Com a estatueta, ou não, uma animação reflexiva e subentendida


Vez ou outra nos deparamos com animações que vão além de uma bela produção, cores saltitantes na tela, ou uma trilha sonora pegajosa. Enquanto o que já existe for usado para progredir de maneira conceitual e narrativa, continuaremos nos surpreendendo. Esta publicação foi escrita às vésperas da 89ª cerimônia do Oscar, na qual “Minha Vida de Abobrinha” concorreu na categoria de Melhor Animação. Quando esta crítica for publicada, já saberemos o resultado. Sobre ele, não importa. O que é importante, sempre será a desconstrução fílmica daquilo que nos propomos assistir, refletir e escrever. Essa obra, como uma história, por si só já se torna relevante o suficiente para ficar marcada. Provavelmente não tanto quanto “La La Land”, que fez ressurgir a atenção para os musicais. Talvez isto não chegue nas próximas gerações de animações para jovens e adultos, mas já ficou conhecida.

Logo na cena de abertura, quando os créditos estão sendo mostrados, o realismo dos ambientes são perfeitamente aceitáveis de se confundir. É mostrado o céu, uma parede rabiscada e, por último, alguns lápis jogados no chão. Nesta cena é perceptível o design impecável dos cenários e a importância que ele tem e como servirá de plano de fundo para o resto do filme. Mas vamos para a enredo:

Icare, ou melhor, Abobrinha (Gaspard Schlatter), vive com sua mãe, uma mulher alcoolatra e agressiva. Após ela sofrer um acidente fatal, o menino é levado para um abrigo para crianças órfãs. A personalidade de Abobrinha é perceptível, não apenas por suas expressões, ou maneira de agir, mas muitas coisas estão nas entrelinhas dos acontecimentos. A forma como é mostrado o seu quarto, um lugar grande e vazio, a pouca luz que entra por uma janela. Um clima totalmente desfavorável para uma criança viver de maneira feliz. Em seguida descobrimos, novamente nas entrelinhas, que o seu pai talvez não esteja vivo. Através de uma pipa que o menino guarda com tanto carinho, com o pai desenhado nela e vestindo uma roupa de super-herói, o que pode afirmar que ele foi um homem bom. Mais um detalhe subentendido, e muito importante. É um prazer assistir um filme em que fica escancarado para o espectador a dedicação que foi fazer uma obra impecável esteticamente, e sem exageros.

Não temos aqui a animação como melhor enredo da história, mas o seu diferencial para tantas outras é a forma como o diretor Claude Barras, e a equipe de roteiristas, escolheu contar. Os personagens podem não serem os mais originais possíveis, porém o estilo gráfico dos personagens, com as expressões faciais extremamente marcadas pelos olhos, dão um toque mais dramático e comovente. Esse não é um filme inocente, de forma alguma. Em determinados momentos, de novo, nas entrelinhas, situações fortes são contadas.

A inocência das crianças está lá, os estereótipos também. Por exemplo, Simon (Paulin Jaccoud) é o praticador de bullying da casa, o “Chefe”. O sorriso só retorna ao rosto arredondado de Abobrinha quando ele conhece Camille (Sixtine Murat), a mais nova criança na casa. E este vira o restante do filme, a relação entre os dois, principalmente, mas também os conflitos internos, as dúvidas de qualquer criança que de uma hora para outra perde os pais e precisa adaptar-se em outra realidade, com novos companheiros.

Tantas coisas foram faladas neste texto, mas ainda sem mencionar a língua falada no filme. O francês dá o contorno especial, sem ele talvez a experiência perca em qualidade. Um pouco da dramaticidade está na língua, no som que as palavras fazem, na naturalidade. Assistir uma cópia dublada não é o mais indicado, e lá se vai um pouquinho do encantamento que esta obra é capaz de produzir.

Assista mais de uma vez, se possível, na primeira, aproveite. Na segunda, preste atenção ao redor, no todo, e no tudo que acontece e existe no ambiente, sempre tem algo significativo que diga muito sobre algum personagem ou situação. Um único desconforto, mas que é possível passar despercebido, seja o cuidado que houve em relação ao mundo fora da casa. É verdade que muito pouco é mostrado, porém, na cena onde Abobrinha é levado para o orfanato, a rua, a cidade e a natureza, parecem ter sido construídas de forma muito simples. Não que seja um enorme erro, mas visto o perfeito alinhamento dos cenários, esse ficou devendo.

“Minha Vida de Abobrinha” é uma coprodução entre França e Suiça, e estreou no Brasil no dia 16 de fevereiro. Assista ao trailer:

Crítica: Minha Vida de Abobrinha
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