Crítica (2): Moonlight – Sob a Luz do Luar

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” começa mostrando, em um belo plano sequência, um garoto fugindo de vários “valentões” do colégio. Ele, a fim de se esconder, entra em um quarto usado por traficantes de drogas, e é onde conhece Juan (Mahershala Ali), o dono da boca, que se tornará seu mentor e uma espécie de figura paterna (A cena em que Juan banha o garoto no mar, como um batismo, é a síntese dessa paternidade). Esse início resume o que será da vida do garoto dali em diante: em muitos momentos ele se esconde dos outros, esconde seus sentimentos e desejos; tenta escapar de seu passado assim que o amadurecimento chega, mas, faz parte de um ambiente que, com seus maus e bons momentos, molda-o como indivíduo.

Barry Jenkins constrói em três atos um estudo de personagem, mostrando a infância, a juventude e a fase adulta do garoto chamado Chiron. Os três atos são divididos como capítulos: i.little, ii.little e Black. Os atores que interpretam as três fases são competentes em desenvolver um personagem apoiado em expressões corporais, quase pantomímico. Os sentimentos demonstrados por essas, são potencializados pela direção e pela fotografia, que prezam pelos planos fechados, às vezes com rostos enchendo a tela.

A vida no gueto é brutal, principalmente nas cenas onde a mãe de Chiron está presente. Ela, quase em estado catatônico devido o uso de drogas pesadas, mal sabe o que acontece na vida do filho. Chiron se refugia na casa de Juan, onde consegue o mínimo de complacência, mesmo sendo Juan o traficante que vicia a sua mãe.

O filme possui elementos de tragédia, no entanto, mesmo ambientado em cenários de periferias perigosas, se afasta o máximo que pode das cenas de violência gratuita, não transformando seu personagem principal em um arquétipo. Há duas cenas dessa durante a projeção, e elas possuem significado para trama e trazem suas consequências.

Um meio violento só pode gerar pessoas violentas, já disseram alguns, mas não é o que acontece com Chiron, que, mesmo seguindo os passos de Juan e também se tornando um traficante respeitado por sua influência e postura, possui dentro de si uma extrema sensibilidade que tenta não demonstrar, mas que aflora naturalmente.  Aqui temos a figura do macho supostamente perigoso que tem em sua alma os delírios homossexuais nunca realizados com um antigo colega de colégio. Chiron descobre sua sexualidade já na adolescência, mas a reprimi para poder sobreviver em uma selva sem leis. Com o encontro com o tal amigo já adulto, ele não consegue ficar dentro da carapaça inventada e se entrega em sentimentos. Até a trilha sonora traz o embate entre o bruto e o sensível, revezando os Raps dos negros americanos com músicas sentimentais, como a canção “Cucurrucucu Paloma” de Caetano Veloso. Chiron começa como uma peça de barro e vai sendo moldado com os tapas e afagos que a vida lhe dá e, mesmo aos trancos, consegue se transformar em um ser acima do estabelecido por aquela sociedade em que vive.

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” é um bom drama que está no nível dos filmes indicados ao Oscar de 2017. Poderia até ganhar, não fosse a maior publicidade de seus concorrentes, pois, como os outros, não consegue ultrapassar a média.

Como nota, preciso dizer que “Moonlight: Sob a Luz do Luar” recebeu oito indicações ao Oscar, sendo uma delas a de ator coadjuvante para Mahershala Ali. Essa indicação não consigo entender, já que se trata de uma participação breve do ator, sem nenhum destaque em seu desempenho.

Crítica (2): Moonlight - Sob a Luz do Luar
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