Um filme muito tocante e necessário 

A crítica a seguir contém alguns spoilers necessários para o debate.

“Hope” é um filme coreano dirigido por Lee Joon-ik e estrelado pelos atores Sol Kyung-gu, Uhm Ji-won e Lee Re. O drama começa retratando uma família aparentemente comum. In So-won é uma menina de oito anos que vive com a mãe, que trabalhava em uma loja e era muito atarefada, e com o pai, montador de peças de carro, um homem  um pouco ausente. Em uma certa manhã chuvosa, In So-won (para quem assistir no Netflix, o nome da menina nas legendas é “Hope”), se atrasa para ir à escola e perde a companhia dos amigos para caminharem juntos até o destino. A menina acaba indo sozinha e no caminho esbarra com um homem que lhe pede o guarda-chuva emprestado. In So-won é estuprada e quase morta por esse homem, mas consegue ligar para a polícia e é resgatada.

Chegando no hospital, os pais são alertados e chegam ao local em completo desespero. A criança fica muito machucada e os médicos fazem um processo chamado colostomia, que consiste na exteriorização do intestino grosso. No entanto a sequela física é só uma das consequências que esse ato monstruoso acarretou na vida dela e de toda a família.

O filme busca explorar exatamente o momento posterior ao estupro. Inicialmente, o desespero e a confusão dos pais em tentar fazer as escolhas certas para a filha e a resistência em aceitar uma ajuda psicológica profissional impossibilitam a melhora da menina. Além disso, por um incidente, o pai acaba se tornando uma figura ameaçadora na visão de In So-won. A perda da confiança com seu próprio pai é um dos temas mais tocantes do filme, pois ele sabe que ela está passando por um momento difícil e não quer vê-la traumatizada.

A mãe resolve aceitar a ajuda de uma terapeuta e, aos poucos, a menina vai tendo nítidas melhoras, mas a dificuldade em se relacionar com o pai ainda permanece. Ele, muito devotado a filha, encontra uma forma lúdica de se comunicar com ela. Definitivamente, a relação entre pai e filha é o que mais brilha no longa e os diálogos entre eles são construídos e interpretados de forma encantadora. A dedicação que os pais tem para que ela se sinta melhor e a dificuldade em encontrar essas soluções transformam o filme em um recado simples, mas transformador.

Alguns assuntos importantes são levantados e nos fazem refletir de como vivemos em uma sociedade machista e injusta. Uma das cenas que exemplifica isso, acontece quando a mãe demonstra o medo da filha ficar “mal-falada”. Outra, é quando a menina esta conversando com a terapeuta e diz “as pessoas estão me culpando pelo o que aconteceu, mas ninguém elogiou por eu dividir” se referindo ao guarda-chuva emprestado no dia da agressão. “Hope” é importante por tratar das falhas da justiça e da questão da culpabilização da vítima,  algo que precisa ser muito discutido  ainda, e o filme retrata esse tema de uma forma muito sensível.

Com uma direção que mescla os momentos felizes com os momentos tristes, a obra obtém sucesso na construção da história e no recado que precisa transmitir. O desenvolvimento das personagens é trabalhado de forma brilhante, com destaque para o ator que interpreta o pai,  Sol Kyung-gu, e para a pequena atriz  Lee Re, que deu vida a In So-won.

“Hope” é baseado em uma história real. O caso Na-young aconteceu em 2008, na Coreia, quando uma menina de oito anos foi estuprada por um homem de 57 em um banheiro público. A corte sentenciou o homem com somente 12 anos de prisão, o que causou desprezo em toda a população devido a brutalidade do crime.

Crítica: Hope
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