Presente de despedida

Natal no título de um filme sempre nos faz pensar nas tradicionais produções para essa data tão festejada, quase sempre envolvendo crianças, renas, neve, Papai Noel ou algo muito mágico e fantasioso que pode ser visto por toda a família, mas com bom apelo para o público infantil. Não é o caso de “Natal em Conway”. Não que se trate de algo impróprio para menores, é apenas desinteressante para eles. Já para os adultos é bom avisar: se a data tocar em algum ponto sensível seu, talvez seja melhor ver este filme em qualquer outra época do ano, para economizar algumas lágrimas.

A câmera nervosa logo no início acompanha a arrumação de uma mala por uma jovem, Natalie Springer (Mandy Moore), que corre de um lado para o outro até deixar o namorado no aeroporto, rumo a Chicago. Em seguida, dirige para um tradicional subúrbio americano em busca da casa dos Mayor. Então, descobrimos que o filme não é sobre ela, e sim sobre Suzy Mayor (Mary-Louise Parker), doente que volta para casa em estado terminal, e seu marido durão – mas atencioso – Duncan (Andy Garcia). Natalie é a enfermeira responsável pelos cuidados paliativos e, por conta da natureza do trabalho, passa a residir com o casal, folgando uma vez por semana.

A trama se concentra na obsessão de Duncan em montar uma roda gigante no quintal, desde o momento em que, ao rever fotos antigas, Suzy se recorda de que foi pedida em casamento no topo desse brinquedo e que adoraria reviver aquela noite romântica. Para realizar tal feito, ele enfrenta Henry (Mark Jeffrey Miller), um velho de atitudes hostis que o supera no quesito personalidade durona e se refere ao precário lugar onde habita como “solo sagrado” e “meu reino”. Precisa também conviver com Tommy (Riley Smith), jovem que trabalha no jardim vizinho e com quem tem questões mal resolvidas no passado.
Em termos de qualidade artística, “Natal em Conway” não apresenta ousadias. A direção de John Kent Harrison é bastante convencional e apenas conta uma história sem maiores firulas. O longa é um tanto melodramático no roteiro e também em algumas interpretações; embora não sejam caricatos, em alguns casos os personagens também parecem estar representando personagens. Esse é o caso de Duncan; ele faz questão de estar sempre de cara amarrada e dar respostas curtas e secas. O persistente ar de zanga é quase uma máscara colada em seu rosto. No entanto, ao cuidar da mulher mostra-se muito afetuoso e sensível. Mandy Moore também parece um pouco engessada no papel de boa moça. O elemento divertido do filme fica por conta de Gayle (Cheri Oteri), a vizinha que inscreveu seu jardim numa mostra de Natal e é bastante competitiva a respeito disso. A atriz tem ótimo timing para o humor e a personagem é cômica por ser afetada e pernóstica. Sendo irmã do xerife, coloca-o em situações embaraçosas, e o roteiro proporcionou boas falas aos personagens, quebrando por alguns momentos a atmosfera mais melancólica que paira no ar por conta do fato de que alguém está irremediavelmente com os dias contados. Mary-Louise Parker convence como a suave e fisicamente frágil Suzy, que mesmo apesar de sua condição traz consigo uma certa leveza e bom humor.

O tom melodramático pode ser dominante, reforçado por música suave e até mesmo chuva em alguns momentos, mas o filme felizmente consegue ser menos piegas do que poderia acabar se tornando em uma história como essa. A montagem da roda gigante, mostrada em uma sucessão de fotogramas, desperta interesse, pois sabemos que é uma surpresa de Duncan para a esposa, nesse processo lento de despedida. “Natal em Conway” não é arrebatador como drama, mas pode agradar a quem aprecia histórias comoventes contadas com simplicidade.

Crítica: Natal em Conway
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