Um épico de reflexão contemporânea

Há 11 anos esperamos uma obra de Guillermo del Toro que aproximasse o estilo do belíssimo e premiado “O Labirinto do Fauno” (2006). Para alguns essa espera acabou, para outros só em 2018, quando o filme finalmente estreia no circuito brasileiro. Como era de se esperar, o aspecto sombrio ganha paixão e sinuosidade para contar um romance entre uma mulher e uma criatura marinha. Essa é a principal base de “A Forma da Água” (The Shape of Water), que mistura um pouco de tudo e cria uma fantasia fantástica, literalmente.

A história se passa no ano de 1962, durante a Guerra Fria, na cidade de Baltimore, Maryland, nos EUA. Eliza Esposito (Sally Hawkins) é uma mulher solitária que mora em um apartamento em cima do cine-teatro “Orpheum”. Orfã e muda desde criança, quando teve suas laringes retiradas, ela tem uma vida rotineira entre sua casa e seu trabalho. Com a vida inversa a maioria das pessoas, Eliza trabalha a noite como faxineira numa organização secreta de segurança governamental. Antes de ir trabalhar ela acorda, prepara seus ovos cozidos, toma um demorado banho, tira uma data do calendário e visita seu solitário e único vizinho, o artista plastico e ilustrador, Giles (Richard Jenkins). Com ele, ela se distrai e ainda acompanha trechos de programas e shows da época, como o sitcon “The Many Loves of Dobie Gillis“, mas assiste principalmente a cenas de musicais e de sapateado.

No caminho para o trabalho ela sempre observa seu trajeto e põe sua boina na janela para encostar a cabeça com mais conforto. Chegando sempre atrasada, sua amiga e companheira de limpeza, Zelda (Octavia Espencer), segura seu lugar na fila para que ela bata o ponto na hora certa, ainda que Yolanda (Allegra Fulton) sempre reclame disso. Como Eliza não fala, Zelda faz isso por ela e fala bastante. Até demais, principalmente se forem reclamações sobre seu marido. Certo dia elas estão fazendo a limpeza do nível T4 e uma equipe liderada pelo agente Strickland (Michael Shannon) chega com o cientista Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) para estudar e descobrir tudo a respeito de um “Homem Anfíbio” (Doug Jones). Com o tempo, o fascínio de Eliza pelo ser desconhecido acaba crescendo e ela passa a ter uma relação direta com ele. Porém, ao descobrir que o General Hoyt (Nick Searcy) manda matá-lo, ela arquiteta um plano para libertá-lo. Nessa estranha relação vemos florescer algo genuíno e puro, e a luta pelo amor e pela empatia.

A Forma da Água” é o quarto filme, escrito, dirigido e produzido por Del Toro. A história criada por ele, teve a escrita de seu roteiro compartilhada com Vanessa Taylor. Nessa produção já facilmente reconhecemos a identidade de seu criador em suas áreas. Se tratando da escrita não podemos deixar de lado algumas questões. A primeira é a referencia direta a criatura do filme “O Monstro da Lagoa Negra” (“The Creature from the Black Lagoon” – 1954). Assim como o clássico o homem anfíbio se apaixona por uma mulher e também é natural de um rio da Amazônia. Por o configurarem como um ser de água salgada, isso só seria possível caso ele fosse nativo de regiões onde acontecem o encontro das águas. Mas isso é pulado, afinal para os gringos a Amazônia é um país e não uma floresta presente em vários países da América Latina.

Não fugindo das referencias, também vale lembrar que del Toro, anteriormente, já nos apresentou outro ser praticamente idêntico, o Abe Sapien, em “Hellboy” (2004) e “Hellboy II” (2008). Não podemos afirmar se reviver esse personagem é apenas por tê-lo despertado o interesse, se é um fascínio, ou se há alguma coisa subliminar. Além dessas “coincidências” há outras estruturas narrativas, escritas e visuais, que nos remete diretamente a “Pan’s Labyrinth“. O primeiro caso é por se tratar de uma fantasia de criaturas fantásticas que influenciam diretamente algum movimento conturbado da história. Depois temos o protagonismo feminino e a expressão “princesa”, recorrente as obras de del Toro. Temos sempre a questão do real e do imaginário, embora ele resolva até burlar leis físicas para a construção de momentos específicos da trama.

