Sentada em torno da mesa, uma família comenta fotos em um álbum fotográfico. Entre imagens cotidianas, registros encontrados em qualquer arquivo familiar, um retrato chama a atenção. “Parece com o Bruno”, observa uma voz feminina. “Acho mais parecido com o Guga”, alguém completa. A foto é de um homem algemado sob vigia de forças policiais.

A pessoa em questão é Theodomiro Romeiro dos Santos, o Theo, preso político condenado à morte durante a Ditadura Militar que nos anos 70 virou notícia nacional após conseguir fugir da prisão. Sua trajetória é o centro de Galeria F”, documentário dirigido por Emília Silveira (Setenta), também ex-presa política, que direcionando seu olhar para um microcosmo, consegue com sensibilidade denunciar os horrores do período mais sombrio da história do Brasil.

Construindo a narrativa através da visita aos locais que constituíram seu trajeto de fuga da Penitenciária Lemos de Brito, na Bahia, em 1979, nos relatos sobre cada parada passamos a conhecer a totalidade da história de Theo. Militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) desde os 14 anos, aos dezoito foi preso por matar, reagindo ao receber voz de prisão, um sargento da aeronáutica e ferir um agente da polícia federal. Torturado, preso e condenado à morte – condenação que posteriormente se converteu em uma prisão perpétua –, após nove anos na cadeia, o guerrilheiro excluído da Lei na Anistia, que nada tinha de ampla, geral e irrestrita, concluiu que se não saísse do cárcere por conta própria seria morto pela repressão. Nesse ínterim, Theodomiro fugiu, abandonando a cela nº 10 da Galeria F.

No rosto tranquilo e de riso fácil, é difícil imaginar os maus bocados pelos quais o baiano passou. Acompanhando seus passos com a câmera na mão, no encontro com colegas e locais do passado, o filme embarca nas memórias de seu protagonista, boas e ruins. Em relatos curiosos, Theo gargalha ao contar como saiu de um estrangulamento por parte de um companheiro de cadeia e ao relembrar que seu amigo de prisão, encarregado de divulgar para a mídia uma carta sobre sua fuga, esqueceu-se da senha que eles haviam combinado que avisava que seu escape foi bem sucedido.Transitar com naturalidade entre esses momentos é mérito da produção, que prioriza a humanidade de seus personagens, afinal, quando sua matéria-prima são as pessoas da vida real nada pior do que adotar um tom artificial. Porém, se o longa consegue quebrar a tensão com episódios de leveza, ele também não nos poupa das situações duras. Optando por recordar as torturas sofridas pelo fugitivo apenas em seu terceiro ato, acompanhamos o ex-preso político, que hoje é juiz aposentando do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), revisitar o Forte do Barbalho onde foi torturado diariamente por semanas, tempo que ficou coberto de sangue, sem a possibilidade de tomar banho e obrigado a fazer o descarte dos dejetos dos prisioneiros, que acabavam escorrendo por seu corpo ao carregar em seus ombros a tina cheia de fezes e urina.

Entre entrevistas, imagens de arquivo pessoal e reportagens de jornais impressos e televisivos do país todo perguntando-se onde estava Theodomiro, o ponto alto do documentário não fica só em levar o espectador para visitar o passado de seu personagem principal, mas também fazer com que seu filho Guga veja com os próprios olhos o que seu pai viveu. Conhecendo o pavilhão da penitenciária em que ele passou os anos entre 1970 a 1979, uma das situações que o filme registra é o rapaz chegar à conclusão que reconstituir seu passos fez ele compreender melhor as atitudes paternas.

Sem a preocupação de ser didático e fazer uma retrospectiva completa do que foi a Ditadura Militar brasileira, “Galeria F” recorta apenas o caso de Theo, mas consegue deixar claro a brutalidade do regime. O mais preocupante é que em um país que ainda tem 12,9 milhões de analfabetos, muitos sequer sabem o que foi ele. A diretora deixa isso explícito quando a equipe pega uma canoa para atravessar o rio São Francisco em Canavieiras, um dos locais da fuga e o ex-preso político pergunta aos jovens que conduzem o barco se eles sabem o que foi a ditadura. A resposta é negativa.

Em tempos tenebrosos como o nosso, em que ardis políticos retiram a presidente legitimamente eleita e que figuras públicas e personalidades da política fazem discursos saudosistas venerando o período, filmes como “Galeria F” são importantes para lembrar os caminhos perigosos que governos autoritários podem nos conduzir.

Que alguém nos proteja.

Crítica: Galeria F
8Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos
0.0