Na Inglaterra rural do século XIX, Katherine (Florence Pugh) é o mais novo produto do fazendeiro Alexander Macbeth (Paul Hilton). E por que produto?! Bem, porque naquela época os casamentos arranjados faziam parte do cotidiano popularesco. Ela foi arrematada como uma mercadoria. E passou a viver em um casamento sem luxo, amor ou expectativas. E é a partir dessa premissa que chega às telonas, no dia 10 de agosto o filme “Lady Macbeth”.

Nem tudo que reluz é ouro. Não é porque Alexander tem uma fazenda e muitos negócios em outras estâncias, que Katherine leva uma vida confortável. Na verdade, confortável está fora do nosso vocabulário. Seja em relação ao filme, ou em relação ao que sentimos ao assisti-lo. O fato é que tudo parece estranhamente incomum no enredo.

Estereotipado até o limite que essa palavra pode abranger, “Lady Macbeth”, que tem seu título homônimo à obra de Nikolai Leskov, incorpora todos os elementos alegóricos que o século XIX traz. Casamentos arranjados, empregadas negras, uma sociedade patriarcal e machista, mulheres sem voz e medo.

O filme começa com a cena do casamento. Como uma súplica – não atendida – Katherine olha para os lados em busca de ajuda (ou não!). O close é apenas em seu rosto, o que nos leva a saber da existência de Alexander apenas algumas cenas depois, na noite de núpcias. Noite esta que é um fracasso. Porque como homem (macho, que manda na coisa toda), Alexander exige que a recém esposa tire toda a roupa, mas em nenhum momento a toca.

Ainda no enredo temos Anna (Naomi Ackie). Empregada negra (estereótipo!) que toma conta não só da casa, como da vida dos patrões. Anna tem um certo ar misterioso. Vive em cima do muro, pelos cantos… mais ouve do que fala. A chegada de Katherine na casa a deixa um pouco perturbada. E ela não sabe se obedece a Boris ou a nova patroa.

E para completar o time do “mal-me-quer”, temos o sogro Boris. Homem ranzinza e que deixa claro nas linhas (e entrelinhas) que Katherine está ali unicamente para dar um herdeiro (macho [porque essa é a palavra!]) na linhagem dos Macbeth. Boris arranjou o casamentou e comprou a moça junto com um pedaço de terra. Assim, seu papel mulher (parideira) seria executado com louvor.

O filme começa mesmo quando pai e filho precisam deixar a fazenda (cada um para um negócio diferente) e a moça se vê, pela primeira vez, tomando as rédeas da situação. Coisas como dormir até tarde, sair para respirar ao ar livre – que antes não poderia fazê-lo – tornam-se hábitos em sua vida. E nessas andanças é que ela conhece Sebastian (Cosmo Jarvis).

Sebastian é o mais novo empregado de seu marido, e ambos mantêm um caso tórrido de amor sob o olhar vigilante e futriqueiro de Anna (não que ela concorde, claro!). E assim, entre escondidos (e achados) eles vivem “felizes” sem se preocupar com o que as pessoas irão dizer. Isso até que Boris, o sogro, volta…

O filme é marcado por cenas fortes e um cenário frio. Anna tem naturalmente as mãos pesadas. E isso pode ser comprovado nas cenas em que ela penteia os cabelos da patroa, ou ao esfregar suas costas, ou ainda nos laços que dá nos espartilhos. Bem como, Katherine que está sempre com o mesmo vestido azul, mudando-o unicamente duas vezes ao longo de toda narrativa.

O cenário é bruxuleante, já que no século XIX não contávamos com advento da luz elétrica. Bem como optou-se para o uso de cores frias, ora voltadas para os tons pastéis, ora para os verdes-azulados. E como quase tudo se passava em uma fazenda, ainda tínhamos o verde dos gramados e os marrons dos pastos.

A direção de William Oldroyd foi pontual. As cenas não se estendiam para além do que propunham. E cada personagem – estereotipado ou não – trouxe em si uma carga além do comum; fazendo com que a obra deixasse sempre mais a dizer para o take seguinte. E assim Oldroyd construiu um enredo cheio de suspense, culpa, frieza e surpresas.

A grande questão da obra é: até onde você iria por amor? Quais são os limites entre a loucura e a razão? E a culpa; ela realmente corrói?

Crítica: Lady Macbeth
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