Foto: Stephany Lopez

Baseado em histórias e relatos reais é que nasce o espetáculo “Mães de UTI”. Terceiro espetáculo da Cia Cerne, que é sediada em São João de Meriti e é integrante da Rede Baixada em Cena, e que mais uma vez surpreende pela delicadeza com que tratam de uma questão tão séria e ao mesmo tempo pela força que existe nas denúncias feitas ali na nossa cara.

Depois de receber inúmeros prêmios pelo espetáculo “Ainda Aqui”, que retrata a história de uma família obrigada a conviver com dores e sacrifícios, reconstruindo afetos dia a dia logo após a tortura e morte do filho Maurício em tempos de ditadura militar, a companhia se lança mais uma vez sobre uma temática tão profunda quanto a anterior, mas mantém ainda um viés de denúncia através da arte.

A linguagem do espetáculo é teatro documental e se utiliza gravações, entrevistas, fotos e fatos reais de uma mãezinha de UTI, mas com uma roupagem cênica. A linguagem não te permite engendrar por caminhos ficcionais. A verdade esta ali exposta, nua e crua para que nos aproximemos dessa realidade, que as vezes nos parece tão distante da nossa, mas as vezes está bem mais perto do que imaginamos.

Vemos em cena atores, dando voz à cada um daqueles personagens da vida real. Apenas dois estão fisicamente em cena, mas uma infinidade de pessoas perpassam por essa história.

Com uma dramaturgia muito bem estruturada e escrita por Vinicius Baião, que também assina a direção do espetáculo, temos, através dos trechos desses relatos, a sensação de estar ali, ao lado daquelas mulheres em sofrimento e expectativa e também daquela criança em uma incubadora buscando ser mais forte que todos. Lutando pela vida. A realidade é dura até mesmo no sentido da legislação que não permite que o pai da criança também seja liberado para acompanhar mais de perto o bebê  após o nascimento. A licença paternidade é infinitamente inferior em comparação à maternidade e o espetáculo esfrega na nossa cara o quão duro e infeliz é isso para as mães, para os pais e principalmente para a criança que necessita da presença e afeto de ambos em todos os momentos. Alguns finais mais felizes, outros menos, levam o espectador a, de certa forma, se reconectar com a efemeridade de se estar vivo.

Os tempos do espetáculo nos conduzem à sensação de espera à que os pais e familiares ficam expostos, desconfortavelmente, a todo instante, sendo “perturbados” de tempos em tempos por trabalhadores da saúde que só lhes jogam informações médicas e saem. Não há empatia, na grande maioria das vezes. O que se esperar então de um plano de saúde onde se paga caro para receber um atendimento qualquer. Desamparo é a sensação que transborda para a plateia. Estamos sozinhos!

Conforme informado pelo coletivo, “Mães de UTI” é resultado de pesquisas feitas pelo grupo sobre prematuridade extrema (bebês nascidos antes dos 6 meses de gestação). O espetáculo aborda, na fronteira entre ficção e realidade, as dores, angústias e alegrias por que passam milhares de mulheres que, diariamente, vivem a experiência de fazer da UTI neonatal o seu lar, enquanto acompanham o desenvolvimento de seus filhos.

O elenco é formado por Leandro Fazolla, Higor Nery e Gabriela Estolano, atriz que protagoniza o espetáculo, vivendo, simultaneamente, a história de Fabiane Simão, umas das mães entrevistadas, e a si própria, quando tem a oportunidade de tecer comentários críticos sobre a realidade vivida por quem necessita das UTI`s neonatais brasileiras. Destaca-se a preparação corporal realizada por Marcio Vasconcellos e a vocal realizada por Umile Romano, que permitiu uma excelente performance física e vocal dos atores.

A cenografia, assinada pelo também ator do espetáculo, Leandro Fazolla é bastante simbólica e possibilita inúmeras mudanças cênicas inteligentes e bastante criativas. A iluminação assinada por Arthur Souza trabalha junto e em favor da cena potencializando cada instante.

Vale super a pena dar uma conferida na peça que segue em cartaz no Teatro Café Pequeno até dia 27 de Agosto sempre as 20 horas.

Critica: Mães de UTI
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