Não é novidade para ninguém que o Oscar adora um filme inspirado em histórias reais. Só na última década, de todos os títulos vencedores de melhor filme, metade conta casos que de fato aconteceram. Na premiação desse ano, não seria diferente: das nove produções que concorreram na categoria principal, três –“Até o Último Homem”, “Estrelas Além do Tempo” e “Lion – Uma Jornada Para Casa” – seguem essa premissa.

Entretanto, quem dera que dramatizar eventos que aconteceram na vida real fosse garantia de qualidade cinematográfica. Pois não é. Em seus mais de 100 anos de vida, o cinema já provou que não basta ter uma boa história nas mãos; é preciso saber o que fazer com ela. É o que, boa parte do tempo, consegue “Lion – Uma Jornada Para Casa”, filme dirigido pelo estreante Garth Davis, que brigou neste domingo (26) por seis estatuetas (melhor filme, ator e atriz coadjuvantes, roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora), mas acabou indo de mãos vazias para casa.

Baseada no livro “A Long Way Home”, escrito pelo empresário australiano-indiano Saroo Brierly, a trama gira em torno dos acontecimentos que se passaram na vida do autor. Partindo do ano de 1986, conhecemos o jovem Saroo (Sunny Pawar/Dev Patel), um garoto indiano que, ao se perder de seu irmão Guddu (Abhishek Bharate), acaba saindo de trem do subúrbio de Ganesh Talai, em Khandwa, e parando em Calcutá, a 1600 km de sua cidade natal. Acolhido em um abrigo após passar dois meses nas ruas, o menino é adotado por Sue (Nicole Kidman) e John Brierly (David Wenham), um casal australiano que cria a criança em seu país. Vivendo confortavelmente, ao atingir a vida adulta, o protagonista entra em conflito com suas origens e resolve ir em busca de sua família biológica que não vê há mais de 20 anos.

Conduzido com delicadeza por seu diretor, “Lion” mostra que é um filme sobre os caminhos que seguimos, tanto física quanto metaforicamente. Trabalhando com contrastes, Garth contrapõe a amplitude de planos muito abertos e nítidos, que exploram as trilhas nas paisagens da Índia e da Austrália, com planos fechados e de baixa profundidade de campo, evocando o caráter de introspecção do personagem principal, que desde a infância se vê diante de impasses.

Amparado pelo belo trabalho de fotografia de Greig Fraser, o longa impressiona ao trazer simultaneamente a beleza e a miséria do segundo país mais populoso do mundo, cuja lógica funciona oposta a da principal nação da Oceania. Oposição que ganha corpo na tela até na composição da escala cromática: tons terrosos e quentes para o primeiro país e azulados e frios para o segundo.

Na montagem, o filme é sensível e consegue criar associações imagéticas interessantes. As linhas na palma da mão de uma personagem remetem a uma planície na terra natal, a caminhada de Saroo adulto em uma ponte rima com a caminhada da mãe em um local similar, assim como em um momento em que ele mergulha na água, reforçando o estado de alucinação que o rapaz passar a desenvolver.Apesar de marcar pontos com sua estética, é no roteiro que a produção dá as suas derrapadas. Dedicando sua primeira metade a contar sobre a peregrinação do protagonista ainda criança pelas ruas de Calcutá até o momento de sua adoção, a segunda parte do filme parece não ter tempo o suficiente para desenvolver a campanha que Saroo encabeça atrás de seu passado. Enquanto, os primeiros 50 minutos narram apenas alguns meses da vida do personagem, os demais, de forma irregular, dão um salto de quatro anos em sua trajetória.

O resultado dessa escolha não é o dos mais acertados: correndo para contar a história do jovem indiano que quer resgatar suas origens, os outros conflitos que orbitam em torno dessa questão soam superficiais, se não dispensáveis. Nesse ínterim, personagens que deveriam ter algum papel dentro da narrativa saem apagados. Caracterizado apenas como um bom homem, John Brierly (Wenham) não acrescenta nada a narrativa, já Lucy (Rooney Mara), entra e sai da vida de Saroo com tanta rapidez com os saltos temporais que sua relevância também passa ser questionada.

Bem na pele da matriarca da família, Nicole Kidman consegue equilibrar suavidade e força. Entretanto, não sei o que pensar da cena em que Sue desabafa com Saroo e conta ter tido aos 12 anos “uma visão com um garoto de pele marrom”; de fato é um momento intenso, mas que parece ter sido matematicamente calculado no enredo para fazer a atriz veterana brilhar.

Contudo, um dos golpes de misericórdia que “Lion” dá é em seu final. Desviando-se de um caminho que até então não recorria ao melodrama, nem a manipulação emocional, a coisa muda de figura quando nos segundos restantes de projeção, o filme não só explica o porquê do título do filme – que já adianto que é bastante canastrão –, como também ao  seguir a tendência atual de cinebiografias, não se contenta em apresentar apenas fotos dos personagens na vida real, exibindo um vídeo cujo único objetivo é levar o espectador às lágrimas.

Entre acertos e tropeços, “Lion – Uma Jornada Para Casa” é eficiente em trazer às telas uma história verdadeira, tem certa sensibilidade em evocar a emoção mas, aos 48 minutos do segundo tempo, optar por recursos já ultrapassados, acaba esvaziando-se e caindo na artificialidade. Bom, mas mesmo pesando às vezes na mão, o filme pelo menos não cai na besteira de transformar pessoas reais em personagens pouco críveis e inverossímeis. Essa cortesia eu deixo para outros.

Crítica: Lion - Uma Jornada Para Casa
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