Crítica: A Louva a Deus


Apesar de ser uma série francesa e, consequentemente, o idioma causar certo desconforto para nossos ouvidos acostumados somente com a língua inglesa, ela merece a atenção dos fãs de suspense. Com uma linha de raciocínio original e que surpreende com a precisão de cada cena e pista, “A louva a deus”, disponível na Netflix, prende a atenção – e até o suspiro – do piloto ao sexto e último episódio da temporada fechada.

A plataforma, recentemente, tem aberto espaço para obras estrangeiras e não conectadas com os Estados Unidos, por exemplo, no caso de “Dark”, o Stranger Things da Alemanha e, agora, “La Mante”, como seria o título original da produção sendo retratada. Essa nova visibilidade tem o seu lado positivo, visto que, para os admiradores do mundo do entretenimento, é bom sair da zona de conforto do Tio Sam e expandir o conhecimento com novas culturas e formas de pensar.

A história contada nestas, aproximadamente, seis horas, é a de Jeanne Debber (Carole Bouquet), uma serial killer dos anos 90, que está presa há 25 anos por crimes horríveis, mas que, recentemente, tem tido seus assassinatos copiados por um imitador desconhecido. Dessa forma, seu filho Damien (Fred Testot), que trabalha como policial à paisana, será chamado para ser o chefe da investigação desse combo de homicídios relacionados com os anteriores. Jeanne, em meio a uma tentativa de se reaproximar do filho, oferece ajuda a polícia para descobrir a identidade do tal apreciador.

No caso de Damien, que havia seguido a vida e até se casado com Lucie (Manon Azem), a ideia, a princípio, não seria boa – visto que, para todos os conhecidos, ele contava que a mãe havia morrido em um acidente de avião. Sua vida, aparentemente, era normal, até o retorno de sua mãe.

Sendo assim, ao longo dos capítulos, o núcleo restrito de personagens vai criando suas histórias e cada um demonstrando sua devida importância. Apesar do caráter de alguns serem nebulosos, gradualmente, a narrativa vai se encarregando de demonstrar sua utilidade. Diferentemente das demais séries do gênero, esta não tenta confundir o telespectador, nem gera mil teorias em sua cabeça. Apenas vai guiando o “caminho das pedras” e, junto ao grupo de detetives, a verdade virá à tona. De fato, não tem como ter certeza do rosto por trás de todos os trabalhos sanguinários, visto que, como já mencionado, as respostas vão se destacando na mesma velocidade que tiramos um band-aid apertado.

A resolução não deixou a desejar em momento algum, porém, com toda certeza, o último episódio não acompanhou o ritmo dos cinco primeiros. A adrenalina gerada na obra por inteira foi diminuída conforme chegávamos no fim do túnel e, portanto, a expectativa de uma ovação ao final não aconteceu. Isto porque, além de que uma parte do desfecho tenha sido similar ao de uma novela das seis, em que o mal é punido e que o vilão ambíguo se redime, a característica do bandido já veio sendo a resposta em outras ocasiões.

Tanto em “Scream” (2015), com Pipper Shawn, quanto em “Pretty Little Liars”, com Cece Drake/Charlotte/Charles, a questão da psicopatia no transexual já havia sido trabalhada e, sinceramente, de forma mal desenvolvida. Nas duas tentativas acima, mais parecia uma forma de despistar o telespectador e até fazê-lo focar em um único gênero, para, no final, apenas reforçar a modernidade fornecida pelos criadores de ambas as produções. No caso da “La Mante”, mesmo que a ficção não tenha sido muito enrolada e já terem colocado a questão da mudança de sexo, foi um pouco decepcionante por nos minutos anteriores ter demonstrado ser impecavelmente original.

Ademais, mesmo com bastante sangue e pedaços de corpo expostas na maior parte das cenas em que mencionavam os crimes, o final seguiu um caminho mais violento, não correspondendo com a proposta inicial de que não mostraria a tortura. Inclusive, o motivo para que a matança de Jeanne iniciasse foi revelado – algo um tanto inesperado -, fazendo parte dessa nova linha de crueldade em um nível elevado.

A proposta da série, no total, foi bastante freudiana, no quesito de que os pesadelos são criados na infância e na relação entre pai e filha. Realmente, ela surpreende em 90% do conteúdo, não decepcionando com a conclusão, mas também não chegou no ponto esperado.

Crítica: A Louva a Deus
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