Crítica: La La Land – Cantando Estações

Quem acompanha meu trabalho na Woo! Magazine sabe que tento ser o máximo imparcial possível. Não sou do tipo que fala mal/bem de uma produção sem explicitar os argumentos que me levaram a tal pensamento. Procuro sempre não deixar meus sentimentos pessoais abafarem meu julgamento, por isso, analiso detalhe por detalhe, fugindo de um padrão convencional, de forma que eu possa justificar claramente o raciocínio proposto. Todavia, confesso que isso não foi possível com o filme que escrevo a seguir. Não só minhas emoções pessoais ficaram a flor da pele, como o meu lado profissional também foi atingido. Sendo assim, segue abaixo um texto sincero da minha visão como crítico, artista e público sobre o grande vencedor do Globo de Ouro 2017.


Uma Ode à imperfeição

Enquanto uns dormem, outros sonham acordado, e, em meio a isso tudo, a vida continua sua rota sem muito barulho, mas sempre lembrando que todos precisamos chegar à algum lugar. Entre um tapa e outro na cara, aprendemos a dançar conforme a música, não importa qual seja o ritmo, para somente depois alcançarmos nossos objetivos e, assim, revolucionarmos a nossa história. Contudo, é necessário compreendermos que o verdadeiro sonho não é realizado só por acreditarmos nele, essa é uma utopia do amanhã (aquela em que sempre estaremos começando no dia seguinte), mas sim pela força incumbida a nossa determinação, ou seja, não chegaremos à lugar nenhum se não ousarmos o primeiro passo.

Passando por uma ótima fase na temporada de premiações, tendo angariado nada menos que 7 Globos de Ouro, e sendo um dos grandes nomes para o Oscar desse ano, recebendo 14 indicações, “La La Land: Cantando Estações” é um bom exemplo de audácia. Se apoiando em um enredo que já foi utilizado inúmeras vezes, com algumas diferenças, claro, o filme nos apresenta uma garota do interior que sonha em ser atriz. Para isso ela larga sua a cidade natal, rumo a disputada Hollywood, em busca de suas pretenções. Ao chegar no local, acaba tendo que dividir o adorado sonho com o trabalho de atendente em um café situado dentro de um grande estúdio. Entre alguns acontecimentos da vida ela se depara com um jovem pianista de jazz a moda antiga, que busca incansavelmente a ambição de abrir o seu próprio clube. O florecer da paixão entre os dois é imediato, despertando faíscas e curiosidades que os levam a se envolver cada vez mais criando um romance singelo e melancólico.

A grandiosa cena de abertura, muito bem realizada através de um plano sequência de tirar o fôlego, eleva o espectador à alturas inimagináveis (aliás, quase o filme todo faz isso), principalmente, se compararmos esse a muito dos outros trabalhos feitos ultimamente, nesse caso, veremos uma diferença absurda de qualidade. Sem querer desmerecer, claro, mas filmes como “La La Land – Cantando Estações” (me recuso a repetir nessa crítica esse subtítulo nefasto) raramente aparecem no atual mercado cinematográfico.

A belíssima produção traz nomes como Jeffrey Harlacker, Molly Smith e John Legend, entre uma dezena de outros profissionais conhecidos no meio e responsáveis por diversos outros projetos. Porém, nenhum deles foi tão aclamado como esse vem sendo pela crítica quanto pelo público. Os produtores acertaram a mão em confiar na visão do roteirista e diretor, permitindo-o realizar um dos mais sensíveis e intensos produtos dos últimos anos. Sem o apoio exagerado de efeitos visuais, construíram uma obra completa, instigante e tão sublime quanto diversos outros que marcaram seu tempo, como: “Os Guarda-Chuvas do amor”, “Les demoiselles de Rochefort”, “Cantando na Chuva”, “West Side Story” e os mais recentes “Meia noite em Paris” e “O Artista”.Como dizia o velho guerreiro: “Nada se cria, tudo se copia”! – E Damien Chazelle (“Whiplash – Em Busca da Perfeição”) soube fazer isso muito bem, ao se inspirar em grandes clássicos para realizar uma colagem virtuosa para o seu novo filme. Em uma Hollywood defasada por projetos duvidosos, sem conteúdos, clichês reincidentes e/ou por adaptações baratas, o diretor consegue se destacar ao elaborar um roteiro muito bem escrito moldado à partir de obras que marcaram uma época e ajudaram a revolucionar a indústria do cinema. Sua atitude não só comprova suas capacidades como roteirista, como deixa claro sua tentativa de resgatar o Jazz e o cinema musical, duas artes que sofreram com o tempo e, devido aos tropeços da cultura e interesses do público, estão perdendo cada vez mais força e precisam ser recuperadas com certa urgência.

A direção, um dos pontos altos do filme, cabe também a Chazelle que arquiteta uma audaciosa decupagem para algo que muitos fariam de forma simples. Através de formidáveis enquadramentos, com movimentos de câmera muitas vezes arriscados e ângulos arrebatadores, o diretor empolga o público e mexe com o emocional do mesmo por diversas vezes. Sua grande sacada foi saber utilizar o plano sequência a seu favor, idealizando cenas que foram realmente excepcionais, e ter conseguido trabalhar junto com a edição, criando uma montagem ritmada, que se equilibra perfeitamente entre a alegria e a tristeza.

Linus Sandgren (“Trapaça” e “Joy – O nome do sucesso”) é o responsável por criar uma estonteante fotografia que nos conduz a um passeio até uma bucólica fantasia e depois nos joga, friamente, em uma realidade pura e simples. O trabalho de Sandgren dialóga com destreza com os sentimentos vividos pelas personagens principais, mostrando claramente a mudança atmosférica do ambiente no decorrer da trama. Com uma paleta de cores gritantes, contrastando com backlights perfeitos, capazes de desenhar até os passos das coreografias, o diretor de fotografia nos proporciona uma verdadeira pintura digna de grandes mestres.

