O Brasil não conhece seus artistas. Nem suas artes. Muitos menos suas lutas, histórias e contextos históricos. E isso fica muito claro com este documentário.

Maria Martins foi uma dessas artistas multifacetadas que era capaz de pôr arte em quase tudo. Via o mundo através de um olhar libertador e tinha dentro de si uma vontade de expor para as pessoas toda sua força, toda sua feminilidade, tudo aquilo que vinha de dentro, da parte mais profunda do seu ser. E tudo isso em pleno século XX. Um século em que ideias rígidas eram quebradas por artistas libertadores. E a sociedade clamava por essa libertação.

Maria foi uma das pessoas que trouxe uma inovação. Casada, se apaixonou por outra pessoa e desquitou-se do primeiro marido, casou-se com o segundo, que era diplomata e amigo de Getúlio Vargas. Ao perder a guarda da filha para o ex-marido, transformou sua dor em arte. Mais tarde, foi pra Europa se descobrir e descobrir o que queria fazer. Sua arte é transgressora, tal como sua vida. Ela não era o que as pessoas esperavam de uma esposa de um diplomata, de uma mulher. Ela tinha a força para ser quem queria, muito mais, ela tinha o ímpeto de ser.

Sem dúvidas há uma lacuna na educação brasileira. Nós não somos apresentados a grandes artistas e a suas obras. Principalmente, a artistas transgressores, libertários, revolucionários, que são reconhecidos por seus trabalhos e suas vidas lá fora, mas não dentro do Brasil. Conhecer a vida e obra de Maria poderia fazer com que muito dessa nova rigidez que se transformou a arte brasileira viesse ao solo. A artista quebra aquele paradigma que diz que antigamente as pessoas não faziam arte assim. Faziam e o documentário deixa claro isso.

Há aqui algo muito pontual, muito transparente: Maria Martins merece ser reconhecida. Como mulher, como mãe, como artista, como ser humano a frente do seu tempo. Seu discurso, que é encenado por atores baseado em entrevistas, principalmente uma que ela fez com Clarice Lispector, é forte e convicto. Hoje, ela seria brutalmente censurada e exposta pela sociedade que parece não ter saído dos anos XX. Mas, suas obras sobreviveram além do seu tempo. E aqui está o resultado disso. As entrevistas com pesquisadores, artistas, e até mesmo sua família, deixam claro que ela foi uma figura necessária. Sua força e maneira de expressar-se veio junto com muitas outras artistas, fazendo parte, mesmo que de modo sutil, do movimento feminista que pedia uma maior abertura para as mulheres daquela época.

Esta produção é um documentário e não tenta disfarçar isso com jogadas de distração. Há certos momentos de encenação, mas seu ponto forte está nas entrevistas que destacam Maria, e no reconhecimento de seu trabalho e de sua importância como artista e como mulher. Uma grande vantagem do filme é mostrar como várias culturas foram tocadas por suas obras, revelando-as em diferentes países como o próprio Brasil, França e Estados Unidos. Tudo muito claro, com uma profundidade na vida da artista que faz com que esta produção seja muito bem sucedida.

É, porém, um tema pontual. Apesar de ser o tipo de assunto que todos deveriam ver ou saber para não saírem por ai falando inverdades, esse é um projeto que tem um público certo: artistas, pessoas que admiram Maria Martins, e, quando muito, pessoas que gostam de um bom documentário. O tema, infelizmente, não é abrangente, e apesar de ser uma ótima obra, com um assunto maravilhoso, é um pouco limitador tanto em seu formato quanto em seu conteúdo. Uma pena porque é realmente muito bom.

“Maria – Não Esqueça Que Eu Venho Dos Trópicos” estreia no próximo dia 16 de novembro.

Crítica: Maria - Não Se Esqueça Que Eu Venho Dos Trópicos
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