Crítica: Lady Bird – A Hora de Voar

Depois de ter batido o recorde de avaliações positivas no Rotten Tomatoes, todos os olhos se voltaram para Lady Bird”. A partir daí, foi difícil não ficar curioso: afinal, o que tem demais no primeiro filme de Greta Gerwig sozinha atrás das câmeras?

Para os que se apegam às expectativas, é importante avisar que não muito. “Lady Bird” é simples. Tão simples que em seu término pode parecer que assistimos a só mais um desses filmes sobre amadurecimento juvenil – os famosos coming of age. E é aí que mora seu mérito: simplicidade não é sinônimo de facilidade. Perspicaz, o novo trabalho da “rainha do mumblecore” é singelo, mas só alcança esse resultado através de uma construção mais sofisticada do que aparenta.

O centro desse projeto despretensioso é Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma adolescente no último ano do ensino médio que não aguenta a vida mediana que leva em Sacramento, no estado da Califórnia, sonha em fazer faculdade nas maiores universidades de Nova Iorque (“onde a cultura está”) e vive em conflito com a mãe (Laurie Metcalf). O ano é 2002, os Estados Unidos vivem o pós-trauma do 11 de setembro, Justin Timberlake lança seu primeiro álbum solo e os aparelhos celulares começam a ser uma realidade do cotidiano das pessoas.

Nesse contexto é que a garota terá que lidar com o fato de que sua família, em uma crise financeira que se agrava após o pai perder o emprego, não tem condições de bancar sua educação superior em instituições fora do estado, além de enfrentar questões que marcam a juventude como os primeiros interesses amorosos (com eles as primeiras experiências sexuais), o tédio da escola e o estremecimento nos laços de amizade. Entretanto, seu maior desafio é o relacionamento com sua progenitora que fica ainda mais inflamado a cada decisão tomada pela protagonista.  

Apostando nas desventuras de Lady Bird, inspiradas em sua própria adolescência, Gerwig consegue reunir na tela os ritos de passagem que atravessam a vida de qualquer pessoa e faz isso de forma singular. Munido de um texto ágil, que se equilibra de forma exemplar entre o bom-humor e a melancolia, o longa também escrito pela cineasta cativa. Com apenas uma frase ela consegue mudar com precisão – e naturalidade – o rumo de toda uma cena. Basta um pedido da mãe para que a filha não ligue o rádio para que um passeio agradável termine com a heroína se jogando para fora de um carro em movimento.

Tom imprevisível que conduz o filme e que se concretiza com a pluralidade das figuras fascinantes criadas pela diretora. A personagem título nos seduz com seu carisma, mas nos arrebata mesmo com sua natureza multidimensional: é irreverente, impulsiva, e ao mesmo tempo que confiante, vulnerável. Qualidade que fica ainda mais visível com o trabalho de composição de Saoirse Ronan, que com fluidez consegue convergir todas essas características em um único indivíduo. Sem precisar de palavras, apenas com o olhar, conseguimos perceber a mudança de estado de espírito de Lady Bird.

Mérito também do restante do elenco, afinado. Laurie Metcalf encarna com firmeza e doçura Marion, a mãe da adolescente, e Tracy Letts dá a seu pai uma aura de bondade que coexiste com sua melancolia. Até personagens com menos tempo de tela brilham graças à boa escolha de atores. Mesmo fazendo uma ponta, Timotheé Chalamet, jovem promessa no Oscar 2018 por “Me chame pelo seu nome”, injeta sardonismo na medida certa a um dos interesses amorosos da garota.

Na estética, o projeto também não deixa a desejar. Vibrante, “Lady Bird” tem as cores de um passado não tão distante. Já a direção de Greta Gerwig, que tem sido tema de discussão por ter sido excluída da nomeação do Globo de Ouro 2018 e agora também do Bafta, é íntima. Investindo no poder de planos subjetivos, vemos o mundo pelos olhos da protagonista. Seja a estranheza da figura inquisidora de Jesus Cristo na parede durante a missa, a correção à caneta de seu nome em uma lista de chamada ou as paisagens de Sacramento pela janela do carro.

Doce, “Lady Bird” não é um filme grandioso, mas que é capaz de provocar grandes repercussões com a sua pequenez. “Não são a mesma coisa? Amor e atenção?”, questiona uma das freiras do colégio católico onde estuda a heroína. No final das contas, são esses dois vetores que movem o novo trabalho da cineasta nascida na Califórnia: atenção (ou amor) aos detalhes de sua vida, mas que também vemos na nossa própria.

Crítica: Lady Bird - A Hora de Voar
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