Há oitenta e quatro anos, quando um gorila gigante feito em Stop Motion subiu ao alto do “Empire State Building”, o mundo conhecia o poderoso King Kong. O filme de 1933 virou um clássico cult e foi seguido de inúmeros remakes, que atualizaram a história de Kong e, evidentemente, trouxeram avanços em seu aspecto visual.

O mais atual dos filmes é esse “Kong: A Ilha da Caveira”. Trata-se de um prequel da franquia King Kong, mostrando a origem da história do rei dos símios. Nele, no final da guerra do Vietnã, uma tropa do exército dos EUA, junto com alguns cientistas e exploradores adentram as profundezas da traiçoeira e primitiva ilha. Não demora muito para eles se depararem com a grandiosidade e a fúria de Kong.

Um dos pôsteres do filme faz referência à “Apocalypse Now”, mostrando Kong perseguido por helicópteros, com o sol ao fundo. Essa referência está presente no longa e é de fato apropriada, porque, ao seu jeito, “Kong: A Ilha da Caveira” fala sobre as consequências da guerra e também sobre a selvageria humana; claro, deixando de lado a profundidade filosófica do filme de Coppola e se apoiando em efeitos especiais de primeira linha, aliados com aquele humor rasteiro que aprendemos a gostar nos blockbusters de verão.

Como todo fã de King Kong sabe, ele não é o vilão da história, esse papel cabe aos soldados norte-americanos, que, com suas metralhadoras e bombas, invadem o território protegido por Kong, e também aos violentos lagartos com feições de caveira. Mas, os lagartos estão em uma luta natural com Kong pela dominação da ilha, já os soldados são aqueles que começam a destruição sem motivo e sofrem as consequências desse ato.

A selvageria dos humanos é posta em confronto com a da natureza, e notamos que a que parte do homem é um tipo de selvageria que segue propósitos obscuros, sem razões reais para existirem. Durante todo o filme é normal torcemos pelos animais da floresta contra os soldados devastadores, principalmente contra o odioso personagem vivido por Samuel L. Jackson, que “possui a bandeira dos EUA tatuada no peito” e passa por cima de tudo para cumprir a missão dada por seus superiores. Os únicos que parecem entender o contexto da situação são o ex-capitão britânico James Conrad (Tom Hiddleston) e a fotógrafa anti guerra Mason Weaver (Brie Larson), os dois, obviamente, fartos de todos os conflitos que já presenciaram.

O derrotismo sentido pelos EUA após a retirada do Vietnã e as perguntas sobre o motivo do envolvimento em guerras que o país constantemente participa são retratados pelos soldados que vão a uma missão desconhecida, em um ambiente inóspito, onde o inimigo possui ampla vantagem. A fotografia super colorida e os vários planos gerais evidenciam o belo ambiente da ilha, com suas vastas áreas, trazendo grandes similaridades com os clássicos filmes que retratam a guerra do Vietnã. Mas, mesmo com a abundância de espaço, os personagens parecem sempre aprisionados por algo: ora em meio a uma surpreendente e mortal floresta de bambus, ora em rios lamacentos, rodeados de insetos, ou mesmo em uma tribo cercada por uma gigantesca cerca. O IMAX ajuda na imersão do espectador, trazendo desconforto em todos os momentos.

Infelizmente o filme não alcança maiores objetivos pela falta de originalidade de seu roteiro, que faz uma mistura de “Jurassic Park” com “Uncharted” (aliás, a caracterização de Tom Hiddleston lembra muito Nathan Drake) e pelas inúmeras cenas com aquela sensação de déjà-vu. Não que não haja a tentativa de quebrar clichês e derrubar arquétipos, como no momento no qual há a repetição da batida sequência: Os mocinhos correm desesperadamente do mostro enquanto um deles, já condenado pela morte ou mesmo por puro heroísmo, fica para traz, se arma com granadas ou outro tipo de explosivo para matar o monstro e sacrificar a sua vida em prol do restante. Em “Kong: A Ilha da Caveira”, há uma cena dessas, mas com um final totalmente inesperado. A edição sofre com algumas escolhas de cortes pouco fluidos, levando personagens de um lado ao outro instantaneamente, o que passa a impressão de pressa por parte do diretor e dos produtores.

O relacionamento de Kong com a bela da história também é construído aqui, mas de forma bem sutil, trazendo mais um sentimento de cumplicidade do que de amor, como uma questão ecológica. É interessante notar que é na fotógrafa de Brie Larson que o roteiro apoia quase toda a sua racionalidade (deixando o resto para o personagem de Tom Hiddleston), já que ela é mostrada apenas com sua câmera em mão, deixando as armas para a maioria masculina, e é também ela que sempre se opões às ordens do lunático personagem de Samuel L. Jackson.

O filme levanta questões políticas e éticas com a leveza de um filme comercial, acerta na ambientação e nas maravilhosas sequências de efeitos especiais, no entanto, peca pelas escolhas obvias e pela edição que confunde em alguns momentos, fazendo “Kong: A Ilha da Caveira” uma boa escolha para quem procura um bom filme de aventura que faça pensar, mesmo que pensar só um pouquinho.

Nota: É muito importante aguardar até o final dos créditos, pois há uma importante sequência que define os rumos de King Kong no cinema daqui para frente.

 

Crítica: Kong - A Ilha da Caveira
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