Crítica: Eu, Daniel Blake

Você é Daniel Blake?

Primeiramente, acredito que todo brasileiro tem um pouco de Daniel Blake. “Eu, Daniel Blake”, o novo filme do diretor inglês Ken Loach, é um retrato extremamente realístico dos problemas que a burocracia para receber os recursos do seguro desemprego (Employment and Support Allowance) pode causar na vida de quem necessita dos benefícios para sobreviver na Inglaterra. A mesma papelada necessária para obter ajuda do governo, não é uma realidade distante dos brasileiros. Mas talvez, alguns de nós não saibamos na pele o quão humilhante essa situação se torna na medida em que o cidadão dispõe de poucos ou mesmo nenhum recurso para viver.

O personagem central, Daniel Blake, é um carpinteiro idoso apaixonado pelo seu trabalho que vive em Newcastle, no Nordeste da Inglaterra. Após perder a sua esposa e sofrer um ataque cardíaco, Daniel fica impossibilitado de trabalhar durante a sua recuperação e necessita do apoio do governo para viver. De repente, ele se vê mergulhado em um mar de dificuldades e então começa a sua jornada sem escalas para o Inferno: seus médicos o proíbem de trabalhar por estar com o coração ainda debilitado mas, surpreendentemente, após responder o questionário de inscrição, é desqualificado para receber os benefícios do governo, mesmo com todas as provas e exames médicos necessários.

Ao visitar a Secretaria de Assistência Social, Daniel conhece Katie, uma jovem mãe solteira com dois filhos pequenos, que acaba de chegar de Londres para morar em um alojamento em Newcastle, a mais de quatrocentos e oitenta quilômetros de distância da sua terra natal. Katie também depende da ajuda do governo para alimentar seus filhos e eles se identificam imediatamente: os dois são dependentes de um sistema injusto e falho e estão nas mãos de funcionários públicos desqualificados e grosseiros.

Esse mais novo trabalho de Ken Loach é um ataque direto às regras errôneas e insensíveis que o governo impõe aos que mais necessitam de ajuda, causando uma situação humilhante a quem já praticamente perdeu toda dignidade.

O diretor deixa de lado as ironias e as indiretas. O objetivo do filme é delatar uma situação urgente e inaceitável. A história é contada sem o menor adorno. A realidade nua e crua é retratada na tela quase que de forma documental.

“Eu, Daniel Blake” é uma perfeita demonstração de que menos é mais. O filme tem paixão e idealismo e, apesar de entregar o final muito antes que ele chegue, consegue levar o público a comoção pela triste história dos personagens e pela revolta em relação às barreiras burocráticas.

Daniel Blake é interpretado pelo conhecido comediante Dave Johns que, juntamente com Hayley Squires (Katie) entregam performances incríveis, justamente por não parecerem estar interpretando. Os dois atores, extremamente carismáticos, vivem intensamente cada instante com uma naturalidade desconsertante. Um dos melhores momentos do filme é a cena em que Katie, levada por uma fome extrema, perde a última lasca de dignidade diante dos filhos e, ao se dar conta disso, se envergonha. Daniel e Katie são muitos de nós e a verdade é que os personagens centrais são a burocracia, a solidão e um mundo terrível de fome e miséria.

Loach tem intenção de nos mostrar um pouco do que realmente está acontecendo no centro das grandes nações. E consegue! “Eu, Daniel Blake” é uma obra com uma dignidade admirável!


Por Thiago Pach

Crítica: Eu, Daniel Blake
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