Todo o design de produção do filme foi essencial para transformá-lo em algo ainda maior, podendo dizer que talvez aqui esteja um dos grandes armamentos de toda realização. Com muita vivacidade, a impecável direção de arte de Austin Gorg (“Demônio de neon” e “Ela”) se impõe com características de felicidade, atraindo o público que se identifica facilmente com a vida e os cenários frequentados. Já o maravilhoso figurino desenvolvido por Mary Zophres, profissional por trás de “Inside Llewyn Davis”, “Interstellar” e “Hail, Caesar!”, é de deixar qualquer um de queixo caído. Todo trabalhado no estilo retrô, a ideia obedece com esmero a funcional paleta do filme e se diverte com a atemporalidade, proporcionando um visual ainda mais ostensivo sem perder o lado despojado que o filme necessita. É fascinante ver o casamento das cores se destacando de forma pontuada em uma Los Angeles iluminada, e o que antes era desusado tornar a contemporaneidade tão deslumbrante.Mesmo contando com um elenco monumental, que mistura atores, bailarinos e músicos, o filme se apoia mesmo nos dois principais para segurar toda projeção, e eles conseguem o feito sem muita dificuldade aparente. Ryan Gosling nos revela uma atuação poderosa como “Sebastian”, um pianista que busca a todo custo manter acesa a chama do jazz. Com uma construção de personagem minimalista, desenvolvida com cautela através de uma expressividade ímpar, o ator nos leva a acreditar em seu papel e viver consigo suas dúvidas mais profundas, felicidade repentina e ressentimentos. Emma Stone é só paixão na pele de “Mia”, poucas são as atrizes tão cativantes como ela. Stone dá um verdadeiro show de interpretação, jogando na mesma altura de seu parceiro de cena, e prova de uma vez por todas que é uma das melhores atrizes de sua geração, quiçá a melhor. – Entretanto, nem tudo são flores no jogo de cena dos dois. Embora ambos estejam maravilhosos em suas atuações, e consigam desenvolver bem o canto, é na dança que percebemos as pequenas e quase imperceptíveis falhas agarradas a falta de segurança dos atores enquanto desenvolvem a coreografia que lhes foi passada. A frequente espiadela para chão, como se estivessem contando o ritmo ou assegurando os passos, é nítida em diversos momentos e um dos fracos de todo aprendiz da dança. Tal atitude é mais vista em Ryan, porém Emma também o faz repetidas vezes. Atitude essa que não víamos, sem querer comparar, em Fred Astaire, Ginger Rogers e Gene Kelly quando esses aplicavam seus inconfundíveis passos de dança. E é nesse momento do filme que muitos irão se perguntar, qual o motivo desses defeitos em um número que poderia ser tão bonito?!

A coreografia desenvolvida por Mandy Moore pode até deixar um pouco a desejar, em um ponto de vista mais ampliado, uma vez que nos é apresentado algo mais simplório, sem tantos adornos e/ou as alegorias que estamos tanto acostumados. Se analisarmos mais a fundo a necessidade que o roteiro tem em desconstruir a perfeição e o Glamour, entenderemos melhor o pensamento do diretor. Nesse momento, temos uma quebra de ideologias e é aí que precisamos abraçar de bom grado os defeitos impostos pela direção no decorrer da realização. É a quebra de certos paradigmas hollywoodianos, na tentativa de aproximar devaneios da realidade, colocando o normal em foco.

A trilha sonora, apoiada no bom e velho jazz, traz em sua grande parte a delicadeza do piano, criando referências a “Sebastian”, nosso pianista tradicionalista. Mas, no desenvolver do contexto, temos uma significativa quebra de ritmo, e a partir daí uma reviravolta impactante, momento no qual a produção ganha nova tonalidade com o auxílio do violino, cello e o arrepiante toque do trompete.

Em uma era perdida, em que as novas gerações se apoiam cada vez mais na tecnologia que abocanha descaradamente as funções do ser humano, na qual vemos nossa cultura (em nível mundial) escoar facilmente pelo ralo, sendo substituída por um falso desenvolvimento intelectual, eis que surge uma obra nada eventual que tenta resgatar a qualidade do mercado, mostrando com inteligência que o talento pode até estar perdido em diferentes cantos, mas continua vivo.

Diferente do que muitos pensam, “La La Land” não é o tipo de musical do qual estamos acostumados. Seu conteúdo despenha mais para um drama musicado, repleto de metáforas sobre vida (principalmente para você que é artista) e canções que nos levam a refletir. Até a tal comédia que muitos enxergaram no filme tem uma explicação, que vai sendo revelada no decorrer da história que se declara muito bem estruturada ao brincar com a narrativa. Toda a harmonia existente no contexto é desconstruída com a ajuda dos dois atores, que possuem uma química tão singular que saímos da sala tristes pelo filme ter acabado, querendo voltar logo para na próxima sessão afim de podermos reviver todo o momento novamente. Com uma mistura de nostalgia e romance de primeira, o filme tem tudo para ser um dos grandes vencedores do Oscar 2017. O filme é uma daquelas obras inesquecíveis, capaz de fazer você se entregar a vida e a alguns de seus momentos únicos que, antes, só podiam ser revividos pelo cinema.

Crítica: La La Land - Cantando Estações
9.5Pontuação geral
Produção9.5
Roteiro9.3
Direção9.8
Fotografia9.5
Arte e Figurino9.4
Edição9.3
Elenco9.4
Votação do leitor 3 Votos
8.0