Na última semana teve fim a curta temporada da montagem teatral “Na selva das cidades – Em obras” na cidade do Rio de Janeiro. Em cartaz no teatro de arena da Caixa Cultural, o espetáculo, que é um dos indicados ao prêmio Shell (na categoria inovação, em SP) se baseia na Literatura de Bertold Brecht. Que mesmo datando do século passado se mostra perturbadoramente atual.

Ambientada na Chicago dos anos 1910, a narrativa conta a história de uma luta “ideológica” entre um americano pobre que trabalha em um sebo, e um rico comerciante oriental (e seus empregados, que melhor dão para capangas). A batalha se trava quando o abastado imigrante tenta convencer ao proletário de vender a ele sua opinião. Inicialmente alegando que a ele mais vale o dinheiro do que o Luxo de ter opiniões sobre o que quer que seja. Já neste ponto se põe na mesa uma triste e atual condição, na qual os menos afortunados devem estar subordinados aos prazeres (mais torpes) dos detentores do capital. A opinião a ser vendida tratava somente da qualidade de um dos livros do sebo. E ainda assim foi o ponto inicial de uma batalha ética e ideológica entre esses inimigos.

Cego pelo prazer da luta, o imigrante de Yokohama Shilink decide levar este combate infundado até às últimas consequências, permitindo que seu oponente, George Garga, torne-se responsável por tudo o que é dele. O que não se espera são os trágicos efeitos desse acordo, capaz de mudar dramaticamente o rumo da vida dos adversários e da família Garga. Já de antemão o público é avisado para não tentar questionar os motivos de tudo o que a trama trazia, ou mesmo quem venceria no final, e sim, se deixar levar criticamente pelo desenrolar da história. E novamente nos deparamos com a crua realidade: os motivos que nos levam a barbárie não são justos ou fundamentados. Eles são como são, e nessa escala de poder, todos dançam conforme a música.

O trabalho narra a todo tempo relações de poder e subordinação, apresentando questões raciais e sociais atemporais. Mas consegue inserir críticas a situação política atual no Brasil em pequenas falas bem encaixadas. Aproximando, desta forma, as questões de outrora a nossa realidade. Quase que esfregando em nossos narizes que tudo o que nos causava repúdio em cena, também nos deveria revoltar na vida.

A peça se apresenta como um livro dividido em capítulos, que são contados antes das cenas em textos que passam em telas sobre o palco. Antecipando o contexto e preparando o público para o que estaria por vir (o que quase sempre era além das expectativas criadas pelo resumo pré apresentado). Esta opção dá um ar diferenciado e aproxima ainda mais a cena de sua referência literária.

A ocupação trabalha fortemente com as noções de impermanência e transitoriedade, se apropriando dos locais onde se apresenta de uma forma diferente. Dentro da mesma base cênica, variam os palcos, a iluminação, e mesmo a pesquisa (que também considera as características locais). Na Caixa Cultural, trabalharam em um palco hexagonal, baixo em uma teatro de arena. Uma experiência em 360 graus que torna mais real uma vez que as cenas eram observadas por todos os lados.
Não existiam cuxias, e os atores aguardam suas entradas na primeira fileira da plateia, sendo atores e expectadores. Essa proposta é interessante, inclusive porque as trocas de roupas eram feitas fora do palco, mas nas vistas da plateia. É como se participássemos de todo o processo cênico.

O ritmo é intenso e bem desenhado. Ágil em textos, atitudes, corpos, músicas e iluminação. A atmosfera por vezes beira uma histeria coletiva (muito bem vinda). A luz em cena também é responsável por reforçar o estado de espírito dos personagens, além de bem diferenciar os locais por quais a trama passou. Assim, a ausência de cenário era suprida pelos apetrechos de cena e os recortes trazidos pela iluminação. A trilha sonora também caminha junto nesta proposta, sendo operada a frente de nossos olhos.

O espetáculo se faz necessário. Uma repercussão quase involuntária das mazelas sociais impressas nas selvas de pedra. Uma opção Inteligente que não se atém ao entretenimento.

Crítica: Na Selva das Cidades – em obras
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