A rivalidade com os Hermanos

Quem nunca falou em ‘portunhol’ que atire a primeira pedra. Numa relação de amor e ódio com nossos hermanos, por conta do futebol, do doce de leite, das mulheres e otras cositas más, a rivalidade entre Brasil e Argentina ganharam as telas de uma maneira divertida. Não é “A Vingança”, em português, nem “La Venganza”, em espanhol, mas estamos falando de “La Vingança”, no bom e velho portunhol. Um road movie com muito humor, sobre o tardio amadurecimento masculino.

Caco (Felipe Rocha) e Vadão (Daniel Furlan) são dois amigos de anos, na casa dos 30, que trabalham juntos como dublês. Caco tem um longo e acomodado relacionamento com Julia (Leandra Leal) e Vadão é um eterno solteirão que se diz pegador. Quando Caco resolve pedir Júlia em casamento ele acaba encontrando-a transando com o seu patrão, o chef argentino Facundo (Adrián Navarro). Após o ocorrido e o término iminente, Júlia passa a ter uma relação com Facundo e Caco fica depressivo. Em meio a uma conversa e muitas bebidas ele e Vadão partem à Argentina no Jorge, um Opala 72 amarelo, em busca de uma particular vingança: ‘pegar’ todas as argentinas que conseguirem.

A ideia de Jiddu Pinheiro foi escrita por Pedro Aguilera e Thiago Dottori, com colaboração de Fernando Fraiha e Josefina Trotta, e por fim roteirizado pelo próprio Jiddu Pinheiro com Felipe Sant’Angelo. Sem se preocupar em aprofundar nas construções, nos é entregue somente o necessário sobre os personagens que vivenciam a história. Do início ao fim, suas representações são bem claras e palpáveis, mas acabam se esgotando em seu humor que circunda as situações em que são envolvidos. Há algumas surpresas durante a narrativa que fazem com que sigam um bom desenvolvimento emocional. Seus clichês são agradáveis e seu final nos entrega o esperado, de uma maneira sucinta e interessante.

A direção compartilhada entre Jiddu Pinheiro e Fernando Fraiha, que encabeça a produção, mostra uma certa experiência e dinamismo. Não se pode afirmar que houve dúvidas de como queriam contar a história, mas algumas escolhas visuais não são tão bem encaixadas narrativamente.  O trabalho com o elenco é sem dúvidas um exemplar em excelência, entregando ao espectador dois ‘galãs’ utópicos e improváveis, desenvolvidos através da leveza e com algumas pontuações cômicas de bom tom.

Mas de nada adiantaria o bom trabalho da dupla sem a direção de fotografia de Gustavo Hadba e a montagem de Danilo Lemos. No primeiro departamento temos um visual intenso, de cores vivas, ainda que em cenas escuras, que contrastam com a inércia da trama de seu protagonista. Já no segundo podemos ressaltar o cuidado em lincar corretamente os cortes para que não houvesse um delay entre as transições. O ‘casamento’ entre eles, alinhado a direção, resulta em sequências bem feitas que não deixa o longa perder o ritmo.

Outro ponto bem trabalhado no filme é sua trilha sonora. Além de canções mais conhecidas, as vezes numa nova versão, como “Raindrops Keep Fallin’ On My Head” e “Besame Mucho“, o trabalho da trilha original de Plínio Profeta, também responsável pela trilha de “Um Homem Só” e “Divinas Divas“, fazem uma contextualização sonora que brinca com a narrativa e o público. Plínio usa o indie rock e o rock underground como base de suas composições, intercalando com referencias latinas como a salsa e o famoso tango argentino. Vale dizer que a canção “Brasil, decime qué se siente“, cantada pela torcida argentina na Copa do Mundo de 2014, também ganhou algumas divertidas versões, para ilustrar a rivalidade hermana.

Se tratando do elenco, Leandra Leal é o nome mais famoso, mas tem uma participação tão pequena que é um pouco difícil avaliar seu desempenho como atriz nessa produção. Errando ou acertando, seu tom está bom para a obra, ao contrário de seu parceiro de cena, Adrián Navarro, que segue uma caricatura canastra demais, até mesmo para um filme de comédia, e sem ‘tempero’ algum para um charmoso chef. A atriz argentina Ana Pauls e sua divertida versão de ‘Noiva Em Fuga’, sendo a Constanza, tem uma passagem sensual e cômica que dá o gatilho para uma discussão necessária entre os amigos. Já Aylin Prandi como a cantora Lupe traz uma graciosidade feminina, leve e bem executada, seguindo o propósito de sua sonhadora personagem.

A escolha de dois atores não – tão – famosos para encabeçar o elenco foi uma das melhores coisas que a produção poderia ter feito, embora isso possa vir a afastar o público. Felipe Rocha nos dá um Caco melancólico e frustrado na medida certa, e sem esforço algum consegue erguer seu personagem quando necessário. Já Daniel Furlan, esgota sua comicidade em poucos minutos de filme, porém, seu Vadão constitui uma interessante proposta do amadurecimento tardio e necessário. Isso faz com que seu personagem volte a ser humorado, porém, na media certa. Outro personagem tão importante e cômico quanto eles é o Jorge, mas só poderá compreender sua relevância vendo o filme.

“La Vingança” que está sendo um sucesso de bilheteria na Argentina, talvez não consiga o mesmo no Brasil. Embora não seja um primor, o longa surpreende por não te gerar expectativas e ainda sim conseguir cativa-lo com sua trama. Entre as muitas e facas comédias nacionais, esta é um exemplar que merece ser visto e reconhecido, afinal, de loser todo mundo tem um pouco. E com o perdão da piada/observação: Quem nunca foi corno(a) um dia será, é só aguardar.

Crítica: La Vingança
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