Proposta inesperada

Envelhecer ainda é tabu. As reações que nossa sociedade tem em relação a astros e estrelas que foram famosos também por sua beleza mostram que não lhes damos o direito de ficar velhos e perder o frescor.

“Nossas noites” é protagonizado por dois grandes nomes do cinema que inclusive já fizeram par romântico na juventude: Jane Fonda e Robert Redford. Em “Descalços no parque” (1967), formavam um casal em plena lua-de-mel, sendo Jane uma esposa que mais lembrava uma menina mimada e dramática, e Robert o marido que não sabe bem ao certo como lidar com a impetuosidade da moça. Ambos exalavam beleza e juventude. Agora idosos, continuam bonitos, o que provavelmente os enquadra na categoria de pessoas que “envelheceram bem”. É interessante vê-los juntos novamente neste filme, que por conta da história parece torná-los mais humanos e reais. No entanto, é curioso imaginar como seria o mesmo enredo com dois atores em que a passagem do tempo tivesse deixado marcas mais visíveis: ao mesmo tempo que iriam parecer mais “gente como a gente”, o que poderia criar uma aproximação com o público, talvez o mesmo público não aceitasse tão bem o envolvimento entre os personagens por conta do preconceito.

Addie (Jane Fonda) e Louis (Robert Redford) são vizinhos há muitos anos, mas nunca foram exatamente próximos. Viúvos, moram sozinhos. Uma noite, Addie vai até a casa de Louis e lhe faz uma proposta inesperada: que passem a dormir juntos, apenas para poderem conversar até adormecer. Não se trata de sexo, segundo ela. Depois de refletir sobre o assunto, ele aceita e passa a pernoitar na casa de Addie, sempre preferindo entrar pelos fundos, pois segundo ele, “as pessoas fazem fofoca”.

O primeiro contato é um tanto estranho e ele não sabe nem mesmo sobre o que poderiam conversar – talvez o tempo? Mas ao levarem o combinado adiante, passam a falar sobre suas vidas e a fazer perguntas um ao outro. O filme é baseado no livro homônimo de Kent Haruf, último trabalho publicado do autor, falecido em 2014.
As conversas entre os dois evoluem para uma maior intimidade emocional e uma certa cumplicidade. O roteiro segue uma ordem cronológica, não há uso de flashbacks para contar a história dos personagens: tudo é relatado por eles mesmos.

A personagem de Jane encanta pela decisão e ousadia a respeito da proposta que faz a Louis; ela se mostra bem resolvida e dá pouca importância ao fato de que possam virar notícia na cidade, o que realmente acontece e que inicialmente deixa Louis irritado. O convívio entre eles sofre a interferência (positiva, no fim das contas) da chegada do menino Jamie (Iain Armitage), neto de Addie, que por questões em sua própria casa é levado pelo pai para um temporada com a avó. Temos aí a parte mais conflitante da história: Gene (Matthias Schoenaerts), o filho de Addie, seus ressentimentos em relação à própria infância, seus problemas afetivos com a mãe do menino. O roteiro revela questões do passado de Addie e Louis e traz a reflexão: o fato de que erros foram cometidos há muito tempo simplesmente os torna irrelevantes ou pelo menos perdoáveis? Ou podem continuar a ser fantasmas ainda na velhice?

Figurino e cenografia definem bem Addie e Louis: enquanto ela usa roupas mais alegres e joviais e sua casa é mais colorida, ele, embora não seja descuidado, não se preocupa muito em variar o visual, mantendo uma série de camisas no padrão xadrez no armário. Além disso, sua casa arrumada e mais sóbria transmite um certo isolamento que a de Addie não possui. São muito usadas as tomadas que acompanham o caminhar do casal, e também cortes para mostrar a reação que cada um deles tem à fala do outro. A fotografia explora cenários belíssimos na estrada e nas montanhas, em harmonia com a trilha sonora de Elliot Goldenthau. O diretor Ritesh Batra realizou um trabalho equilibrado em diversos aspectos, contando uma história cotidiana de maneira cativante e sem maiores firulas. Os filmes em que os protagonistas estão na terceira idade têm se tornado mais numerosos e de qualidade e este é especialmente positivo por mostrar personagem independentes, com seus próprios desejos e sem medo de serem felizes.

Crítica: Nossas noites
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