma linha bem mais atual e ideológica da cultura cinematográfica típica de festivais ou propriamente das produções independentes. Sem grandes revelações no enredo, mas optando por um roteiro mais amplo dentro das próprias possibilidades criativas para contar a sua história, essa produção entre Argentina e Brasil é um romance que vai da descoberta da sexualidade até a relação de pertencimento ao local de nascença.

Sem esconder o seu propósito desde o início, mas preocupado sim em como desenrolar uma narrativa interessante em cima daquilo que o espectador sabe que vai acontecer em algum momento, mas não necessariamente como e quando. Neste caso não deixa de ser interessante, começando pela forma como somos apresentados aos personagens principais. Através de um flashback inicial, e que voltaria mais algumas vezes durante o filme, conhecemos Matías (Ignacio Rogers) e Jerónimo (Esteban Masturini), dois amigos inseparáveis, que conviviam apenas entre si e durante todo o verão, sempre mais velhos do que na temporada anterior e a cada ano novos interesses.

Como obra original, “Esteros” possui um ritmo muito bem organizado em todos os sentidos, principalmente no apoio que o roteiro oferece na construção da história e dos personagens, como o já mencionado uso do flashback para mostrar que aquela relação sempre foi feita de momentos simples e que ultrapassam o sentido da amizade. Tendo como cenário Paso de los Libres, uma cidade argentina da província de Corrientes, tipicamente interiorana com poucos habitantes e sem muitas oportunidades de vida fora aquelas voltadas para áreas relacionadas ao campo.

O roteiro definitivamente é a parte mais interessante da produção, ao mesmo tempo que assistimos ao reencontro de Matías e Jerónimo após muitos anos afastados pelos desencontros naturais da vida, parcialmente vamos elevando a expectativa sobre a relação dos dois para os sentimentos de paixão entre eles. “Esteros” é desde o começo sobre a relação entre os dois, passando pelos momentos da descoberta da sexualidade na infância e das consequências que aquele momento causou para a personalidade de cada um. Cada um tem a sua vida, sua história, porém os sentimentos estão guardados em algum lugar daqueles corpos.

A fotografia persegue por sempre manter uma coerência com aquilo que foi mostrado quando da infância dos personagens, e isso é extremamente importante quando de uma forma mais simbólica o cenário faz parte do presente e principalmente do passado dos dois. Como cada ator tem sua versão criança, todos os elementos devem ser aproveitados para manter ao máximo uma identidade semelhante para que não exista uma diferença exorbitante. Alguns planos são exatamente iguais ou remete ao mesmo momento do passado, usando também todas as referências possíveis para que esteticamente a cena seja natural mas que não fuja daquilo que deseja ser apresentado.

“Esteros” faz parte de uma originalidade que permite dentro de uma narrativa previsível explorar outras perspectivas, mesmo sobre questões que estão cada vez mais presentes dentro do cinema e cultura popular. A direção de Papu Curotto entrega uma linearidade favorável ao ritmo dos acontecimentos, sem a intenção de apressar um romance aos olhos do espectador, a preocupação é inteiramente em construir um todo para no fim entregar uma obra coerente com o seu significado.

Com estreia no último dia 27 de julho, “Esteros” fala para todos os públicos. É sobre o presente e o desejo de no passado ter vivido mais, mas com um futuro aos pés de uma experiência inacabada.

Crítica: Esteros
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