Levar aos palcos os trabalhos densos outrora escritos pelo (talvez mais) famoso dramaturgo inglês William Shakespeare, nunca é uma tarefa trivial. Adaptações de suas obras ao teatro e ao cinema, no geral, são sinônimos de desafio, mas também de boa receptividade do público. Contudo, considerando que suas obras datam dos idos 1500/1600, dar um ar diferenciado às montagens embute uma provocação à criatividade. No entanto, mentes atentas e (porque não) a frente de seu tempo, conseguem trazer à cena uma nova roupagem e, com isso, encantam quem assiste. Assim é a montagem de “Hamlet” encenada pela Armazém cia de teatro. Dirigida pelo perspicaz Paulo de Moraes, o espetáculo brinca com a história sem dela perder a fidelidade.

A tragédia Shakespeariana, escrita entre 1599 e 1601, narra a busca de um príncipe dinamarquês por vingar a honra de seu pai. Este, envenenado pelo próprio irmão retorna enquanto espectro para contar a seu filho a verdade sobre sua morte. Hamlet então descobre que não somente seu tio traiu seu pai, como sua própria mãe, uma vez que mantinha relações com o cunhado e o ajudou no plano de envenenamento. Quando percebe a veracidade dos fatos narrados pelo espírito de seu pai, o príncipe decide vingá-lo em um plano que mistura loucura e tortura psicológica. O decorrer da trama se torna difícil separar a loucura encenada da loucura real, escancarando como uma traição deste calibre pode ser devastadora. A tragédia trata de temas tão antigos quanto o mundo… Mas infelizmente atuais, como corrupção, traição e vingança.

Na montagem dirigida por Paulo de Moraes a loucura encenada por Hamlet vai além do personagem, atingindo toda atmosfera do teatro. Já de início a cia insere todos os presentes no contexto da festa que inicia o número, aproximando a plateia da narrativa.

Como é natural à visão do diretor, nesta montagem o trabalho não se atém aos padrões convencionais, conseguindo escancarar de forma tragicômica o peso do incesto que corrói as bases familiares e psicológicas do reino dinamarquês. Os diálogos pomposos se mantêm, mas com um ar irônico que por vezes chegam à comicidade, por outras satirizam temas de forma quase cruel. Ainda que mantendo características clássicas, o espetáculo tem pequenas doses atuais em cena, que passeiam por textos, gestos e figurinos. Desta forma se consegue manter características importantes do clássico, sem torná-lo enfadonho ao público atual. E assim, as mais de duas horas de espetáculo transcorrem incitantes.

Foto: Divulgação / João Gabriel Monteiro

A dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça, somada a direção e ao impecável trabalho dos atores trazem um produto visceral de muitas formas. É possível experimentar o medo, os arrependimentos, as dores e (principalmente) a loucura que envolvem os personagens na medida em que a verdade começa a surgir naquele contexto familiar. Hamlet é o personagem mais intenso, e exibe-se forte em sua loucura (cada vez mais intensa e fora de controle); mas todos os personagens são interpretados exatamente no lugar que lhes compete (guardando os possíveis pudores).

Os figurinos auxiliam nesta proposta, ajudando a descrever a personalidade dos personagens. Para isso não segue o padrão de dresscode da época, mesclando referências clássicas e atuais harmoniosamente.

O personagem principal é vivido pela (incrível) Patrícia Selonk. A atriz dá vida a um personagem intenso em uma versão marcante. O fato de ser uma mulher na pele do príncipe é uma abordagem interessante, não só por brincar com as questões de gênero, mas por trazer protagonismo ao feminino mesmo ao tratar de obras desenvolvidas em épocas em que isso não era uma pauta latente.

O Cenário traz ao espetáculo diversas possibilidades, e é utilizado de maneira inteligente. É responsável por criar relações de proximidade e distância (que acontecem no visual e na acústica) estabelecendo limites nas relações tanto entre atores quanto com o público. A iluminação associada ao cenário cria efeitos que explicitam relações e (novamente) a personalidade dos personagens. Ou seja, tudo funciona de forma consonante para um resultado final de bom gosto.

Foto: Divulgação / João Gabriel Monteiro

O espetáculo conta com projeções que mostram com potência o que passa na cabeça do protagonista. O trabalho audiovisual é incrível não só pelos efeitos, mas pela atuação e pelo encaixe certeiro ao longo do espetáculo.

Uma crítica que pode ser feita é a utilização de outro idioma na composição da trama. Em um breve momento a personagem Ofélia canta e fala em inglês, em uma cena bela e com mensagem que deveria ser entendida por todo público. Neste ponto o espetáculo poderia ser mais acessível (e porque não: menos elitista).

A montagem vem sendo muito elogiada e está concorrendo ao Prêmio Cesgranrio de Teatro 2017 em 6 categorias (inclusive como melhor espetáculo). E fica no Rio até o dia 06 de agosto. Depois partem para Curitiba, onde se apresentam em curtíssima temporada. Daqui fica nossa recomendação: Se conseguir comprar ingressos = VÁ!

Crítica: Hamlet - Armazém Cia de Teatro
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