Quem são? Onde vivem? Por que fazem isso?
 
Sabe aqueles filmes de ação que são sempre iguais? Responder essa questão nem é tão difícil assim. Afinal, você já assistiu algum filme do Liam Neeson e/ou do Steven Seagal, onde uma mulher, sua esposa, filha, amante, qualquer outra “indefesa”, é sequestrada ou está fugindo dos assassinos, tá na merda, precisando de um macho alfa para salvá-la. Dessa vez, o trabalho é de Mel Gibson em “Herança de Sangue”.
 
Sem dar as caras na telona desde “Mercenários 3”, em 2014, Mel (para os íntimos) encarna John Link, um ex-presidiário que vive num velho trailer, no meio do deserto da Califórnia, fazendo tatuagens. Longe das drogas licitas e ilícitas, há dois anos, ele recebe a ligação de sua filha “desaparecida” em desespero e marca de buscá-la. A partir daí, ele começa a descobrir no que a pequena Lydia (Erin Moriarty) se meteu e fará de tudo para proteger a filha da mira dos perigosos traficantes.
 
Tem como ser mais clichê? Você se pergunta. Talvez sim, talvez não. Depende agora de como passa a enxergar a trajetória dos personagens dirigida pelo francês Jean-François Richet, que não tem, em sua filmografia, nenhum filme que vale a pena ser citado. Em seu trabalho, nada de novo, nada de drama familiar, nada de explosões e assim vai. Das quase zero cenas de ação, a única rápida e próxima de ser interessante é a perseguição de moto. O resto dá para ver quase sempre em produções brasileiras.
 
O roteiro que começa sem pé, nem cabeça, vai se explicando aos poucos e você até compreende boa parte da história, mas são tantas pontas soltas deixadas pelos roteiristas, Peter Craig e Andrea Berloff, que você se questiona de onde saiu aquela profusão de informações desnecessárias, não esclarecidas. A situação piora um pouco mais quando, durante os créditos, descobre que o filme é baseado na obra original de Peter Craig, que você só deve saber quem é se viu “Jogos Vorazes – A Esperança: Part. 1 e 2”, onde ele assina o roteiro.
 
Se não existe ligação afetiva dos personagens, afinal o elenco é pra lá de meia boca, o mesmo acontece com a fotografia. Mexeram tanto na saturação e no contraste para amarelar e dar aquela sensação super quente no deserto, que o céu fica em vários momentos verde-água. Se houvesse uma ligação afetiva do diretor de fotografia, Robert Gantz, com o seu trabalho, ele se preocuparia com o que chamamos de verossimilhança, afinal, não estamos falando de uma ficção científica, nem um filme pós-apocalíptico.
 
Erin tem alguns momentos razoáveis em que poderia se destacar, mas não o faz. Mel começa como um “tiozão” até charmoso em sua caracterização, mas vira um maracujá seco sem barba, tão seco quanto uma das suas piores atuações. No elenco secundário não há destaque, pois as passagens são tão rápidas que os personagens que serviriam para agregar a narrativa se tornam uma figuração na trama.
 
Mas como, de uma coisa ruim, sempre podemos tirar algo bom, as palmas vão para a arte e a cenografia. Assistindo ao filme você pode até pensar que é muito fácil produzir cenários decadentes, estranhos, “abandonados”, mas eles são extremamente difíceis e a forma como foram realizados e exibidos na tela fazem uma junção bem interessante, que dialoga com a proposta em meio ao marasmo da obra.
 
“Herança de Sangue” é o tipo de filme que você não quer herdar e se comparar com longas feitos com Seagal e Neeson, você vai preferir fazer uma maratona com a filmografia deles. Quem são as mentes por trás dessa produção? Algumas você já sabe. Onde vivem? É só jogar no Google. Agora, por que fazem isso? Essa pergunta terá que ficar aberta.

Crítica: Herança de Sangue
3Valor Total
Votação do Leitor 2 Votos
3.0