Sobre ontem e, infelizmente, sobre hoje

Não sabemos até que ponto será necessário lutarmos por igualdade, seja ela qual for, infelizmente. Contudo, se houver necessidade no amanhã terá quem lute. Hoje, nós lutamos. E no passado, exemplos não faltam, para o presente e o futuro. E um desses casos é a tenista  Billie Jean King que ganha sua cinebiografia, com um dos momentos mais emblemáticos da luta por igualdade entre homens e mulheres. “A Guerra dos Sexos” (Battle of the Sexes) traz uma história ocorrida em 1973, mas com a temática extremamente atual e necessária.

A esportista em ascensão, Billie Jean King (Emma Stone) descobre que as mulheres tenistas recebem muito menos que os homens. Mesmo com a mesma quantidade de ingresso vendidos, os mesmos patrocínios, os homens ganham muito mais que o dobro que as mulheres só por serem homens. Desafiando Jack Kramer (Bill Pullman) presidente da associação dos tenistas e todos os demais do grupo ela resolve juntar outras mulheres e fundar sua própria competição. Com o apoio de seu marido, Lary (Austin Stowell) e a ajuda de Gladys Heldman (Sarrah Silverman) Billie Jean consegue.

Paralelo a isso, somos apresentados a Bobby Riggs (Steve Carell), um ex-tenista, campeão mundial que hoje é viciado em apostas e sua vida depende quase que completamente de sua mulher Priscilla Riggs (Elisabeth Shue). Vendo a ascensão e a conquista das mulheres no tênis ele resolve desafiar a número 1 para o desafio do século, valendo 100 mil dólares. Mas valia muito mais que isso. O que Bobby queria realmente provar é que ele mesmo tendo quase o dobro da idade de Billie Jean, ele poderia facilmente vencê-la por ser homem e ela uma mulher.

A comédia escrita por Simon Beaufoy (“Quem Quer Ser Um Milhonário” – 2008) possui inúmeros méritos, mas também há coisas que podem não agradar. Se tratando do retrato do episódio, seu trabalho segue de maneira leve e descontraída sem escolher um lado. Sua abordagem sobre a posição feminista das mulheres é bem pontuada e não segue ao extremismo. Ele também estabelece uma ironia sobre a frágil identidade masculina de há 40 anos atrás e que se estabelece igual até hoje. Portanto, embora seja levantado a questão, esse não é um filme de tomar partido, ele é feito para uma reflexão maior. Contudo, a romantização e erotização feita sobre Billie Jean e a cabeleireira Marilyn Barnett (Andrea Riseborough) não é exatamente o que o texto necessitava. O longa, que também é uma referencia sobre igualdade e representatividade LGBTQs, usa desse romance como uma válvula de escape recorrente demais em toda a obra e assim a base narrativa se perde por diversas vezes.

A direção compartilhada por Valerie Faris e Jonathan Dyaton (“Pequena Miss Sunshine” – 2006) é tão dinâmica quanto o desenvolvimento de seus atores. Com a envelhecida e texturizada fotografia Linus Sandgreen e a bem marcada montagem de Pamela Martin, a dupla consegue resgatar a mesma abordagem de seu aclamado antecessor. Em alguns momentos percebemos a dualidade entre fazer uma produção de enquadramentos mais artísticos para enquadramentos mais naturais. Assim, seguimos observando também uma dualidade em retratar as paralelas histórias apresentadas. Contudo, em momento algum, tal trabalho tenha atrapalhado o bom desenvolvimento visual narrativo.

Embalados pela instigante trilha de Nicholas Britell, o elenco nos entrega ótimas performances. Steve Carell nos dá um tão caricato quanto bem estruturado e carismático. Embora sejamos completamente contrários a sua ideologia de “macho chauvinista’ o carisma do ator alinhado a sua boa construção, não nos deixa ter raiva do personagem. Emma Stone por sua vez, merece muito mais um Oscar por sua performance aqui do que em “La La Land” (2016). Ironicamente ou não, ela sempre se posicionou contra o fato de receber menos que os homens em Hollywood. Assim, ao exercer o papel semelhante, que também deseja a igualdade, ela se estabelece e maneira confortável e atrativa.

Austin Stowell como o marido Lary King e Andrea Riseborough como a amante Marilyn Barnett são duas levezas opostas. Embora tenham uma relação com a mesma mulher, não existe aqui uma disputa. Andrea faz a idealização da mulher que desperta a verdade e a torna confortável, enquanto Austin faz alusão ao marido compreensivo que faz tudo pela mulher, mesmo que isso lhe custe a própria felicidade. Porém, se tratando de personagens coadjuvantes, é Sarrah Silverman que se destaca como a divertida Gladys Heldman. Ela é uma espécie de alivio cômico, embora estejamos falando de uma comédia. Seu ar debochado e expansivo faz de todas as suas cenas pequenos deleites.

A Guerra dos Sexos” é muito mais do que se esperava. É um debate vivo sobre nossas posições como humanos e não como seres de sexos distintos. A leve abordagem sobre o machismo, o feminismo, o preconceito e a homossexualidade, sem tomar partido, faz da produção uma flecha certeira a fim de conquistar qualquer tipo de publico. Ok, a “falta” de posição pode também ser um problema para alguns. Porém, o filme é tão dinâmico com seus bons diálogos e divertido com sua presença, que acreditamos que dificilmente teremos expectadores que questionem a falta de posição no lugar de um debate de respeito e igualdade.

Crítica: A Guerra dos Sexos
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