Priorizou-se planos não complementares e raras são as vezes que vemos uma sequência de planos explicativos, indo do aberto ao mais fechado e assim por diante. A produção de casting realizada por Robin D. Cook, deu ao diretor grande estrelas que seriam moldadas brilhantemente a sua narrativa e estética. Dan Lausten que já o acompanha há anos, sabe exatamente como transformar qualquer cenário na atmosfera perfeita para um “del Toro Movie”. A direção de fotografia de Dan, estabelece referências que lincam a Nouvelle Vague ao Expressionismo Alemão, do Noir à Teatralização Musical de Hollywood. Tudo isso montado de maneira leve e fluida pela Sidney Wolinsk. Sendo assim o mestre dá vez tem muito seu mérito, mas sem esse dois, e o resto da equipe também, seu impecável trabalho nessa produção não seria possível.

A verdade é que nos falta palavras para engrandecer o trabalho de toda a equipe. Sendo assim, o visual deslumbrante do design de produção de Paul D. Austerberry, junto a direção de arte de Nigel Churcher e a decoração de set de Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau são um recorte temporal extremante bem feito. As texturas das paredes em forma de escama, a escolha do estilo industrial para o recorte da corrida espacial e a ideologia do cine-teatro como uma referencia de romance de época são os exemplos mais simples que podemos citar sem dar spoilers. Ah, também não podemos esquecer dos múltiplos tons de verde que foi eleita a cor do ano. Não podemos deixa de engrandecer o excepcional trabalho da maquiagem de efeito feita por Michael J. Walsh e Jeff Derushie. Obviamente, os efeitos visuais deram a finalização necessária, mas a caracterização do homem anfíbio e as demais maquiagens foram executadas com máxima perfeição.

Juntando a trilha sonora original, com as músicas inclusas e a mixagem de som temos outra atenção a manter. Ao conseguirmos notar que o som de uma cama rangendo se torna os sons do ambiente de trabalho, já podemos ver a preocupação de que os sons sejam mais narrativos do que somente necessários. As composições de Alexandre Desplat nessa obra nos cativa desde o primeiro momento, ao ponto até da própria protagonista assobiar um texto da melodia logo no início do filme. Em certos momentos ela sai da fantasia e do romance e ganha  um peso sonoro como as antigas composições de vilões em filmes épicos dos anos 60/70. Para completar ainda temos a música francesa “La Javanaise“, de Madeleine Peyroux, uma regravação de “Babalu” e “Chica Chica Boom Chic“, na voz da eterna Carmen Miranda.

O elenco como um todo entrega exatamente o esperado e transcende a tela, seja de maneira cômica ou dramática, mas aqui temos que exaltar a – já ousando em dize –  futura indicada a Melhor Atriz na temporada de premiação, Sally Hawkins. Ela que foge da estereótipo da beleza feminina imposta pela própria industria, consegue ser tão genuína, atraente e graciosa quanto ou até mais que uma sex symbol do mercado. Mesmo com uma enorme e bem preparada estrutura, com Guilhermo por traz e a frente da produção, “A Forma da Água” jamais poderia ser o que nos foi apresentado sem o impecável, tocante, naturalista e vívido trabalho da atriz. São tantos momentos incríveis, sem dizer uma palavra sequer, que nos fazemos a sua semelhança. Não falamos, observamos, aprendemos e sentimos.

É exatamente o que o filme nos entrega: a necessidade de se ouvir mais. De reconhecer a si naquele que lhe parece distante, é abraçar o amor sem medo de se perder, é respeitar a escolha e a identidade do outro, é não morrer sem lutar por aquilo que acredita. Nesse mix de sensações e emoções, “The Shape of Water” vai além de um filme de época com bases fantásticas e românticas, a produção é um deleite ao espectador consciente, atento e apaixonado por cinema de verdade. Uma obra muito maior do que se esperava e  necessária a nossa filmografia pessoal.

Crítica: A Forma da Água
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