Com roupagem desconstruída, linguagem popular e um “que”de drama doméstico, a “Cia Ciclus” de teatro traz à tona um tema que está bastante vigente, mas que infelizmente não tem tanto apelo público quanto deveria. As dores de ser mulher na sociedade atual são retratadas, não como plano de fundo, mas como denúncia. Como gritos daquelas que precisam ser ouvidas, mas tristemente quase nunca o são.

Sem casa fixa e física, com todos os componentes que integram uma estrutura mínima como palco, cadeiras, cortinas (…) e constituintes que são elementos básicos alicerçadores para se apresentar uma peça, a Ciclus levou a palavra “desconstrução” ao pé da letra e trouxe junto a obra “Inimigo Oculto”, uma outra maneira de se fazer teatro.

Como se trata de uma peça itinerante, o cenário pode e vai variar de acordo com o bairro e o local que ela está sendo encenada. No entanto, alguns elementos servirão de cerne e ponto de partida para que o expectador se sinta dentro daqueles contextos. Sim! Contextos… afinal, não falamos aqui de uma história linear que abriga início, meio e fim. Na verdade, o espetáculo atribui-se de pequenos esquetes para conseguir abranger o maior número de histórias possíveis.

O cenário, o primeiro, na verdade é a sala. Com sofá, televisão, cortina na janela, estante com livros e até porta-retratos da família. Tudo encaixado de maneira que nos fizesse pensar que aquelas pessoas realmente vivessem ali há muito tempo. O ambiente é pequeno, nos dando uma sensação de claustrofobia. O que pode ser também proposital e usado como aparte na obra.

Da sala – ainda no contexto do cenário – somos encaminhados ao banheiro. Lá dentro; água caindo, vaso sanitário, pia, shampoo, sabonete e creme… tudo que tem no meu, no seu, nos nossos banheiros. Assistimos tudo da porta. Nos apertando onde dava. Uns em pé, outros abaixados, o importante era não deixar passar nada no monólogo que acontecia ali dentro.

E do banheiro passamos para o quarto. E lá ficamos a maior parte do tempo. O lugar era mais amplo, e conseguíamos ficar fisicamente mais confortáveis. Mas confortável, definitivamente não era o sentimento do momento. O cenário era o de um quarto comum. Uma cama, fotos, um guarda-roupa, abajures – que faziam toda a ambientação de luz – lençóis vermelhos, janela e àqueles antigos pisos de tacos. O fato é que a cenografia de Joana Couto sobre explorar cada cantinho daquele apartamento. E fez também público e atores se aproximarem ao ponto de se tocarem, caso quisessem.

A trilha sonora era original. E contava com o criador e a criatura. João Vinícius Pereira e seu violão não só nos embalavam com uma música melancólica e triste – que cabia a cada situação descrita – como faziam também a vez do abrir e fechar das cortinas imaginarias. E era assim que sabíamos que uma nova e angustiante situação nos seria apresentada.

A iluminação de Ana Luiza Molinari de Simoni e João Gioia fez com que os ambientes ora fossem vivos e mostrassem tudo, ora fossem opressores. Mas não havia nada de espetacular como spots de luz, luzes coloridas, leds… tudo era simples e bem feito. A real sensação que estávamos mesmo na casa de alguém e não em um teatro, era o simples fato do acender e diminuir das luzes.

O enredo conta com pequenos esquetes, como já havíamos dito. Os personagens não têm nomes. São pessoas comuns alcunhadas de “mãe”, “pai”, “tio”, “namorado”…  A cada nota tocada do violão, os atores mudavam e uma nova situação era apresentada. E assim, foi-se construindo uma cumplicidade entre aquelas mulheres/atrizes – que imploravam por socorro – e o público que estava disposto a socorrer a qualquer momento.

A trama gira em torno da dificuldade de ser mulher. Dificuldade essa que vai desde o machismo sendo passado de pai para filho, como a negligencia marido versus esposa. E ainda que esses temas já sejam bastantes incômodos, a peça vai além. Temos o caso de pedofilia, estupro, coação, chantagem, violência doméstica, sexismo; e essas palavras “leves” não chegam nem perto de tudo que vimos e sentimos aquela noite. Mas aqui até tentamos dar uma prévia dessa sinestesia. 

A direção de Andrea Bordadagua e Rodrigo França explorou muito bem essa violência, sem que os esquetes ficassem escrachados. Foi tudo feito com uma delicadeza sem limites. As cenas de nudez, do estupro… tudo foi friamente calculado para que o assunto fosse tratado com a seriedade que o compete e não mais como um teatro apelativo que vemos tanto por aí.

No elenco tínhamos: Gi Durães, Helder Sátiro, Tyago Caetano, Marcela Fróes, Luciano Segne, Neliana Apem, Vanessa Ferreira, Bruno Urco, Mery Delmond, Andreyuri, Bruno Guimarães, Marcio Panno e Helder Sátiro. Cada um com a sua particularidade, cada um com o seu drama… todos eles nos emocionando. E como um figurino simples e de dia a dia, os atores incorporavam aquelas dores (sendo opressores ou oprimidos). Dentro daquele apartamento víamos pessoas comuns.

“Inimigo Oculto” não pode ser descrita mais além de tudo que já foi exposto acima. Ela tem que ser sentida… explorada em seu máximo contexto. Então, se você quiser se emocionar com os dramas da vida real, ainda falta uma semana para o final da temporada. Além disso, não deixe de ficar de olho no que a Cia Ciclus anda aprontando por aí.

Crítica: Inimigo Oculto
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