Uma caçada selvagem ao poeta revolucionário 

Um inspetor persegue o poeta chileno ganhador do prêmio Nobel Pablo Neruda, que se torna fugitivo no seu próprio país no final dos anos 40 por ser filiado ao partido Comunista.

Este é o mote do filme Neruda, selecionado como representante do Chile no Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017. O filme é dirigido por Pablo Larraín, escrito por Guillermo Calderón e protagonizado por Luis Gnecco e Gael García Bernal.

Com o ator chileno Luis Gnecco no papel de Pablo Neruda, o filme descreve os acontecimentos produzidos nessa perseguição, quando o poeta fugia das autoridades chilenas pela acusação de desacato ao então presidente do país, Gabriel González Videla. Gnecco nos oferece uma ótima interpretação dramática vivendo o senador comunista, poeta e boêmio Pablo Neruda com sua segunda esposa Delia, vivida pela atriz argentina Mercedes Morán, em ótima performance. O clima de luxúria e galhofa que domina o narrativa na orquestração da fuga de Neruda é um ponto alto do filme e Gnecco usa na medida o tom sínico e boêmio do poeta.

O ator mexicano Gael García Bernal, que ficou conhecido internacionalmente por sua atuação no filme “Amores Brutos” de Alejandro Gozález Iñarritu, interpreta o agente policial Oscar Pelochonneau, encarregado de prender Neruda, impedindo que o poeta fuja do Chile. O personagem é inventado para transformar a história numa grande fábula. O filme começa um pouco lento mas o ritmo acelera com a chegada do detetive. Todas as cenas que envolvem o atordoado policial que persegue Neruda funcionam, muito porque Bernal não se esforça em interpretar além do necessário, permitindo assim que a direção de Larraín consiga esculpí-lo na tela. A direção dá ao detetive e também a perseguição uma qualidade intencionalmente fictícia usando projeções, cortes específicos nas cenas e ainda transforma o detetive em narrador da trama, desvendando desta forma a ótica de Oscar.Larraín e Sergio Armstrong (diretor de fotografia), encontraram um perfeito tom noir, criando um ambiente quase sempre misterioso, dando o clima turvo que a perseguição exige. A trilha sonora é excepcional e também é decisiva para pontuar a atmosfera das cenas, mas a grande estrela do filme é a direção de Pablo Larraín. Com suas escolhas algumas vezes inusitadas, ele entrega ao expectador uma biografia nada tradicional. Na verdade, o diretor chileno opta por quebrar com a forma biográfica convencional e seu filme foca nos elementos abstratos e se concentra na interseção entre arte e política, verdade e mentira. Nos fazendo questionar sobre os fatos que vemos na tela. Larraín é um dos cineastas mais criativos do momento e, em Neruda, usa todo o seu talento em capturar a história de Guillermo Calderón com a câmera nos cativando a cada cena. A maneira em que ele quebra a realidade com a poesia ou a comédia em cortes muitas vezes brutais e pontuais dita toda a narrativa.

A história de Pablo Neruda já é fascinante e Larraín nos ganha sobretudo por ir além dos dados históricos, capturando sua essência através de uma narrativa poderosa, poética e cinematográfica. O filme é muito menos o que é dito e muito mais o que é visto. Corram já para os cinemas!

Estreia no Brasil: 15 de dezembro de 2016


Por Thiago Pach

Crítica: Neruda
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