Um aterrorizante conto sobre medos e angustias

Stephen King é um dos autores de terror mais populares do mundo. Dezenas de suas obras já foram adaptadas para o cinema, tv e até teatro. Contudo, nem todas as produções conseguiram chegar a altura da imaginação do aclamado escritor, especializado em temas sobrenaturais e psicológicos.

Alguns filmes, como o recente “A Torre Negra”, mesmo com bons orçamentos ainda conseguem deturbar a obra de King, apresentando conteúdo fraco e desestimulante. Todavia, durante os anos tivemos adaptações interessantes que fizeram o público prestar atenção com gosto. É o caso dos clássicos “O iluminado”, “Carrie – A estranha”, os dramas “Um sonho de liberdade”, “A espera de um milagre” e até mesmo produções feitas diretamente para tv, como o telefilme “IT – Uma obra prima do medo” produzida em 1990.

A história, que mostrava um estranho palhaço sequestrando e matando crianças na minúscula cidade de Derry, no Maine, tornou-se ainda mais icônica quando transportada para às telonas. Mas, ainda faltava algo para deixa-la tão poderosa quanto o original escrito por Stephen King. E eis que 27 anos depois uma nova adaptação vem à tona, trazendo de volta “Pennywise” – o palhaço dançarino que não divertiu, mas aterrizou muita gente.

A produção da vez, realizada por nomes como Richard Brener e Toby Emmerich, revive a criatura chamada de “A Coisa” adotando uma pegada diferente do terror comum. O estilo aventuresco utilizado, aqui ganha ainda mais forma com o advento dos efeitos visuais muito mais tecnológicos nos dias atuais. O exagero utilizado em algumas cenas de transformações pode até não agradar todo mundo, mas abraça com criatividade o inventivo mundo do escritor.

O roteiro, escrito por Cary Fukunaga (responsável pela primeira temporada de “True Detective”), Gary Dauberman – que esteve no recente e bom “Annabelle 2 – A criação”, e o novato Chase Palmer, desconstrói o terror com uma narrativa mais dramática, que se equilibra entre entre o medo, a angústia e alívios cômicos – esses importantes para um respiro ou outro. Mas trata-se de um respiro pequeno, porém necessário, para entrarmos ainda mais no clima da trama. Tanto o desenvolvimento das personagens quanto os diálogos, ajudam bastante para esse tênue caminhar entre gêneros. E o trabalho dos roteiristas em aprofundar assuntos importantes como bullying, pedofilia, fobias e problemas familiares, bem como as descobertas da adolescência, deixa o filme ainda mais sensível.

A direção de Andy Muschietti é perfeita para o filme e se encaixa com maestria no roteiro. O diretor, que já foi responsável por outra boa produção – o suspense “MaMa” – não se deixa levar pelos sustos fáceis, causados pelo mal uso do jump scare. Ao contrário disso, embarca em uma aventura repleta de modificações a cada cena. Seus enquadramentos situam muito bem o espectador no momento, na época em que o filme se passa (isso quando não joga o público direto para dentro da obra, optando por intrigantes perspectivas). Ao mesmo tempo, sua a escolha por ângulos que insistem causar certos nervosismos, e movimentos de câmera muito bem trabalhados por uma edição afinada, desafiam o espectador entre o que poderia ou não ser real dentro do filme.

Algo que funciona ainda melhor com a fotografia espetacular de Chung-hoon Chung (“Oldboy” e “A Criada”). Chung, ressuscita de forma correta uma atmosfera muito utilizada em produções adolescentes da década de 80 (Como “Os Gonnies” e “Os Garotos Perdidos”). Com quadros entrecortados por suaves feixes de luz e um sensacional trabalho de contraposição, somos levados a adentrar ainda mais na história – vivenciando tudo o que acontece. Os tons pastéis utilizados na paleta, envelhecem a fotografia que ora ou outra é pulsada por um vermelho vivo denunciando que algo está para acontecer. Nesse ponto, temos o excepcional trabalho de todo o departamento de arte com seus cenários desenvolvidos de forma meticulosa e um figurino amplamente funcional.

Para tudo ficar ainda melhor temos uma ótima seleção de elenco focada, claro, nas crianças – uma vez que o filme abrange mais a primeira aparição do palhaço, em relação ao livro. Embora trazer o ator Finn Wolfhard tenha sido uma jogada de marketing funcional, devido sua participação na série “Stranger Things“, o mesmo cumpre o prometido e se destaca em inúmeras cenas. Entretanto, o filme não é só dele e o restante do elenco infantil (Jeremy Ray Taylor, Jaeden Lieberher, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff e Sophia Lillis) também joga a altura. Principalmente Sophia Lellis, que promete ser uma grande revelação para o futuro do cinema americano. Contudo, o destaque mesmo fica por conta de uma assombrosa atuação de Bill Skarsgard. O ator nos presenteia com uma construção aterradora, porém mais realista. Na qual podemos perceber em detalhes toda sua psicopatia.

“IT – A Coisa” não é só um bom filme, é um verdadeiro deleite em meio a uma tempestade de esquecíveis obras do gênero. E o melhor de tudo, sem querer dar spoilers, ele consegue dosar a história para nos oferecer muito mais no futuro. Com uma pegada que recupera o estilo usado pelo o já citado “Stanger Things” e diversos outros filmes do passado, a história te convida à flutuar no bizarro imaginário do mestre do terror, e faz isso muito bem.

Crítica: IT- A Coisa
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Produção8
Roteiro8
Direção8
Fotografia8
Design de produção8
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