Os vários projetos engatilhados para 2017 e 2018 transformam Doug Liman em um dos cineastas mais requisitados de Hollywood atualmente. Todos seus filmes são voltados para a ação e buscam proporcionar diversão ao espectador, mas sempre primando pelos roteiros bem construídos e pela direção extremamente segura. Digamos que Liman é um Michal Bay que deu certo. Entre as grandes produções em que está envolvido, ele encontrou tempo para dirigir “Na Mira do Atirador”, um filme de baixo orçamento financiado pela Amazon Studios. A história é sobre dois soldados do exército dos EUA que ficam encurralados por um atirador de elite em uma região inóspita do Iraque, já no final da guerra.

Passado em um único ambiente, “Na Mira do Atirador” é simples em sua proposta. Temos dois soldados americanos contra um resistente Iraquiano (deste só ouvimos a voz) em uma batalha de vida e morte. O interessante é que o Iraquiano não é tratado como o vilão e sim como mais uma vitima da guerra. Um homem comum transformado em combatente, assim como os norte-americanos.  A construção do jogo psicológico é competente, pois faz com que os soldados invasores sofram na pele por seus atos e percebemos que a guerra é mais complexa do que  normalmente é mostrada na televisão, ou seja, nem tudo é preto ou branco.

A ação característica do cineasta está presente em alguns momentos, mas são nos diálogos que o longa tira suas forças. Não é um filme sobre heróis patriotas caminhando em câmera lenta ao pôr do sol e sim de homens lutando por propósitos que eles não entendem completamente. Só sabem que há um inimigo do outro lado e que precisam cumprir suas missões. Isaac vivido por um competente Aaron Taylor-Johnson é a síntese do que é um soldado nas nossas guerras modernas. Ele se sente em casa em terras estrangeiras, pois não consegue voltar para sua vida monótona em seu país e, já que não entende todos os propósitos que o mantém ali, vive por um pouco de ação ou mesmo por garantir que um companheiro de pelotão se mantenha vivo.

A cinematografia também é minimalista porque não precisa construir grandes sequências de combate, que são comuns neste tipo de filme. A câmera se mantém quase todo o tempo em Isaac, focando em suas tentativas em descobrir a localização do atirador inimigo. A fotografia no deserto árido é composta unicamente pelo marrom, quase fazendo com que comamos a areia junto com os personagens. Os planos fechados em suas expressões fazem a desidratação e a dor de Isaac serem expostos, e a tensão ainda é aumentada porque, assim como ele, somos lançados contra tiros que não sabemos de onde vem. O senso de desorientação é extremo e trabalha em prol da narrativa. O atirador oculto, ou Ghost como é conhecido, é a representação de um país destruído, que busca nos escombros um caminho de sobrevivência; os mesmos escombros do muro – que antes era uma escola – onde os soldados imperialistas se abrigam. Essa destruição física passa a ser também psicológica, transformando vidas em poeira.

Filmes passados em um único cenário e que se apoiam quase totalmente em diálogos não costumam fazer sucesso com o público em geral, o que limita “Na Mira do Atirador” a uma audiência mais seleta, que traz pessoas que se interessam por conflitos psicológicos durante guerras. Ele possui uma hora em meia de duração, o que é suficiente para contar uma história sem muitos floreios e também ajuda em relação ao ritmo, que nunca se perde. O microcosmo aqui se torna a representação do todo, e isso já é suficiente para contar uma boa história.

 

Crítica: Na Mira Do Atirador
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